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Infraestrutura: Brasil precisa dobrar investimentos para alcançar padrões internacionais

Infraestrutura: Brasil precisa dobrar investimentos para alcançar padrões internacionais
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Brasil se encontra diante de um desafio monumental: a necessidade de duplicar seus investimentos em infraestrutura para superar um déficit histórico que freia o desenvolvimento econômico e compromete a qualidade de vida da população. Um estudo aprofundado da Confederação Nacional da Indústria (CNI), intitulado Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil, lança luz sobre a urgência da situação e propõe um novo regime de financiamento, essencial para atrair capital privado e garantir a sustentabilidade de projetos de longo prazo.

A carência de infraestrutura adequada impacta diretamente a competitividade do país, elevando custos logísticos, dificultando o escoamento da produção e limitando o acesso a serviços básicos como saneamento e energia. Para reverter esse quadro, a CNI aponta que o Brasil precisa se aproximar dos padrões internacionais de investimento no setor, um passo crucial para destravar seu potencial de crescimento.

O Cenário Crítico da Infraestrutura Brasileira

Em 2024, os investimentos em infraestrutura no Brasil totalizaram R$ 266,8 bilhões, o que representa apenas 2,27% do Produto Interno Bruto (PIB). Este patamar é considerado insuficiente para atender às demandas crescentes de um país continental e em desenvolvimento. A CNI estima que, para zerar o déficit e se equiparar a nações com infraestrutura robusta, o Brasil precisaria elevar anualmente esse percentual para 4,65% do PIB, o que se traduziria em aproximadamente R$ 550 bilhões por ano, mantendo esse ritmo por pelo menos duas décadas.

A análise da CNI também detalha a origem desses recursos. Do total investido em 2024, a maior parte, R$ 188,1 bilhões (70,5%), veio do setor privado. Os investimentos públicos, por sua vez, somaram R$ 78,6 bilhões, com estados e municípios respondendo pela parcela mais significativa desses aportes. Essa distribuição reflete uma tendência de crescente participação privada no financiamento da infraestrutura, um movimento que se consolidou na última década.

A Proposta da CNI para um Novo Modelo de Financiamento

A Confederação Nacional da Indústria enfatiza que nenhuma fonte de recursos, isoladamente, é capaz de suprir as vastas necessidades do país em infraestrutura. Por isso, a entidade propõe um novo regime de financiamento que combine de forma inteligente e estratégica recursos públicos e privados. Esse modelo visa não apenas ampliar o mercado de capitais, mas também criar as condições necessárias para a atração e manutenção de investimentos de longo prazo, essenciais para projetos de grande envergadura e maturação demorada.

Ricardo Alban, presidente da CNI, ressalta a importância da estabilidade econômica e institucional como pilares para atrair e reter o capital. Em nota, ele defende que “o Brasil precisa de responsabilidade fiscal, instituições sólidas e segurança jurídica para criar condições de mobilizar mais recursos privados para o setor de infraestrutura, sem abrir mão do papel estratégico dos investimentos públicos”. Alban também advoga por uma estratégia de Estado, que transcenda governos, para garantir a continuidade e o sucesso dos projetos de modernização da infraestrutura.

A Transformação no Perfil dos Investimentos

O estudo da CNI revela uma mudança estrutural significativa na composição do financiamento da infraestrutura brasileira entre 2010 e 2024. Em valores atualizados para o ano de 2024, as fontes privadas registraram um salto expressivo, passando de uma média de R$ 88,6 bilhões no período de 2010 a 2014 para R$ 184,5 bilhões em 2024. Essa evolução demonstra a crescente confiança e o interesse do capital privado no setor.

Em contrapartida, os recursos públicos apresentaram um recuo considerável no mesmo intervalo, caindo de R$ 208,5 bilhões para R$ 107 bilhões. As instituições multilaterais, por sua vez, contribuíram com R$ 8,4 bilhões em 2024. Essa reconfiguração resultou em uma elevação da participação das fontes privadas no financiamento da infraestrutura, que passou de 29,3% entre 2010 e 2014 para 61,5% em 2024, evidenciando uma nova dinâmica no setor.

Pilares para a Atração de Capital Privado

Para que o novo regime de financiamento seja bem-sucedido, a CNI aponta um conjunto de medidas essenciais. A estabilidade macroeconômica e fiscal é crucial para reduzir riscos e o custo do capital, tornando o Brasil mais atraente para investidores. O fortalecimento do mercado de capitais, com a ampliação da participação de investidores institucionais, e a expansão do crédito privado, com modelos que distribuam riscos de forma mais eficiente, são igualmente fundamentais.

Além disso, a entidade defende a criação de uma carteira maior de projetos estruturados para concessões e parcerias, garantindo um pipeline robusto de oportunidades. A segurança jurídica e a previsibilidade regulatória, juntamente com a autonomia técnica das agências reguladoras, são vistas como indispensáveis para construir um ambiente de negócios confiável. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outras instituições públicas de desenvolvimento também têm um papel estratégico na redução de riscos, na estruturação de projetos e na mobilização do capital privado, atuando como catalisadores para os investimentos.

Lições Globais e o Caminho para o Futuro

A CNI analisou experiências de diversos países, como Reino Unido, Chile, Austrália, México, Espanha, Índia e França, buscando identificar fatores de sucesso na ampliação do financiamento em infraestrutura. Apesar das particularidades de cada modelo, a entidade identificou elementos comuns: estabilidade econômica, instituições confiáveis, previsibilidade regulatória, um mercado de capitais desenvolvido e a disponibilidade de instrumentos de longo prazo. Esses pilares servem como um guia para o Brasil.

A entidade enfatiza que os recursos públicos devem ser aplicados de forma estratégica, não apenas como fonte direta de financiamento, mas principalmente como um mecanismo para atrair e alavancar investimentos privados. O investimento público continuará sendo vital, mas o desafio é evoluir para um modelo onde esses recursos tenham uma capacidade ampliada de mobilizar o capital privado, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento e modernização da infraestrutura nacional.

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