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Brasil celebra queda de jovens nem-nem, mas desafios educacionais persistem

Brasil celebra queda de jovens nem-nem, mas desafios educacionais persistem
Foto:Paulo Pinto/Agência Brasil

O Brasil registrou um avanço significativo na redução do número de jovens que não estudam, não trabalham e nem estão em formação, os chamados “nem-nem”. Um relatório recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), intitulado Panorama da Educação 2026 (Education at a Glance), aponta uma queda de 4,4 pontos percentuais nesse índice entre 2016 e 2024. A taxa de pessoas de 18 a 24 anos nessa condição diminuiu de 26,8% para 22,4% no período, um dado que, embora positivo, ainda revela a complexidade dos desafios educacionais e de inserção profissional no país.

Essa redução é quase o dobro da média de 2,3 pontos percentuais observada nos países da OCDE no mesmo período, conforme destacado pelo Ministério da Educação (MEC) em nota à imprensa. O desempenho brasileiro, portanto, demonstra um esforço concentrado que superou a média internacional, mas a jornada rumo à plena inclusão desses jovens ainda é longa e exige políticas públicas contínuas e integradas.

Avanços e o Cenário dos Jovens Nem-Nem

A diminuição do percentual de jovens nem-nem é um indicador crucial para o desenvolvimento social e econômico de qualquer nação. No Brasil, a queda de 26,8% para 22,4% em oito anos representa milhares de jovens que encontraram caminhos para a educação ou o mercado de trabalho. O Ministério da Educação atribui parte desse progresso à implementação de programas como o Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro para a permanência e conclusão do ensino médio, e o Bolsa Família, que atua na transferência de renda para famílias em vulnerabilidade.

No entanto, apesar dos avanços, especialistas alertam para a persistência de gargalos. Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, reconhece os méritos da redução, mas enfatiza que os números ainda são insuficientes. Ele destaca que mais de um quarto dos jovens adultos brasileiros ainda não possui a educação básica completa, o que sublinha a necessidade de uma abordagem multifacetada. Para Henriques, é fundamental construir uma trajetória que permita ao jovem permanecer na escola, aprender, concluir sua formação e, finalmente, encontrar uma inserção profissional digna. Isso, segundo ele, requer uma atuação articulada entre educação, proteção social e políticas de trabalho.

Educação Básica: Conclusão e Abandono Escolar

O relatório da OCDE também trouxe dados animadores sobre a conclusão do ensino médio. A proporção de jovens de 25 a 34 anos sem o ensino médio completo caiu de 35% em 2016 para 26% em 2024. Embora essa redução seja expressiva, o percentual brasileiro ainda é significativamente superior à média de 12% verificada nos demais países da OCDE, evidenciando a lacuna que ainda precisa ser preenchida.

Outro ponto de destaque é a diferença de gênero na conclusão do ensino médio no Brasil. As mulheres apresentam uma probabilidade 7 pontos percentuais maior de concluir essa etapa da educação básica do que os homens. Essa disparidade é mais acentuada no Brasil do que na maioria dos outros países analisados pela OCDE. A organização internacional também revela que 20% dos estudantes que ingressam no ensino médio abandonam a escola antes de se formar, um desafio que impacta diretamente a qualificação da força de trabalho futura.

Em relação à conclusão do ensino médio, 79% dos novos alunos conseguiram finalizar essa etapa em até dois anos após o tempo regular previsto. Esse número fica um pouco abaixo da média de 85% dos países da OCDE. Após esse período estendido, apenas 1% dos estudantes ainda permanecia matriculado, tentando concluir os estudos. Quando se considera a população adulta de diferentes gerações (25 a 64 anos) com ensino médio completo, o Brasil alcança 40%, um percentual semelhante à média de 39% dos países da OCDE, indicando que as gerações mais velhas têm uma taxa de conclusão mais alinhada à média internacional.

O Desafio do Ensino Superior e a Transição Escolar

Apesar dos avanços na educação básica, o ensino superior ainda representa um grande desafio para o Brasil. Em 2024, apenas 22% dos adultos brasileiros em idade ativa (25 a 64 anos) possuíam ensino superior completo. Esse número é pouco mais da metade da média de 43% registrada nos países da OCDE, refletindo um “passivo educacional histórico”, como pontua Ricardo Henriques.

Para superar essa defasagem, Henriques defende a necessidade de ações integradas que garantam uma trajetória educacional contínua. Ele sugere o fortalecimento do ensino médio e a ampliação do acesso ao ensino superior, com a oferta de cursos mais flexíveis para adultos, apoio financeiro e uma melhor articulação entre a formação técnica e acadêmica. A expansão do acesso, segundo o especialista, deve ser acompanhada de qualidade e políticas de permanência, especialmente para aqueles que precisam conciliar estudos, trabalho e responsabilidades familiares. A restrição no acesso à formação superior não apenas desperdiça talentos e limita a mobilidade social, mas também impede o país de elevar sua produtividade, inovar e incorporar novas tecnologias.

A OCDE também analisa as transições entre os níveis de ensino, consideradas momentos cruciais na trajetória estudantil. No Brasil, um ano após a conclusão do ensino fundamental, 87% dos alunos prosseguem para o ensino médio, 4% repetem o último ano do fundamental 2 e 8% deixam o sistema formal de ensino. Este último percentual é superior aos 5% de estudantes que não se matriculam no ensino médio na média dos 22 países e economias com dados disponíveis. Para mitigar o abandono, a OCDE recomenda o monitoramento rigoroso da frequência e do desempenho, além de apoio pedagógico individualizado. Ricardo Henriques complementa que a escola deve agir preventivamente, com recomposição da aprendizagem em leitura e matemática, diálogo com as famílias e uma recepção estruturada dos estudantes na nova etapa. A criação do Identificador Nacional Único do Estudante (Inue), em março deste ano, é um passo importante para unificar o registro da trajetória escolar, mas exige capacitação dos profissionais para que os dados sejam efetivamente utilizados no diagnóstico e apoio aos estudantes.

O relatório Panorama da Educação 2026 utiliza dados nacionais do Censo Escolar da Educação Básica, Censo da Educação Superior, pesquisas do IBGE e informações da pós-graduação da Capes para compor seus indicadores no Brasil. As informações completas do estudo estão disponíveis no site da OCDE.

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