A trajetória das disputas eleitorais no Brasil ao longo do último século é contada de forma singular em uma residência no Paraná. O historiador Rafael Gustavo Pomim Lopes transformou uma paixão de infância em um acervo robusto, composto por mais de 4 mil itens que documentam a evolução das campanhas políticas no país. A coleção, que começou com simples santinhos recolhidos no bar de sua mãe, hoje é um registro histórico que abrange desde peças raras até objetos curiosos que, por mudanças na legislação, tornaram-se proibidos.
A origem e a expansão de um acervo histórico
O interesse de Rafael pelo tema surgiu no ano 2000, quando, ainda criança, começou a organizar os papéis de candidatos em um caderno, incentivado pelo pai. O que era um passatempo infantil ganhou contornos de pesquisa histórica com o passar dos anos e a formação acadêmica do colecionador. Hoje, o acervo é um mosaico da cultura política, reunindo desde urnas de lona — utilizadas antes da era da digitalização — até títulos de eleitor das primeiras décadas em que o voto feminino foi permitido no Brasil.
A diversidade das peças impressiona pela criatividade das campanhas de décadas passadas. O historiador guarda itens como tábuas de carne, pentes de cabelo, lixas de unha, cinzeiros e até ursinhos de pelúcia personalizados com nomes e números de candidatos. Muitos desses brindes, que já foram comuns na propaganda eleitoral brasileira, hoje são proibidos pela legislação vigente, o que confere às peças um valor documental ainda maior para pesquisadores e entusiastas da história política.
Preservação e o valor da democracia
Para Rafael, o acervo não se limita a uma distinção partidária ou ideológica. O historiador busca manter viva a memória de todos os envolvidos no processo democrático, independentemente da dimensão da candidatura. Entre as relíquias, destaca-se um cartão de agradecimento de 1947, distribuído por Rosi Pinheiro Lima, a primeira mulher eleita deputada estadual no Paraná, um item considerado um verdadeiro ‘xodó’ da coleção.
A busca por novos itens envolve uma rede colaborativa. Rafael integra um grupo de 26 colecionadores espalhados pelo Brasil que realizam trocas e garimpos constantes. Além disso, o historiador utiliza leilões on-line e plataformas de compra para adquirir peças que contam a história de eleições nacionais e até internacionais. Para ele, o ato de colecionar é uma forma de dar voz a quem, em diferentes épocas, colocou-se à disposição para tentar transformar a realidade de suas comunidades.
Conexão com o passado e o futuro
A relevância desse trabalho vai além do acervo pessoal. Ao preservar materiais que poderiam ser descartados ou esquecidos, o historiador contribui para a compreensão das mudanças nos costumes e nas estratégias de comunicação política. A coleção serve como um espelho da sociedade brasileira, refletindo as transformações sociais e a própria consolidação das instituições democráticas ao longo das últimas décadas.
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