Embora frequentemente associado ao universo feminino, o câncer de mama é uma realidade que também afeta os homens, e um alerta da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) destaca uma preocupante tendência: a descoberta da doença em estágios mais avançados nesse público. A iniciativa faz parte das ações de conscientização do Outubro Rosa, período dedicado à prevenção e ao combate ao câncer de mama, reforçando que a atenção à saúde mamária deve ser universal.
Os dados levantados pela SBRT, em colaboração com os Registros Hospitalares de Câncer (RHC) do Instituto Nacional de Câncer (Inca), revelam um cenário que exige maior visibilidade. Entre 2020 e 2023, foram identificados mais de 163 mil registros de câncer de mama no Brasil. Desse total, 2.126 casos foram diagnosticados em homens, o que representa cerca de 1,30% do total. Embora a proporção seja menor, a gravidade reside no momento da detecção.
A realidade do câncer de mama masculino: dados alarmantes
As estimativas do Inca apontam para um panorama desafiador na oncologia brasileira, com a expectativa de 781 mil novos casos de câncer por ano no país entre 2026 e 2028. Desses, 78.610 correspondem especificamente ao câncer de mama, configurando-o como o tipo mais incidente entre as mulheres, excluindo os tumores de pele não melanoma, e representando cerca de 10% de todos os novos casos anuais.
No contexto masculino, a baixa incidência relativa não diminui a importância do tema. O radio-oncologista e presidente da SBRT, Wilson José de Almeida Jr., enfatiza a necessidade de informar a população sobre essa possibilidade. “A população precisa saber que o câncer de mama pode acometer homens e, inclusive, ser também letal nesse público nos casos mais avançados”, alerta o especialista, sublinhando a urgência de desmistificar a doença como exclusivamente feminina.
Estágios avançados e o impacto do desconhecimento
Um dos pontos mais críticos do levantamento da SBRT é a análise do estadiamento do câncer de mama, que classifica a extensão da doença no momento do diagnóstico em estágios de 0 a IV. A pesquisa revelou que a metástase, ou seja, a disseminação do câncer para outras partes do corpo, é proporcionalmente mais frequente entre os homens.
Entre os homens com estadiamento registrado, 29,95% estavam no estágio IV, o mais avançado, enquanto entre as mulheres essa proporção foi de 26,42%. Essa diferença é significativa e aponta para um atraso no diagnóstico masculino. Nos estágios iniciais, como o estágio I, a proporção em homens foi de apenas 3,41%, contra 5,45% em mulheres. Os estágios III e IV, que indicam quadros mais avançados, concentraram 62,29% dos casos em homens e 61,57% em mulheres, mostrando que, para ambos os sexos, o diagnóstico tardio é um desafio, mas com uma particularidade preocupante para os homens.
Fatores de risco e a importância da observação
A rádio-oncologista e diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Radioterapia, Denise Ferreira, atribui a maior proporção de casos em estágio IV entre os homens ao desconhecimento geral de que eles também podem desenvolver a doença. “Muitos demoram a procurar atendimento ao perceber alterações na região. Além disso, como possuem pouco tecido mamário, o tumor pode atingir estruturas próximas, como a pele ou músculos do peito, mesmo quando ainda é pequeno. A presença de caroços, alterações no mamilo ou secreção, especialmente com sangue, deve ser investigada”, explica a médica.
O câncer de mama masculino representa menos de 1% dos casos totais devido à menor quantidade de tecido mamário e à menor exposição ao estrogênio, hormônio que está frequentemente ligado ao desenvolvimento de tumores mamários. Contudo, alguns fatores podem aumentar o risco em homens, como mutações genéticas hereditárias, obesidade, histórico familiar e alterações hormonais. A atenção a esses fatores e a qualquer sinal incomum é crucial para um diagnóstico precoce.
Tratamento e perspectivas de sobrevida
O tratamento do câncer de mama, tanto em homens quanto em mulheres, geralmente inicia-se com a cirurgia quando a doença está localizada. A partir das características do tumor, podem ser associadas outras terapias, como a terapia hormonal, quimioterapia e radioterapia. Denise Ferreira destaca a relevância da radioterapia, especialmente no pós-cirúrgico, para minimizar o risco de recorrência da doença na área tratada.
“Sua indicação depende do estágio do câncer e das características de cada paciente. Atualmente, técnicas modernas permitem tratamentos precisos, com maior proteção dos tecidos saudáveis”, afirma a médica. Ela ressalta que a sobrevida dos pacientes é um indicador mais completo que a letalidade, dependendo do estágio do diagnóstico, das características do tumor e da resposta ao tratamento. Os dados mostram que a sobrevida relativa dos homens com câncer de mama em cinco anos supera 80%, considerando todos os estágios, e pode ultrapassar 95% se o câncer for identificado ainda restrito à mama.
Apesar de o diagnóstico em homens frequentemente ocorrer em estágios mais avançados, a médica enfatiza que existem boas possibilidades de tratamento. Reconhecer os sinais de alerta e buscar atendimento médico precocemente são, portanto, passos fundamentais para melhorar os resultados e a qualidade de vida.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) também realizou um levantamento, analisando quase 118 mil mulheres diagnosticadas entre 2020 e 2023. Os dados revelam que, entre as mulheres com até 39 anos, 85,6% foram diagnosticadas nos estágios II, III ou IV, enquanto apenas 14,4% estavam nos estágios 0 ou I. Isso reforça a importância de investigar alterações persistentes nas mamas em qualquer idade, mesmo antes da idade recomendada para o rastreamento por mamografia, que geralmente começa aos 40 anos para mulheres sem fatores de risco conhecidos. Para mais informações sobre o tema, você pode consultar a Agência Brasil.
A conscientização sobre o câncer de mama, tanto para homens quanto para mulheres, é uma ferramenta poderosa na luta contra a doença. Ficar atento aos sinais do corpo e procurar um médico ao menor sinal de alteração pode fazer toda a diferença no prognóstico e na eficácia do tratamento.
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