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Deputada que fez blackface na Alesp declarou-se parda à Justiça Eleitoral e acessou verba para cotas raciais

© TSE/Reprodução

Um incidente chocante na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) desencadeou uma série de controvérsias que vão desde acusações de racismo e transfobia até questionamentos sobre a integridade do processo eleitoral. A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) se tornou o centro das atenções após utilizar a prática de blackface para criticar a deputada federal Erika Hilton (PSOL), em uma manifestação que rapidamente gerou pedidos de cassação. O episódio ganhou uma camada adicional de complexidade e debate quando se revelou que Fabiana Bolsonaro, que se declarou “branca” em plenário, havia registrado sua candidatura como “parda” à Justiça Eleitoral em 2022, o que lhe permitiu acessar recursos destinados a candidatos negros e pardos.

O Blackface na Tribuna da Alesp e a Reação Imediata

O palco da polêmica foi a tribuna da Alesp, na última quarta-feira (18), quando Fabiana Bolsonaro subiu para se manifestar. Com o rosto e os braços pintados de preto, a deputada utilizou a performance para contestar a eleição de Erika Hilton para a Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. Durante sua fala, Fabiana proferiu frases como: “Eu sou uma mulher. Não adianta se travestir de mulher. Eu não estou aqui ofendendo transexual, muito pelo contrário, eu estou dizendo ‘eu sou mulher, quero ser vista como mulher. A mulher do ano não pode ser transsexual’.” As declarações, além de transfóbicas, foram consideradas por muitos como uma clara provocação racista e desrespeitosa.

A prática do blackface, utilizada por Fabiana Bolsonaro, tem raízes históricas profundas e dolorosas. Originada nos Estados Unidos do século XIX, era um tipo de maquiagem teatral em que artistas brancos pintavam o rosto de preto para caricaturar pessoas negras, reforçando estereótipos pejorativos e desumanizando essa população. No Brasil, embora com contornos diferentes, a prática também é intrinsecamente ligada à ridicularização e à manutenção de preconceitos raciais. O uso do blackface em um espaço institucional como a Alesp, por uma figura pública, é visto como uma afronta à luta por igualdade racial e um desrespeito à história e à identidade da população negra no país.

Autodeclaração Racial e Recursos Eleitorais: O Nó da Controvérsia

A gravidade do episódio foi amplificada pela revelação da autodeclaração racial da deputada. Enquanto discursava na Alesp, Fabiana Bolsonaro afirmou categoricamente: “Sou branca. Se eu me travestir de preto sou preta?”. Contudo, o site DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que reúne as informações de candidaturas, aponta que, para as eleições de 2022, ela se declarou como “parda”. Essa discrepância veio à tona por meio de publicações da deputada estadual Monica Seixas (PSOL), que levantou a questão nas redes sociais, adicionando uma camada de questionamento sobre a transparência e a legitimidade da autodeclaração em processos eleitorais.

A autodeclaração parda não é um mero detalhe burocrático. No contexto da legislação eleitoral brasileira, candidatos que se autodeclaram negros ou pardos têm direito a receber verbas do Fundo Eleitoral destinadas a promover a representatividade racial na política. Essa medida visa corrigir a histórica sub-representação dessas parcelas da população nos espaços de poder. Fabiana Bolsonaro recebeu R$ 1.593,33 desse tipo de repasse. O uso desses recursos, associado à sua performance de blackface e à afirmação de ser “branca”, levanta sérias dúvidas sobre a intenção por trás da autodeclaração e a efetiva aplicação das políticas de cotas raciais.

A situação reacende um debate complexo sobre a fiscalização das autodeclarações raciais no Brasil. Embora a lei confie na boa-fé do candidato, casos como o de Fabiana Bolsonaro provocam discussões sobre a necessidade de mecanismos mais robustos para evitar fraudes, garantindo que os recursos e as cotas beneficiem efetivamente aqueles a quem se destinam, e não sejam instrumentalizados para ganhos políticos ou financeiros ilegítimos. A questão da identidade racial, que é multifacetada e subjetiva em muitos aspectos, ganha contornos de integridade política quando se conecta a direitos e deveres eleitorais.

Repercussões Políticas e o Debate Sobre Identidade e Representação

As ações de Fabiana Bolsonaro não ficaram sem resposta. Deputados estaduais, incluindo a já mencionada Monica Seixas, rapidamente apresentaram pedidos de cassação de seu mandato. As solicitações se fundamentam não apenas na prática de blackface e nas falas transfóbicas, que configuram quebra de decoro parlamentar e crimes de discriminação, mas também na possível fraude eleitoral decorrente da autodeclaração racial para acesso a fundos específicos. A repercussão do caso se estendeu às redes sociais, onde a indignação e o debate sobre racismo e transfobia foram intensificados, com a sociedade cobrando postura rigorosa das instituições.

A figura de Erika Hilton, deputada federal e primeira mulher trans e negra a ser eleita para o Congresso por São Paulo, é central para entender a carga simbólica do ataque. A tentativa de deslegitimar sua eleição para a Comissão da Mulher, usando blackface e discursos transfóbicos, não é apenas um ataque pessoal, mas uma afronta à representatividade de grupos minorizados e à diversidade que se busca construir nos espaços de poder. O episódio expõe a persistência de preconceitos arraigados e a polarização ideológica que muitas vezes se manifesta em formas de discurso de ódio.

A deputada Fabiana de Lima Barroso, que adotou o sobrenome “Bolsonaro” por afinidade política e sem parentesco com o ex-presidente Jair Bolsonaro, viu sua estratégia política ser ofuscada pela série de controvérsias. O incidente em São Paulo se insere em um contexto nacional mais amplo de discussões sobre o papel da identidade na política, os limites da liberdade de expressão em relação à dignidade humana e a urgência de combater todas as formas de discriminação. Para o eleitor, a transparência e a coerência dos representantes públicos são fundamentais para a credibilidade da democracia.

Ainda é cedo para prever os desdobramentos completos dos pedidos de cassação e das investigações sobre a autodeclaração racial de Fabiana Bolsonaro. Contudo, o caso já se solidificou como um marco nas discussões sobre ética política, combate ao racismo e à transfobia e a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Acompanhe o Guarapuava no Radar para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que impactam a sociedade. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, trazendo as diversas perspectivas dos fatos que moldam o nosso dia a dia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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