Em um cenário onde a natureza muitas vezes cede espaço ao avanço urbano, a história da empresária Josilene Bertolin Irmer, de Apucarana, no norte do Paraná, surge como um poderoso testemunho de resiliência e afeto. Após um investimento de R$ 18 mil e mais de um ano de dedicação incansável, Josilene não apenas 'ressuscitou' uma imponente Ficus elastica, conhecida popularmente como falsa-seringueira, mas agora celebra o florescer de novos brotos e o desenvolvimento vigoroso de galhos, um deles atingindo impressionante um metro de comprimento. Um esforço que, nas palavras da própria empresária, "está mostrando que valeu a pena".
Memórias de Infância e o Tombo Inesperado
A conexão de Josilene com a majestosa falsa-seringueira remonta à sua infância. Quando criança, ainda morando em Bom Sucesso, as viagens de 34 quilômetros até Apucarana eram marcadas por momentos de brincadeira e descontração sob a vasta sombra daquela árvore, um verdadeiro ponto de referência e cenário de memórias afetivas. “Coisa de criança, a gente brincava de esconde-esconde”, ela recorda, evocando a simplicidade de tempos passados que moldaram seu vínculo com a planta. Anos mais tarde, já residindo em Apucarana, o contato com a árvore permaneceu, transformando-se em um cuidado espontâneo e contínuo.
No entanto, a tranquilidade dessa relação foi abruptamente interrompida em 10 de dezembro de 2024. Aos 48 anos, Josilene recebeu a notícia chocante: a falsa-seringueira de 12 metros de altura havia tombado, atingindo oito carros estacionados na Rua Nova Ucrânia. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) de Apucarana confirmou que a queda foi consequência do apodrecimento da raiz, um destino comum para árvores de grande porte em ambientes urbanos que, por vezes, sofrem com a compactação do solo e a falta de manejo adequado, especialmente em calçadas e infraestruturas limitadas.
A Decisão Inusitada: 'Não Estou Louca, Eu Quero Ela para Mim'
Diante da cena de destruição, a maioria veria apenas o fim de uma árvore. Josilene, contudo, enxergou uma oportunidade de esperança e resgate. Após recolher alguns galhos do local do acidente, a empresária tomou uma decisão audaciosa e que muitos considerariam excêntrica. “Eu falei 'não, eu não estou louca, eu quero ela para mim'”, relata, evidenciando a força de sua convicção e o apego sentimental que transcendia o dano material e o parecer técnico. Era o início de um complexo e custoso projeto de recuperação.
Com o aval e a licença da Sema, Josilene deu início à desafiadora operação de transporte. Foram necessários dois guinchos, pois o primeiro não conseguiu erguer o tronco monumental da árvore. Com sucesso, a falsa-seringueira foi cuidadosamente levada por um caminhão até o Patrimônio Rural de São Sebastião do Barreiro, a cerca de dez quilômetros de distância, onde a família de Josilene possui uma chácara. Ali, uma nova etapa se iniciava: o replantio. Para garantir a estabilidade e a sobrevivência de uma árvore com tal porte, o tronco foi plantado quatro metros abaixo do solo, deixando seis metros de sua estrutura visíveis, em um arranjo que visava fixá-la firmemente e estimular o desenvolvimento de um novo e robusto sistema radicular.
Uma 'UTI' para a Natureza: O Rigor dos Cuidados
O replantio foi apenas o começo. Para que a falsa-seringueira, carinhosamente apelidada de 'Esperança' por Josilene, tivesse uma chance real de renascer, foi montado um complexo sistema de cuidados, comparável a uma verdadeira Unidade de Terapia Intensiva para plantas de grande porte. Um sistema de irrigação ininterrupta foi instalado por meio de dois canos subterrâneos, garantindo que a planta recebesse água constantemente. A adubação diária e a aplicação de “remédios” específicos para a espécie foram implementadas para nutrir o tronco e prevenir o apodrecimento das partes cortadas e o desenvolvimento de novas raízes saudáveis.
A exclusividade no conhecimento sobre o funcionamento desse sistema, restrito a apenas três pessoas, reflete a dedicação e a preocupação com a segurança e a integridade da árvore. Além disso, 'Esperança' é protegida por grades e monitorada por uma câmera, permitindo que Josilene acompanhe seu desenvolvimento à distância, a qualquer momento. Toda essa estrutura de transporte, replantio e cuidados intensivos somou o investimento inicial de R$ 18 mil, um valor considerável que dimensiona o compromisso da empresária. Mensalmente, os custos de manutenção giram em torno de R$ 300, destinados principalmente à compra de adubos adequados, um gasto que, para Josilene, é insignificante diante da recompensa diária de ver a vida florescer.
Os Sinais de Vida e a Recompensa Emocional
A paciência e o investimento começaram a dar frutos em agosto de 2025, sete meses após o tombamento. Josilene relatou os primeiros dez brotos firmes no tronco da árvore, um sinal inequívoco de que a vida persistia. Hoje, mais de um ano depois do replantio, a falsa-seringueira está robusta e surpreende a todos com seu vigor. “Aqui já tem galho dela de mais de um metro de altura […] Verdinho. Está a coisa mais linda”, descreve Josilene, com a voz embargada pela emoção e o orgulho de um trabalho bem-sucedido.
A história de 'Esperança' transcendeu as cercas da chácara. A empresária relata que algumas pessoas buscam propriedades vizinhas apenas para poderem admirar o tronco de seis metros que emerge do solo, mesmo que de longe. Esse reconhecimento do público é mais uma camada da gratificação para Josilene, que sente uma conexão profunda e recíproca com a árvore. “Eu sinto que ela me agradece todo dia pelo que nós fizemos para ela […]. Cada folhinha que ela solta ali, eu acho que é um agradecimento dela: 'Obrigada por não desistir de mim'”, expressa a empresária, em um relato que mistura a ciência da botânica com uma sensibilidade puramente humana.
Além do Investimento: O Valor da Vida e da Conexão
O caso da falsa-seringueira de Apucarana vai muito além dos números e dos desafios logísticos. Ele ressalta a importância vital das árvores maduras no ambiente urbano – atuando na regulação térmica, na qualidade do ar, na conservação da biodiversidade e como elementos da memória e da identidade local. A perda de uma árvore desse porte representa uma lacuna difícil de preencher, e o esforço de Josilene demonstra que, com paixão e recursos, é possível intervir positivamente no ciclo da natureza, prolongando a vida de um ser que seria descartado.
A história de 'Esperança' serve como um poderoso lembrete sobre o impacto que ações individuais e a iniciativa privada podem ter no meio ambiente e na comunidade. É um convite à reflexão sobre a forma como nos relacionamos com a natureza e o valor que atribuímos à vida, mesmo àquela que não se expressa em palavras. Em um mundo cada vez mais conectado por telas, a empresária de Apucarana nos reconecta à terra, mostrando que o investimento em vida, seja ela vegetal, sempre vale a pena. A árvore, que outrora marcou a infância de uma menina, agora inspira uma cidade inteira, testemunhando que o afeto tem o poder de gerar novas raízes.
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Fonte: https://g1.globo.com