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IBGE revela que quatro em cada dez adolescentes já sofreram bullying na escola, com aumento na intensidade dos casos

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Um retrato alarmante da realidade escolar brasileira foi traçado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (25), com a divulgação dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). O estudo revela que quase quatro em cada dez estudantes com idades entre 13 e 17 anos já foram vítimas de bullying nas escolas, um fenômeno que se mostra cada vez mais persistente e intenso no ambiente educacional. Os números, coletados em 2024, acendem um alerta para a saúde mental e o bem-estar dos adolescentes em todo o país, refletindo desafios crescentes na convivência escolar.

A pesquisa aprofunda a compreensão sobre a natureza do bullying, apontando que 27,2% dos alunos nessa faixa etária sofreram alguma forma de humilhação não apenas uma, mas duas ou mais vezes. Essa reincidência, conforme destacou o gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, é um dos pontos mais preocupantes. O cenário atual não é apenas de alta incidência, mas de um agravamento qualitativo, onde as situações de violência se tornam mais repetitivas e impactantes para os jovens, exigindo uma atenção redobrada de pais, educadores e da sociedade em geral.

O Agravamento do Cenário: Mais Violência, Mais Reincidência

Comparado à edição anterior da PeNSE, realizada em 2019, o total de estudantes que declararam ter sofrido bullying teve um aumento de 0,7 ponto percentual, atingindo 39,8%. Contudo, o dado que mais preocupa é o salto de mais de 4 pontos percentuais na proporção de alunos que vivenciaram a violência por duas vezes ou mais. “O bullying já é caracterizado como algo persistente, intermitente… E nós observamos aqui uma tendência de aumento, o que indica que mais estudantes passaram a vivenciar situações repetidas de violência”, explicou Andreazzi. Isso significa que, além de mais estudantes serem vítimas, aqueles que sofrem tendem a experimentar episódios mais frequentes, intensificando o impacto negativo em suas vidas.

A persistência e a intensidade dos episódios são fatores cruciais, transformando o bullying de um incidente isolado em uma rotina de sofrimento. Este padrão pode ter consequências devastadoras na autoestima, no desempenho acadêmico e na saúde mental dos adolescentes, podendo levar a quadros de ansiedade, depressão e isolamento social. Os dados reforçam a necessidade de estratégias mais eficazes e contínuas para identificar, prevenir e intervir nessas situações, garantindo um ambiente escolar seguro e acolhedor.

Alvos Comuns e a Face Oculta da Agressão

A pesquisa do IBGE detalha os principais motivos por trás das agressões. A aparência, seja do rosto, cabelo (30,2% dos casos) ou do corpo (24,7%), continua sendo o alvo mais frequente. Em seguida, a cor ou raça motiva 10,6% dos ataques. Estes números evidenciam como estereótipos e preconceitos enraizados na sociedade se manifestam de forma cruel no ambiente escolar, gerando sofrimento e marginalização para os alunos que não se encaixam em padrões estabelecidos ou que são vítimas de discriminação racial.

Um dado particularmente intrigante e doloroso é que 26,3% dos alunos que sofreram bullying declararam não saber o motivo da agressão. Para os pesquisadores, essa falta de clareza é natural, dada a natureza muitas vezes coletiva e irracional do bullying. “Uma grande parte daqueles que sofrem não sabem por que, e isso é natural, já que o bullying ocorre coletivamente, e aquele que está sofrendo não necessariamente vê uma razão para isso. Pelo contrário, se sente completamente injustiçado”, pontuou Andreazzi. Esse sentimento de injustiça e a incapacidade de compreender a razão das ofensas podem agravar o trauma nas vítimas.

A PeNSE também revelou uma diferença significativa de gênero entre as vítimas: 43,3% das meninas afirmaram ter sofrido bullying, contra 37,3% dos meninos. Além disso, a proporção de estudantes adolescentes do sexo feminino que se sentiram humilhadas por provocações de colegas duas ou mais vezes (30,1%) é quase 6 pontos percentuais maior que a dos meninos. Essa disparidade sugere que as meninas estão mais expostas a determinadas formas de assédio ou são mais propensas a relatar tais experiências, demandando abordagens específicas para sua proteção.

Quem Agrediu e as Motivações Veladas

No lado oposto, 13,7% dos estudantes admitiram ter praticado alguma forma de bullying. Entre eles, os meninos (16,5%) superam as meninas (10,9%). As razões apontadas pelos agressores novamente incluem a aparência e a cor/raça. Contudo, a pesquisa identificou uma discrepância importante entre o que os agressores declaram e o que as vítimas percebem. Por exemplo, 12,1% dos autores afirmaram ter cometido bullying devido ao gênero ou orientação sexual das vítimas, mas apenas 6,4% das vítimas reconheceram essa motivação.

A mesma disparidade é observada em relação à deficiência: 7,6% dos agressores reconheceram esse motivo, enquanto apenas 2,6% das vítimas associaram o ataque à sua condição. Essa diferença pode indicar que muitas vítimas silenciam sobre as circunstâncias de suas agressões por medo de estigmatização, vergonha ou receio de retaliação. Essa invisibilidade de certas motivações torna ainda mais desafiadora a identificação e o combate eficaz ao bullying, especialmente quando ele se baseia em preconceitos sobre deficiência, gênero ou orientação sexual.

Além do Verbal: Agressões Físicas e o Desafio Virtual

O estudo do IBGE também aponta para um aumento preocupante nos conflitos físicos: 16,6% dos estudantes já foram agredidos fisicamente por colegas, com os meninos sendo as principais vítimas (18,6%). Esse percentual representa um salto em relação a 2019, quando 14% dos alunos relataram agressões físicas. O crescimento na proporção de estudantes agredidos duas vezes ou mais, de 6,5% para 9,6%, é outro indicativo da escalada da violência no ambiente escolar.

Em contraste, os casos de bullying virtual, praticados por meio de redes sociais ou aplicativos, apresentaram um leve recuo, de 13,2% para 12,7%. No entanto, as meninas continuam sendo as maiores vítimas desse tipo de assédio (15,2% contra 10,3% dos meninos). Embora o cyberbullying tenha diminuído marginalmente, a sua presença ainda é significativa e representa um desafio constante, dado o alcance e a permanência das agressões no ambiente digital, que muitas vezes ultrapassam os muros da escola e invadem a privacidade das vítimas a qualquer momento.

A Resposta das Escolas e a Urgência de Ações Coletivas

A pesquisa também levantou informações sobre as ações preventivas nas escolas, entrevistando gestores. O resultado mostra que apenas 53,4% dos alunos estudavam em unidades que aderiram ao Programa Saúde na Escola (PSE), que promove diversas ações para o bem-estar dos estudantes. Esse percentual indica uma lacuna significativa na cobertura de programas de prevenção, deixando quase metade dos adolescentes sem o suporte necessário para lidar com o bullying e outras questões de saúde mental.

Os dados do IBGE servem como um chamado urgente para a ação. O combate ao bullying exige uma abordagem multifacetada, envolvendo não apenas as escolas, mas também as famílias, a comunidade e o poder público. É fundamental que se invista na formação de professores, na criação de canais seguros para denúncias, no desenvolvimento de programas de conscientização e na garantia de que todas as escolas ofereçam suporte psicológico e pedagógico para vítimas e agressores. Somente com um esforço coletivo e contínuo será possível construir ambientes escolares verdadeiramente seguros, inclusivos e promotores do desenvolvimento saudável de todos os adolescentes.

Este panorama nacional sobre o bullying nas escolas é um convite à reflexão e à ação. O Guarapuava no Radar se compromete a continuar trazendo informações relevantes e contextualizadas para nossa comunidade, abordando temas que impactam diretamente a vida de nossos cidadãos. Acompanhe nossas reportagens e análises para se manter informado e participar ativamente da construção de uma sociedade mais justa e acolhedora.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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