Curitiba perdeu, aos 94 anos, uma de suas figuras mais emblemáticas e inspiradoras do cenário cultural: Efigênia Rolim, carinhosamente conhecida como a 'Rainha do Papel de Bala'. A multiartista, que fez da reciclagem um manifesto poético e da simplicidade um traço de genialidade, faleceu neste sábado (28) de causas naturais, no Asilo São Vicente, onde residia. Sua partida deixa um vazio na paisagem artística paranaense, mas seu legado de criatividade, resiliência e a capacidade de ver beleza no que é descartado permanece vivo, inspirando gerações e desafiando conceitos.
A artista por trás do apelido icônico
O título de 'Rainha do Papel de Bala' não era apenas um cognome afetuoso; ele sintetizava a essência da obra de Efigênia Rolim. Com mãos habilidosas e uma visão singular, ela recolhia as embalagens coloridas de doces, destinadas ao lixo, e as transformava em esculturas, vestimentas e instalações que encantavam a todos. Essa metodologia de trabalho não apenas revelava uma profunda sensibilidade artística, mas também antecipava, à sua maneira, discussões sobre sustentabilidade e o valor intrínseco de materiais que a sociedade geralmente ignora. Por décadas, Efigênia foi uma presença cativa e vibrante na tradicional feirinha do Largo da Ordem, em Curitiba, onde não apenas vendia suas criações, mas interagia, contava histórias e construía uma conexão humana genuína com o público, solidificando seu status de artista popular e acessível.
Uma vida marcada por arte e reinvenção
Nascida em 1931, em Minas Gerais, Efigênia Rolim empreendeu uma jornada que a traria para o Paraná. Em 1965, ela se mudou com a família para o Norte do estado e, seis anos depois, em 1971, estabeleceu-se em Curitiba, que viria a ser o palco principal de sua prolífica carreira. Autodidata, ela desenvolveu um estilo próprio, inconfundível, que a levou a ser reconhecida nacionalmente. Sua obra transcendeu as fronteiras das galerias convencionais, marcando presença em inúmeras exposições coletivas e individuais, eventos culturais, performances, desfiles de moda e até em congressos, demonstrando a versatilidade e a força de sua expressão artística.
Do 'mísero caído' à filosofia do renascimento
A inspiração para sua principal matéria-prima, o papel de bala, veio de uma observação perspicaz, conforme a própria Efigênia relatou em 2022, durante uma exposição no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR). Ao avistar um objeto brilhante nas ruas, que imaginou ser uma joia e depois descobriu ser um papel de bala descartado, ela inicialmente sentiu decepção. Contudo, essa decepção se transformou em uma epifania. Ela percebeu que o papel, antes valioso por embalar um doce cobiçado, era depois desprezado, tornando-se um 'mísero caído'. Essa reflexão a levou a um paralelo profundo com a vida humana e a tudo que é considerado sem valor, ressignificando o descartado e revelando sua beleza oculta. Sua arte, portanto, era um ato de redenção, um convite a ver a dignidade e a potencialidade em tudo aquilo que a sociedade tende a marginalizar.
Legado cultural e reconhecimento institucional
A singularidade da vida e da obra de Efigênia Rolim não passou despercebida pelo meio cultural, inspirando uma série de produções artísticas. Sua história foi eternizada em peças de teatro, obras cinematográficas como os documentários 'Rainha do Papel' (1999), dos paranaenses Estevan Silveira e Tiomkim, e 'O Filme da Rainha' (2006), do argentino Sérgio Mercurio, além de obras literárias, a exemplo do livro 'A Viagem de Efigênia Rolim nas Asas do Peixe Voador', da jornalista Dinah Ribas Pinheiro. Esse reconhecimento em diferentes linguagens artísticas sublinha a profundidade de sua influência e o caráter universal de sua mensagem.
Em 2013, a cidade de Curitiba prestou-lhe uma das maiores homenagens, concedendo-lhe o título de Cidadã Honorária, um marco para uma artista que construiu sua carreira fora dos circuitos acadêmicos tradicionais. O Museu Oscar Niemeyer (MON) também reconheceu sua contribuição, expressando em redes sociais que Efigênia 'via matéria-prima para expressar sua linguagem fantástica em um mundo que se confunde com o real', e que sua obra 'Vai o Carrinho com Cavaleiro e Anjinhos' (2017) integra o acervo da instituição. Essa presença em um dos maiores museus da América Latina é um testemunho da importância de sua arte e da quebra de barreiras entre o que é considerado 'arte popular' e a alta cultura, elevando o papel de bala ao patamar de elemento de museu.
Mais que uma artista, um símbolo para o Paraná
Efigênia Rolim representava muito mais do que uma artista local; ela era um símbolo da resiliência, da criatividade intrínseca ao espírito humano e da capacidade de transformar adversidades em arte. Sua trajetória ecoa em diversas comunidades do Paraná, servindo de inspiração para que se valorize a cultura popular e os talentos que emergem das mais diversas origens. Sua presença marcante na cena cultural de Curitiba e a repercussão de sua obra em níveis nacional e internacional demonstram a riqueza da produção artística paranaense, que muitas vezes encontra nas figuras autênticas e inovadoras seu maior expoente. A 'Rainha do Papel de Bala' nos deixa um legado de sensibilidade, provocação e, acima de tudo, a lição de que a arte pode, e deve, estar em todo lugar, transformando o ordinário em extraordinário.
A partida de Efigênia Rolim é uma perda inestimável, mas sua obra e sua história continuarão a encantar e a inspirar. Para aprofundar-se em personalidades que moldam a cultura paranaense e acompanhar os fatos mais relevantes de Curitiba, Guarapuava e região, mantenha-se conectado ao Guarapuava no Radar, seu portal de informação relevante e contextualizada, comprometido com a qualidade e a variedade de temas que importam para você.
Fonte: https://g1.globo.com