A justiça paranaense sentenciou Celso Fruet, de 72 anos, a mais de 16 anos de prisão por uma série de 126 crimes de estelionato que somaram prejuízos de R$ 23,8 milhões a mais de uma centena de agricultores. A condenação, anunciada na última sexta-feira (10), vem acompanhada de uma multa expressiva e da obrigação de ressarcir integralmente as vítimas. O caso ganhou contornos ainda mais chocantes com a revelação do Ministério Público do Paraná (MPPR): mesmo foragido e procurado pela polícia, Fruet mantinha um padrão de vida luxuoso, com gastos elevados em clínicas de estética, lazer e tecnologia, enquanto seus credores enfrentavam sérias dificuldades financeiras.
O Esquema de Milhões e a Condenação
Celso Fruet, proprietário de uma cerealista em Campo Bonito, município no oeste do Paraná, estava no centro de um sofisticado esquema fraudulento que lesou produtores rurais de toda a região. Sua empresa era responsável por receber e armazenar safras de soja, milho e trigo, mas, após a venda dos grãos, os valores devidos aos agricultores simplesmente não eram repassados. A investigação do MPPR revelou a gravidade da situação: mais de 100 famílias de agricultores foram diretamente afetadas, algumas perdendo economias de uma vida inteira.
Um dos aspectos mais graves do golpe foi a continuidade das operações mesmo após a venda da empresa. Em junho do ano passado, Fruet negociou a cerealista com uma cooperativa da região. Contudo, as apurações indicam que ele seguiu atraindo produtores, sem informá-los sobre a transação, recebendo a produção e, novamente, retendo os pagamentos. Essa manobra perpetuou a fraude e aumentou o número de vítimas, que depositavam sua confiança em um empresário com anos de atuação no mercado.
A Engrenagem do Engano
A cerealista de Fruet operava na região há cerca de três décadas, estabelecendo uma relação de confiança com os produtores locais. Para atrair e fidelizar seus clientes, o empresário oferecia preços pela saca de grãos ligeiramente acima da média de mercado – uma pequena vantagem que se mostrava irresistível para muitos agricultores. "Se a saca custava R$ 100, ele pagava R$ 104 ou R$ 105", detalhou a delegada Raiza Bedim, responsável pela investigação, explicando a estratégia de isca utilizada.
O golpe foi descoberto no final de julho. Fruet, após esvaziar os silos da empresa, desapareceu. Agricultores que se dirigiram ao local encontraram o prédio vazio, sem grãos, sem computadores e sem funcionários. A equipe restante informou que a cerealista havia sido vendida e que Fruet havia deixado a cidade. Esse desaparecimento repentino e o rastro de destruição financeira deixado para trás desencadearam a busca da polícia e a abertura do inquérito que culminou na condenação.
Ostentação e Fuga: Uma Vida Incompatível
Enquanto as vítimas lidavam com o desespero e a perda, Celso Fruet mantinha um estilo de vida que contrastava brutalmente com a realidade dos agricultores lesados. "Os extratos bancários revelaram que, enquanto as vítimas enfrentavam prejuízos econômicos, ele mantinha um padrão de vida elevado, incompatível, inclusive, com quem queria pagar os credores, com gastos em centros de estética, tecnologia e lazer, inclusive no período em que esteve foragido", afirmou a promotora Ana Carolina Lacerda Schneider, evidenciando a frieza do empresário.
O luxo não era segredo. Fruet ostentava carros caros, cavalos e fazendas em suas redes sociais, cultivando uma imagem de sucesso e prosperidade. Essa fachada, que por anos serviu para atrair a confiança dos produtores, desmoronou com a descoberta da fraude. Ele foi localizado e preso em Francisco Beltrão, em novembro, após cerca de quatro meses foragido da justiça, encerrando a temporada de gastos descontrolados e a fuga.
O Impacto nas Vidas dos Agricultores
A dimensão humana do golpe é devastadora. Famílias inteiras, que dependiam da venda de suas safras para sobreviver, foram mergulhadas em dívidas e desespero. Marilete Pagani, por exemplo, relatou que sua família perdeu 320 sacas de soja, um prejuízo estimado em R$ 38 mil. Esse valor seria crucial para custear o tratamento de seu pai, que sofre de Alzheimer e Parkinson. "Ficamos em desespero. A gente confiava, contava com aquilo ali. De repente, você perde tudo o que tinha. É uma revolta bem grande", desabafou Marilete, ecoando o sentimento de centenas de vítimas que viram seu trabalho e sua fé no sistema esvaírem.
O golpe de Fruet não é um incidente isolado, mas um reflexo da vulnerabilidade do setor agrícola a esquemas fraudulentos, onde a confiança mútua é um pilar essencial. A quebra dessa confiança abala não apenas a economia de indivíduos, mas a estrutura social de comunidades rurais inteiras, que dependem da previsibilidade e da ética nas negociações de seus produtos.
Antecedentes e Repercussão
As investigações revelaram que Celso Fruet já havia sido alvo de apurações por estelionato em outras cidades paranaenses, como Capanema e Virmond, sempre utilizando um modus operandi semelhante. Esse histórico sugere um padrão de conduta criminosa e uma reincidência que reforçam a gravidade de seus atos.
A defesa do empresário, por meio de seu advogado, já se manifestou, afirmando que acredita haver um equívoco na sentença e que a pena imposta é desproporcional. A intenção é recorrer da decisão, o que indica que o processo ainda terá desdobramentos nas instâncias superiores da justiça brasileira. A sociedade, em especial os agricultores lesados, aguarda que a reparação e a justiça sejam plenamente alcançadas.
O caso de Celso Fruet serve como um alerta sobre a importância da vigilância e da checagem de antecedentes em transações comerciais de grande volume, especialmente no setor agrícola, onde a relação de confiança pode ser explorada. O Guarapuava no Radar continua acompanhando os desdobramentos deste e de outros temas que impactam diretamente a vida e a economia da nossa região, comprometido em trazer informação relevante, apurada e contextualizada para nossos leitores.
Fonte: https://g1.globo.com