A promessa de eletrônicos, medicamentos e produtos variados a preços irresistíveis é um dos maiores atrativos para milhares de brasileiros que cruzam a Ponte da Amizade em busca das ofertas de Ciudad del Este, no Paraguai. Contudo, essa jornada em busca de bons negócios tem se transformado, para muitos, em um pesadelo de extorsão e até sequestro. Falsos guias operam na fronteira, utilizando táticas enganosas para atrair turistas e, uma vez capturados, submetê-los a situações de alto risco e violência.
As autoridades paraguaias e a Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp) têm emitido alertas constantes sobre a crescente onda desses golpes, que se valem da confiança e do desejo de economia dos visitantes. O que começa como uma abordagem aparentemente inofensiva com propostas tentadoras pode rapidamente escalar para um cenário de ameaça e coerção, revelando a face mais sombria do comércio informal na região de fronteira.
O roteiro do golpe: da oferta irresistível à ameaça armada
O modus operandi dos criminosos é bem articulado. Muitas vezes, as abordagens começam ainda do lado brasileiro, em Foz do Iguaçu, ou nos primeiros metros após a travessia para Ciudad del Este. Os falsos guias se apresentam com coletes, crachás ou panfletos, simulando profissionalismo e a existência de um serviço de “guias de compras” — algo que a Polícia Turística do Paraguai reforça veementemente que não existe de forma oficial. Eles prometem acesso a produtos com valores muito abaixo do mercado, criando uma ilusão de oportunidade única.
Um caso recente e emblemático ilustra a gravidade da situação. Um jovem turista de 27 anos, vindo de Maringá, no Norte do Paraná, foi abordado no centro de Ciudad del Este por um suposto guia que lhe ofereceu eletrônicos e medicamentos a preços vantajosos. Ao aceitar a proposta e se afastar de seu grupo de amigos, o turista foi levado para um cativeiro. Lá, homens armados com fuzis o ameaçaram de morte, exigindo um resgate de R$ 10 mil via Pix para sua libertação.
A vítima, em um momento de desespero, conseguiu entrar em contato com um amigo residente em Foz do Iguaçu, que prontamente acionou a Polícia Turística do Paraguai. A ação rápida foi crucial: enquanto era transportado de moto para buscar o dinheiro, o turista conseguiu escapar e se esconder nas proximidades da Ponte da Amizade, sendo resgatado pelas forças de segurança paraguaias. Três pessoas foram presas, e o caso segue sob investigação do departamento antissequestro do Paraguai, embora as identidades dos envolvidos não tenham sido divulgadas para não atrapalhar as investigações.
Números alarmantes: um retrato da insegurança na fronteira
A Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp) revela um cenário preocupante. Apenas em 2025, foram registrados 67 casos de extorsão e sequestro em Foz do Iguaçu. Nos dois primeiros meses de 2026, mais 16 ocorrências foram adicionadas a essa contagem. É importante notar que, embora os crimes ocorram em território paraguaio, muitas vítimas, ao retornar ao Brasil ou ao contatar familiares, registram os boletins de ocorrência em Foz do Iguaçu, refletindo o impacto transfronteiriço dessas ações criminosas nas estatísticas de segurança do Paraná.
O pico dessas ocorrências, tanto em 2025 quanto nos primeiros meses de 2026, foi em janeiro – período que coincide com o aumento significativo do fluxo turístico entre as duas cidades fronteiriças, impulsionado pelas férias e feriados. Esse dado não apenas sublinha a sazonalidade do problema, mas também a vulnerabilidade dos turistas que, muitas vezes, não conhecem os riscos inerentes a certas abordagens na região.
A complexidade da fronteira, com seu intenso movimento de pessoas e mercadorias, aliada a disparidades econômicas e a uma vasta rede de comércio informal, cria um terreno fértil para a atuação de grupos criminosos. A subnotificação é outro desafio, pois muitos casos de extorsão e ameaça não chegam a ser formalmente registrados, seja por medo das vítimas, desconhecimento dos procedimentos ou pela pressa em deixar a situação para trás. Isso dificulta ainda mais o combate efetivo a esses crimes.
A complexidade da fronteira e o alerta das autoridades
Ciudad del Este consolidou-se ao longo das décadas como um dos maiores polos comerciais da América do Sul, atraindo milhões de visitantes anualmente em busca de produtos variados. No entanto, essa efervescência econômica é acompanhada por desafios consideráveis de segurança. A ausência de um serviço oficial de guia de compras no Paraguai é um ponto crucial que as autoridades fazem questão de ressaltar. Isso significa que qualquer pessoa que se apresente como tal, oferecendo “vantagens” ou levando a “locais especiais”, deve ser vista com extrema desconfiança.
A delegada Clara Silva, da Polícia Turística do Paraguai, é enfática em suas orientações: “O recado é claro, se você vier fazer compras, o produto tem que sair da loja na sua mão. Não aceite entrega depois e, principalmente, não siga ninguém para locais isolados”. A principal recomendação é desconfiar de ofertas com preços excessivamente baixos – aqueles que parecem “bons demais para ser verdade” –, pois geralmente são a isca para o golpe. É fundamental evitar seguir desconhecidos para becos, prédios obscuros ou qualquer local fora da área comercial movimentada e estabelecida.
Sua segurança em primeiro lugar: como se proteger
Para evitar tornar-se mais uma vítima desses golpes na fronteira, a prevenção é a melhor estratégia. Planeje suas compras com antecedência, pesquisando preços e estabelecimentos confiáveis. Mantenha-se em áreas movimentadas e em lojas com boa reputação. Se for abordado por alguém que se apresenta como guia, decline educadamente e siga seu caminho. Lembre-se: não há atalhos seguros para grandes descontos em áreas de risco.
Em caso de qualquer dúvida ou situação suspeita, a recomendação é procurar imediatamente a Polícia Turística do Paraguai, localizada logo após a aduana. Denunciar é vital, não apenas para a sua segurança, mas para auxiliar as autoridades no mapeamento e combate às redes criminosas. A colaboração das vítimas é fundamental para que esses falsos guias e seus comparsas sejam identificados e presos, contribuindo para uma fronteira mais segura para todos os turistas.
A segurança dos turistas é uma preocupação constante, e a informação é a ferramenta mais poderosa para se proteger. Continue acompanhando o Guarapuava no Radar para se manter atualizado sobre temas relevantes, notícias de impacto e análises aprofundadas que afetam nossa região e o cenário nacional, com o compromisso de trazer sempre conteúdo de qualidade e contextualizado para você.
Fonte: https://g1.globo.com