Em um cenário global marcado por instabilidade geopolítica e flutuações no mercado de energia, a Petrobras anunciou um marco significativo que reacende o debate sobre a autossuficiência energética do Brasil. A companhia informou, na última terça-feira (12), que suas refinarias estão operando acima da capacidade nominal, um feito que a direção da estatal atribui a investimentos em confiabilidade e otimização operacional. Essa performance, que supera a barreira dos 100% em meses recentes, projeta impactos diretos na produção de combustíveis no país e na estratégia nacional de reduzir a dependência das variações do mercado internacional.
A revelação foi feita pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante a apresentação do balanço trimestral da estatal. Ela destacou que, embora o Fator de Utilização Total (FUT) das refinarias tenha se situado em 95% no primeiro trimestre deste ano, e alcançado 97,4% em março – a maior marca desde dezembro de 2014 –, os resultados de abril e maio indicam uma superação ainda mais expressiva, com o FUT ultrapassando a marca dos 100%. “A Petrobras não gosta de limites. Sua meta é superar limites todos os dias”, declarou Chambriard, sublinhando a ambição da empresa.
O que significa operar acima de 100% da capacidade?
Para compreender a relevância desse anúncio, é fundamental entender o conceito de Fator de Utilização Total (FUT). As refinarias são o coração da indústria petroquímica, onde o petróleo bruto é transformado em produtos essenciais como óleo diesel, gasolina, querosene de aviação (QAV) e outros derivados. O FUT é uma métrica que calcula o volume de petróleo processado em relação à capacidade de referência instalada da refinaria, respeitando rigorosos limites de projeto, segurança, meio ambiente e qualidade dos produtos.
Tradicionalmente, um FUT de 100% significa que a refinaria está operando no limite de sua capacidade projetada. No entanto, como explicou William França, diretor de Processos Industriais e Produtos, é possível superar esse patamar. “De ontem (11) para hoje (12) operamos com 103% nas nossas refinarias”, exemplificou França. Essa capacidade de ir além dos 100% é viável quando a carga de processamento consegue ser ligeiramente maior que a capacidade de referência, mediante aprovação e acompanhamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que garante a segurança e a conformidade das operações.
Investimentos e cenário geopolítico impulsionam a produção
A performance robusta das refinarias da Petrobras não é um acaso. William França detalhou que a expansão do FUT está diretamente relacionada tanto ao ambiente geopolítico internacional quanto a uma estratégia interna de otimização. Com tensões geopolíticas internacionais e seus reflexos nos mercados de energia, a empresa tem um incentivo econômico para refinar seu próprio petróleo. “Tivemos o efeito da guerra [conflitos geopolíticos]. Quanto mais refinar o nosso petróleo, mais dinheiro a gente está ganhando. Estamos agregando valor além das exportações do petróleo”, afirmou França, indicando a importância de verticalizar a produção.
Outro pilar dessa superação é o investimento contínuo em confiabilidade das instalações. O diretor destacou que a Petrobras tem focado em inspeções baseadas em risco e na implementação de ferramentas de engenharia avançadas. Isso se traduz em equipamentos que operam por mais tempo sem necessidade de intervenção, como bombas que agora funcionam 90% do tempo antes de manutenção, contra 70% anteriormente. A redução do tempo de intervenção e a maior confiabilidade das unidades permitem operar com cargas maiores por períodos estendidos, contribuindo significativamente para um FUT elevado.
Adicionalmente, o planejamento de manutenção tem sido crucial. O período atual, segundo França, tem sido de 'baixa' nas manutenções programadas, graças a um intenso ciclo de revisões realizado no ano passado. “Fizemos muita manutenção programada no ano passado para deixar as unidades prontas”, descreveu, explicando que esse preparo visa campanhas de produção mais confiáveis e com disponibilidade próxima de 100%.
Refinaria Abreu e Lima: um exemplo de sucesso e sustentabilidade
Um dos exemplos mais claros dessa estratégia é a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), localizada em Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife. Após passar por uma manutenção profunda no primeiro trimestre do ano passado, a RNEST, que tem capacidade para processar 130 mil barris de petróleo por dia, agora consegue operar entre 140 mil e 150 mil barris/dia. Essa capacidade aprimorada resultou em um recorde de produção de óleo diesel S-10 (com baixo teor de enxofre) em abril, atingindo 385 milhões de litros e superando a marca anterior de 373 milhões de litros registrada em 2016.
A produção recorde de diesel S-10 é particularmente relevante do ponto de vista ambiental e econômico. Esse combustível, menos poluente, atende às mais recentes especificações para veículos a diesel, contribuindo para a redução de emissões e para a sustentabilidade da frota nacional. A Petrobras possui um total de 11 refinarias em operação, incluindo o Complexo de Energias Boaventura no Rio de Janeiro, com a Refinaria de Paulínia (Replan), em São Paulo, sendo a maior e responsável por cerca de 30% do refino nacional.
Implicações para o Brasil e a economia local
A capacidade da Petrobras de operar suas refinarias acima dos limites teóricos tem implicações de grande alcance. Em um nível nacional, significa uma maior segurança energética, diminuindo a vulnerabilidade do Brasil às volatilidades dos preços do petróleo no mercado internacional e à necessidade de importar combustíveis. Isso pode se traduzir em maior estabilidade nos preços dos combustíveis para o consumidor final, impactando diretamente o custo de vida e a inflação.
Economicamente, a agregação de valor ao petróleo bruto, transformando-o em derivados de maior valor, fortalece a balança comercial brasileira e estimula a cadeia produtiva interna. Para regiões como Guarapuava, que, embora não abriguem refinarias, dependem intrinsecamente do fluxo de combustíveis e da estabilidade econômica nacional, a notícia reforça a importância de uma Petrobras robusta e eficiente. A produção ampliada de diesel S-10, por exemplo, beneficia o agronegócio e o transporte de cargas, pilares da economia regional.
Esses resultados refletem uma guinada estratégica da Petrobras, que, após anos de desinvestimentos e privatizações em discussão, agora foca na valorização de seu parque de refino e na maximização da produção. A meta é consolidar o Brasil como um player energético mais autônomo e competitivo, capaz de converter seus vastos recursos de petróleo em benefícios concretos para a população e a economia.
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