Após um ano de progresso ambiental notável em 2024, quando registrou uma queda histórica no desmatamento, o Paraná se vê diante de um cenário preocupante em 2025: o estado voltou a apresentar um aumento significativo na área devastada. Os dados mais recentes do Relatório Anual do Desmatamento, divulgado pelo MapBiomas, revelam um crescimento de 59% na supressão de vegetação nativa em solo paranaense, em um movimento que contraria a tendência nacional de redução da devastação.
O levantamento detalha que o Paraná saltou de 430 hectares desmatados em 2024 para 684 hectares em 2025. Esse aumento de 254 hectares corresponde a uma área equivalente a 958 campos de futebol, em um intervalo de apenas um ano. Enquanto o Brasil como um todo comemorava uma redução de 20,6% no desmatamento, o estado do Sul do país acendia um alerta.
O reservatório do Miringuava: um vetor complexo
A principal causa desse repentino aumento está associada à implantação de um novo reservatório: o Miringuava, localizado em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Somente este empreendimento foi responsável pela derrubada de 188 hectares de floresta, o equivalente a 269 campos de futebol, representando a maior parcela do aumento estadual.
A construção do reservatório do Miringuava é estratégica para o abastecimento hídrico da capital paranaense e de cidades vizinhas. De acordo com a prefeitura de São José dos Pinhais, a estrutura será a quinta área de reserva de água potável, projetada para atender às necessidades de aproximadamente 650 mil pessoas na Grande Curitiba. Trata-se de um dilema complexo, onde a segurança hídrica se choca com a preservação ambiental.
Em um esforço de compensação ambiental, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) informou ter plantado 250 mil mudas de 35 espécies nativas no entorno do reservatório. A companhia prevê que essa recuperação alcance 112 hectares e se integre a um projeto maior de formação de um corredor de biodiversidade, conectando-se ao Parque Nacional Guaricana, buscando mitigar parte do impacto.
Análise de especialistas e a persistência da pastagem
Natalia Crusco, coordenadora do MapBiomas Alerta, contextualiza a situação: “O Paraná começou a apresentar queda desde 2022, e tem este ano um aumento de 59,2%. Mas em área não é tanto. São 254 hectares a mais que o ano passado. E quando a gente faz a avaliação do que que levou a esse aumento, a gente vê a criação desse reservatório do Miringuava. Só esse evento de desmatamento relacionado a esse reservatório desmatou 188 hectares. Tem um impacto bastante grande em um estado que tem essa tendência de queda.” A fala da especialista ressalta que, embora o aumento seja percentualmente alto, a maior parte está concentrada em um único grande projeto, o que diferencia de um desmatamento pulverizado.
Contudo, mesmo com a influência predominante do Miringuava, a expansão de áreas de pastagem ainda se mantém como um vetor significativo de pressão. Cerca de 60% da área desmatada no Paraná, excluindo o impacto do reservatório, foi destinada à criação de gado, indicando que a agropecuária continua a ser uma força constante por trás da supressão florestal, mesmo que em menor escala comparada ao pico do projeto de saneamento.
Luis Fernando Guedes, diretor da SOS Mata Atlântica, expressa preocupação: “O desmatamento já está em patamares muito menores do que foi nos últimos cinco anos. Mas esse aumento preocupa e é fundamental que o estado consiga reverter esse aumento e, a partir do ano que vem, voltar para uma trajetória consistente de redução do desmatamento até chegar ao zero em 2030, que é o compromisso brasileiro.” A visão do ambientalista reforça a necessidade de vigilância e políticas eficazes para garantir que o episódio de 2025 seja um desvio temporário e não o início de uma nova tendência.
Paraná no cenário nacional e os municípios mais afetados
O Paraná se insere no grupo seleto de estados que, ao lado de São Paulo, Mato Grosso e Piauí, registraram crescimento proporcional no desmatamento no último ano, contrastando com a redução geral observada em outras regiões. No entanto, é importante ressaltar que a devastação no estado representa apenas 0,1% da área total desmatada no país, que, pela primeira vez desde 2019, ficou abaixo de 1 milhão de hectares anuais.
A Mata Atlântica, bioma predominante no Paraná e um dos mais ameaçados do planeta, apresentou uma redução nacional de 4,7% no desmatamento. Ainda assim, o aumento localizado no estado acende um alerta sobre a fragilidade dos remanescentes florestais da região Sul, que sofrem pressão constante por expansão urbana, agrícola e, como visto, por grandes obras de infraestrutura.
Com a supressão de vegetação para o reservatório, São José dos Pinhais liderou o ranking dos municípios paranaenses com maior área desmatada em 2025, contabilizando 188,6 hectares. Na sequência, aparecem Cerro Azul (32,23 hectares), Campo Largo (29,59 hectares), Prudentópolis (29,09 hectares) e Colorado (21,38 hectares). A lista dos dez mais afetados inclui ainda Campina Grande do Sul, Imbituva, Nova Laranjeiras, <b>Guarapuava</b> e Quedas do Iguaçu, demonstrando que a pressão sobre as florestas se distribui por diferentes regiões do estado.
A reversão da tendência de queda no desmatamento do Paraná em 2025, embora em grande parte atribuída a um projeto específico de infraestrutura hídrica, serve como um lembrete da complexidade dos desafios ambientais. É um cenário que exige atenção contínua das autoridades, da sociedade civil e de cada cidadão para garantir que o desenvolvimento não comprometa irreversivelmente o patrimônio natural do estado e do país. Para acompanhar as últimas informações e análises sobre o meio ambiente, política e outros temas relevantes para Guarapuava e região, continue conectado ao Guarapuava no Radar, seu portal de informação relevante e contextualizada.
Fonte: https://g1.globo.com