A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) deu um passo decisivo nesta quarta-feira (27) ao admitir a representação por quebra de decoro parlamentar contra o vereador Lórens Nogueira (PP). O processo se instaura para apurar as graves denúncias de 'rachadinha' no gabinete do parlamentar, um esquema ilícito que, se comprovado, pode culminar na cassação de seu mandato. A decisão da Casa Legislativa ocorre em um cenário de intensas repercussões, desencadeado pela recente operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná (MP-PR), que lançou luz sobre o caso.
A Gravidade da 'Rachadinha' e a Ação do Gaeco
O termo 'rachadinha' refere-se a uma prática ilegal e antiética em que funcionários públicos, geralmente comissionados ou assessores de gabinetes parlamentares, são compelidos a devolver parte de seus salários a políticos ou seus superiores. Essa conduta configura desvio de dinheiro público, abuso de poder e quebra de confiança, minando a integridade da administração pública e a fé dos cidadãos nas instituições democráticas. Para um vereador, a acusação é particularmente séria, pois impacta diretamente a lisura de sua representação e o compromisso com o interesse público.
A operação do Gaeco, que teve como alvo o vereador Nogueira, foi realizada um dia antes da aceitação do processo na Câmara, sublinhando a urgência e a materialidade das investigações. Durante a ação, foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão expedidos pela Vara de Garantias, resultando na coleta de provas significativas. O MP informou que a investigação, que contou com autorização judicial para uma 'ação controlada', permitiu identificar 'repasses de valores ao vereador investigado compatíveis com a prática conhecida como rachadinha'.
Entre os itens apreendidos, destaca-se a descoberta de duas malas contendo altas quantias em dinheiro. Uma delas, encontrada na residência do vereador, guardava cerca de R$ 100 mil, enquanto outra, com R$ 8 mil, estava em um endereço ligado a uma assessora. Além do dinheiro, equipamentos eletrônicos e documentos foram recolhidos para perícia, elementos cruciais para o avanço da apuração.
O Vídeo Incriminador e o Silêncio no Plenário
A prova mais contundente e de impacto público foi um vídeo, autorizado pela Justiça a pedido do MP, que flagra o vereador Lórens Nogueira recebendo R$ 5,6 mil em dinheiro vivo de uma funcionária. As imagens, exibidas no telão do plenário da CMC durante a sessão que antecedeu a chegada do parlamentar, causaram comoção e solidificaram a percepção de seriedade das acusações.
Diante da repercussão e da exibição do vídeo, o vereador Lórens Nogueira optou por permanecer em silêncio durante toda a sessão e também não se manifestou à imprensa. Em nota, a defesa do parlamentar afirmou apenas que 'esclarecimentos serão prestados no momento oportuno'. Seu partido, o Progressistas (PP), por sua vez, declarou que não se manifestaria sobre o caso, adicionando uma camada de apreensão ao cenário político curitibano.
O Depoimento Revelador da Servidora
Um dos pilares da investigação é o depoimento detalhado de uma servidora, cuja identidade o g1 não divulgou, que relatou ao Ministério Público a pressão sofrida para repassar parte de seu salário. A funcionária revelou ter chegado ao ponto de pedir ajuda financeira à família e de contrair um empréstimo para conseguir entregar o dinheiro exigido pelo parlamentar.
Em um relato angustiante, a servidora descreveu a situação: 'O meu último salário acabou que o banco bloqueou, e eu não tinha realmente da onde tirar essa parte de dinheiro para entregar para ele. Me senti pressionada […] Eu tinha prazo de dois dias para arrumar o valor, que era aproximadamente R$ 6 mil'. Ela também detalhou condições de trabalho exaustivas, com jornadas das 7h às 19h, sem vale-transporte ou gasolina, e com a obrigação de participar de eventos promovidos pelo instituto presidido por Nogueira, inclusive em fins de semana e feriados, muitas vezes arcando com as próprias despesas de alimentação.
Os investigadores suspeitam que o caso da servidora não é isolado, acreditando que o esquema de 'rachadinha' funcionava desde o início do mandato do vereador, envolvendo potencialmente todos os 12 servidores nomeados por ele. Em alguns casos, o Ministério Público indica que os funcionários teriam que repassar mais da metade de seus salários ao parlamentar, configurando um abuso ainda mais grave.
A Queda do Presidente do Conselho de Ética
Um dos aspectos mais irônicos e emblemáticos deste caso é o fato de Lórens Nogueira ter ocupado, até o dia das revelações, o cargo de presidente do Conselho de Ética da própria Câmara de Curitiba. A posição, que exige conduta ilibada e vigilância sobre a moralidade parlamentar, contrasta drasticamente com as acusações que agora pesam contra ele. Após a vasta repercussão do caso, o vereador solicitou seu afastamento do Conselho, em uma medida que, embora tardia, era inevitável diante da pressão pública e institucional. Eleito pela primeira vez para esta legislatura nas eleições de 2020, com 4.727 votos, Nogueira representa Curitiba e agora se vê no centro de um escândalo que abala a confiança dos eleitores.
Desdobramentos e o Futuro do Mandato
Com a aceitação da representação, o processo segue para o Conselho de Ética da Câmara, que terá a responsabilidade de aprofundar a investigação interna. Será solicitado ao Gaeco o compartilhamento das provas obtidas, garantindo que a análise dos vereadores seja baseada em um conjunto robusto de evidências. Os desdobramentos podem variar desde um arquivamento, caso as denúncias não se sustentem, até a aplicação de sanções como advertência, suspensão ou, no caso mais grave, a cassação do mandato, o que retiraria o vereador de seu cargo eletivo.
Este caso em Curitiba reflete um debate nacional sobre a ética na política e a fiscalização do uso dos recursos públicos. A 'rachadinha' é um tema recorrente na imprensa brasileira, demonstrando a persistência de esquemas de corrupção que corroem a democracia e lesam o erário. A população paranaense, e em especial a curitibana, espera uma apuração rigorosa e transparente, reforçando a importância da accountability e da integridade dos representantes eleitos.
O Guarapuava no Radar continuará acompanhando de perto os próximos capítulos deste importante caso, que terá impactos significativos na cena política de Curitiba. Mantenha-se informado em nosso portal, onde você encontra análises aprofundadas, notícias atualizadas e reportagens contextualizadas sobre os temas mais relevantes do Paraná e do Brasil. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, essencial para que você esteja sempre à frente dos fatos.
Fonte: https://g1.globo.com