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O impacto de Lucia Loxca: refugiada síria que transformou a UFPR em referência de acolhimento

G1

A história de Lucia Loxca, uma arquiteta síria, é um marcante exemplo de resiliência e do poder transformador da educação. Sua jornada, que começou em meio aos horrores da guerra civil na Síria, culminou em um acolhimento fundamental na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, mais significativamente, impulsionou a criação de políticas públicas que hoje se tornaram referência para outras instituições de ensino no Brasil. De uma universidade bombardeada em Alepo a uma nova vida acadêmica em Curitiba, Lucia não apenas reconstruiu seu próprio caminho, mas também abriu portas de esperança e oportunidade para inúmeros refugiados e migrantes.

Os horrores da guerra e a fuga inevitável de Alepo

Em 2013, Lucia Loxca cursava o terceiro ano de Arquitetura na Universidade de Alepo, uma das cidades sírias mais atingidas pela brutalidade da guerra civil que assolava o país desde 2011. Naquele ano, a tragédia pessoal e coletiva se materializou no campus: um devastador bombardeio atingiu a universidade, ceifando a vida de 46 estudantes e interrompendo abruptamente os sonhos de Lucia. O cenário de conflito crescente e a insegurança iminente forçaram Lucia e sua família a abandonar sua pátria, sua cultura e uma vida inteira de memórias, buscando refúgio longe da violência implacável.

O recomeço no Brasil: desafios da integração e a barreira linguística

A busca por um novo lar trouxe a família Loxca ao Brasil, um país que historicamente se posiciona como acolhedor de refugiados. Curitiba, a capital paranaense, foi a cidade escolhida por Lucia, motivada por seu profundo apreço pela arquitetura e pela reputação da metrópole em planejamento urbano. Contudo, a adaptação impôs desafios imensos. Longe de casa, em um ambiente cultural novo e com uma barreira linguística significativa, a paixão pela arquitetura teve que ceder espaço às necessidades de integração. Lucia buscou faculdades particulares na capital, mas o desconhecimento do português, a língua de seu novo lar, inviabilizou qualquer tentativa de ingresso. O sonho de se tornar arquiteta, mais uma vez, parecia distante.

O encontro fortuito que desencadeou a transformação na UFPR

Foi nos corredores vazios do Centro Politécnico da UFPR, em um fim de dezembro de 2013, que a determinação de Lucia, quase esgotada após sucessivas negativas, encontrou um improvável aliado. Convencida pelo marido a fazer uma última tentativa na universidade federal, Lucia cruzou com o professor Paulo Chiesa, então coordenador do curso de Arquitetura. Apesar das dificuldades com o idioma, Lucia conseguiu transmitir a Chiesa a urgência e a dramaticidade de sua situação: uma refugiada de guerra, com documentos salvos debaixo de bombardeios, que ansiava por retomar os estudos. Inicialmente, o professor recomendou instituições particulares, pois a UFPR carecia de um protocolo formal para acolher refugiados.

Da inquietude pessoal à resolução pioneira: o modelo UFPR

A história de Lucia não saiu da mente de Paulo Chiesa. O professor, que havia participado de uma formação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) sobre o direito internacional de pessoas em deslocamento forçado, sentiu-se compelido a agir diante da falta de uma política estruturada na universidade. Sensibilizado, Chiesa levou o caso de Lucia à reitoria da UFPR. Inspirada por um modelo já adotado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a UFPR agiu com notável celeridade, criando um plano para o acolhimento de refugiados. Assim, Lucia Loxca não apenas se tornou a primeira refugiada matriculada na Universidade Federal do Paraná, mas sua experiência serviu como um catalisador fundamental para a discussão e aprovação de uma resolução específica sobre o tema.

A UFPR como referência em acolhimento humanitário e social

Mais de uma década após aquele encontro transformador, a Universidade Federal do Paraná consolidou-se como uma referência nacional e internacional em políticas públicas de acolhimento a migrantes e refugiados. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) destacou o "forte compromisso institucional" da UFPR com a promoção da integração dessas pessoas na sociedade, tanto pela via da educação quanto do trabalho. O documento enfatiza o impacto significativo no acolhimento de indivíduos em deslocamento e na preparação da própria universidade para oferecer suporte sistemático e garantir sua permanência. Para o professor Chiesa, impulsionador dessa mudança, a abertura a novos públicos é inerente à missão da universidade pública. "Acolhendo a política de cotas sociais, acolhendo a política de refugiados e dos migrantes, a Federal do Paraná presta a função para a qual foi construída. É uma universidade pública. Ela tem que ser exemplo", defende, ressaltando o papel social fundamental da instituição. A história de Lucia demonstra que o acolhimento, além de um ato humanitário, é um investimento no capital humano e na diversidade que enriquece o ambiente acadêmico e a sociedade.

Garantindo a permanência: desafios superados e o sonho concluído

A matrícula de Lucia foi o primeiro passo, mas a verdadeira jornada exigia persistência e apoio para sua permanência na universidade. A barreira linguística, um dos maiores desafios iniciais, foi superada graças às aulas de português para estrangeiros oferecidas pelo Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin) da UFPR. "Eu nunca escutei a língua portuguesa antes [de chegar ao Brasil]", relembrou Lucia, dimensionando a intensidade de seu aprendizado e adaptação. Além do suporte institucional, a solidariedade de colegas e professores desempenhou um papel vital em sua trajetória, estendendo-se ao dia a dia para ajudar Lucia a se integrar plenamente. Em 2017, com o diploma de arquitetura em mãos, Lucia Loxca não apenas realizou seu sonho pessoal, mas materializou o sucesso de uma política inovadora, provando que, com acolhimento e oportunidade, é possível reconstruir vidas e contribuir para uma sociedade mais inclusiva.

A trajetória de Lucia Loxca é um lembrete poderoso de que, mesmo em meio às mais adversas circunstâncias, a educação e o acolhimento podem abrir novos horizontes. A UFPR, ao transformar um encontro casual em uma política institucional sólida, demonstrou o potencial das universidades públicas em responder a desafios humanitários complexos, servindo de inspiração para todo o país. Histórias como a de Lucia enriquecem o tecido social e fortalecem o debate sobre o papel da educação no mundo contemporâneo. Para continuar acompanhando reportagens aprofundadas sobre iniciativas transformadoras, análises contextuais e as notícias mais relevantes que impactam Guarapuava, a região e o Brasil, mantenha-se conectado ao Guarapuava no Radar. Nosso compromisso é levar informação de qualidade, que vai além do factual, para você.

Fonte: https://g1.globo.com

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