Há exato um ano, em julho de 2023, o Brasil alcançava um marco significativo na luta contra a fome, saindo novamente do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa conquista, celebrada por reduzir a parcela da população com risco de subnutrição ou falta de acesso suficiente a alimentos para menos de 2,5%, reflete o sucesso de um conjunto de políticas públicas. Contudo, a saída não significa o fim da batalha: dados atuais revelam que cerca de 6,5 milhões de brasileiros ainda vivem em situação de insegurança alimentar grave, evidenciando que a vigilância e o investimento contínuos são cruciais para consolidar e expandir essa vitória.
A Complexidade por Trás do Retorno e da Saída do Mapa da Fome
O 'Mapa da Fome', ou Índice Global da Fome, é uma ferramenta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que sinaliza países onde mais de 2,5% da população enfrenta subnutrição crônica. A presença do Brasil neste mapa, da qual havia saído em 2014, foi um dos maiores retrocessos sociais recentes, tornando o novo desligamento um símbolo da capacidade de resposta do país. Esse retorno à lista de países em situação crítica, após um período de progresso, acendeu um alerta para a necessidade urgente de reavaliar e fortalecer as estratégias de combate à pobreza e à desigualdade.
A recente saída do Brasil do Mapa da Fome, pela segunda vez na história, não é um evento isolado, mas o resultado de um esforço intersetorial robusto. Especialistas, como Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome da Universidade de São Paulo (USP), ressaltam que essa vitória se deve a uma forte articulação entre diversas políticas públicas. O desafio agora, segundo Moura, é encontrar mecanismos que tornem permanentes as estratégias bem-sucedidas, garantindo que o acesso à alimentação adequada seja um direito consolidado e inalienável para todos os brasileiros, evitando novos retrocessos.
O Desafio Persistente da Insegurança Alimentar Grave
Apesar da boa notícia do desligamento do Mapa, a realidade de 6,5 milhões de brasileiros em insegurança alimentar grave é um lembrete contundente de que a luta está longe de terminar. A insegurança alimentar grave se manifesta quando há a interrupção do acesso regular e permanente a alimentos saudáveis e de qualidade em quantidade suficiente, comprometendo não apenas a saúde física, mas também o desenvolvimento social, cognitivo e econômico dos indivíduos e das famílias. Para 77% da população brasileira, a segurança alimentar é garantida, um número que, embora o menor patamar da série histórica, ainda deixa milhões à margem.
A secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Valéria Burity, sublinha que a meta vai além de apenas não estar no Mapa da Fome: é assegurar o direito fundamental à alimentação adequada e saudável para toda a população. Este objetivo de longo prazo exige uma abordagem que vá além da oferta de comida, englobando a criação e manutenção de uma estrutura complexa que garanta renda mínima, educação, acesso a água potável, saneamento básico, segurança pública e oportunidades de emprego. A inclusão dessas pessoas em políticas públicas eficazes, com apoio a estados e municípios, é a prioridade atual.
Uma Perspectiva Multidimensional da Fome e Suas Nuances Regionais
Compreender a fome e a insegurança alimentar exige mais do que a simples contagem de calorias. O Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (IMUFI), criado por Lucas de Almeida Moura e sua equipe, e publicado na revista Sustainability, propõe uma avaliação mais completa. Abrangendo o período de 2018 a 2022, o MUFII (do nome em inglês) analisa a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, comparando anualmente os cenários. Os resultados da pesquisa, cujo primeiro número foi lançado em janeiro deste ano, apontaram para uma piora no quadro nacional em 2022, com Santa Catarina apresentando os menores valores médios de insegurança alimentar, enquanto Maranhão, Acre e Amazonas registraram os maiores.
Esses dados regionais são alarmantes, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde a maior parte dos estados se encontra acima dos 50% de insegurança alimentar multidimensional. A pesquisa, que pretende atualizar o índice para os anos subsequentes a 2022, reforça a necessidade de políticas públicas regionalizadas e adaptadas às realidades locais, que considerem não apenas a oferta, mas também o acesso, a qualidade e a sustentabilidade da alimentação. Além disso, as 'notícias relacionadas' indicam que mulheres negras, particularmente no Norte e Nordeste, estão entre as mais afetadas, o que evidencia a dimensão de gênero e raça no combate à fome.
Pilares para a Conquista e a Manutenção da Segurança Alimentar
A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta três movimentos cruciais que permitiram ao Brasil alcançar novamente patamares baixos de insegurança alimentar. O primeiro pilar é o combate à desigualdade, que está na raiz da fome. Políticas de emprego e renda foram fundamentais para isso, culminando na menor taxa de desemprego em 13 anos e reajustes significativos no salário mínimo a partir de 2022, superiores a 6%.
O segundo pilar é o fortalecimento das políticas públicas de proteção social. O Plano Brasil Sem Fome, por exemplo, articula medidas econômicas e de proteção, fomentando a agricultura familiar, reajustando a alimentação escolar, apoiando cozinhas comunitárias e garantindo acesso a trabalho e renda. Essas ações conjuntas demonstram a intersetorialidade necessária para enfrentar um problema tão complexo quanto a fome, onde saúde, educação e segurança alimentar devem andar de mãos dadas.
O Brasil celebra um ano fora do Mapa da Fome, um feito que inspira, mas que também exige a continuidade de esforços. A garantia do direito à alimentação adequada para todos os cidadãos é uma meta contínua, que passa pela manutenção e aprimoramento das políticas que demonstraram eficácia. Para aprofundar a compreensão sobre os avanços e os desafios remanescentes na trajetória brasileira de combate à fome, continue acompanhando o Guarapuava no Radar, seu portal de informação relevante e contextualizada, que se dedica a trazer as análises mais completas sobre os temas que impactam diretamente a nossa comunidade e o país.