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Estelionatária que se passava por criança é indiciada no Paraná após prisão em Santa Catarina

G1

O enredo de uma sofisticada trama de estelionato, que explorava a fé e a empatia de grupos de oração, ganhou um novo capítulo no Paraná. A Polícia Civil de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, concluiu que Amanda Maria Souza de Oliveira, de 38 anos, também atuou com golpes no estado, indiciando-a formalmente pelo crime de estelionato. A reviravolta no caso, inicialmente arquivado por falta de autoria, ocorreu após a prisão da mulher em Santa Catarina, onde ela foi detida por se passar por uma adolescente de 12 anos, fato que reacendeu as investigações e trouxe à luz uma rede de manipulação que se estendia por diferentes estados.

O Reconhecimento e a Reabertura da Investigação

A investigação em Colombo, que havia sido instaurada em dezembro de 2022 após um Boletim de Ocorrência registrado no mesmo ano, estava estagnada. A equipe policial havia apurado o caso, mas a identificação da autora permaneceu um desafio. O cenário mudou drasticamente no início de junho, quando a notícia da prisão de Amanda em Santa Catarina ganhou repercussão. Integrantes de um grupo de oração paranaense, que já haviam sido vítimas de um golpe semelhante em 2021, reconheceram a mulher pelas imagens divulgadas.

A partir desse reconhecimento crucial, a Polícia Civil de Colombo intimou as vítimas para que realizassem o procedimento de identificação da suspeita. Ficou evidenciado que Amanda utilizava diferentes identidades falsas, adaptando-as conforme o contexto e as vítimas. Enquanto para a família catarinense ela se apresentava como 'Gabriele', no Paraná, a persona era 'Emily', uma adolescente de 13 anos com câncer terminal, cuja história comoveu profundamente o grupo de oração. Em interrogatório, Amanda negou as acusações imputadas a ela em Colombo.

Uma Trama de Sofrimento e Manipulação

O modus operandi de Amanda Maria Souza de Oliveira era intrincado e profundamente cruel, explorando a fragilidade e a solidariedade humana. No caso do grupo de oração, durante cerca de dez meses, ela teceu uma narrativa de doença, abandono, violência e perdas familiares. A estelionatária se infiltrou no grupo durante o período da pandemia de Covid-19, em reuniões online, apresentando-se como uma criança de 13 anos em fase terminal, que desejava morrer para aliviar o sofrimento de sua mãe, que vivia no hospital por conta da filha.

Essa abordagem inicial, carregada de desespero e inocência forjada, chocou os membros do grupo e imediatamente despertou a compaixão. Uma das vítimas, em desabafo, relatou: "Nós ficamos atônitos: como é que uma criança de 13 anos pede para morrer? Então a gente se envolveu nessa história." A manipulação progrediu com pedidos de apadrinhamento e, posteriormente, a sugestão de que a vítima a chamasse de "mãe", criando um vínculo afetivo quase indissolúvel. O nível de envolvimento era tamanho que uma das vítimas chegou a tatuar o nome "Emily" no pulso, símbolo de um laço construído sobre a mentira, e que foi removida após a descoberta do golpe.

Escalada da Crueldade: Abusos e Amputação Fictícios

A advogada que representa as vítimas detalhou como a trama se tornou cada vez mais complexa. Amanda, sob a identidade de "Emily", inventou a necessidade de um transplante de medula óssea, a morte da mãe em um acidente, a vivência com um pai e avó abusivos, o suicídio do pai e, para piorar, o agravamento do câncer, com metástase e sucessivas internações. Em um ápice de crueldade, a "notícia-crime" que comunicou o caso às autoridades detalha que "Emily" relatou ter sido estuprada no hospital e, ainda, que precisou amputar um de seus braços em razão da doença.

Essa cascata de tragédias e violências, todas fabricadas, tinha como objetivo manter a comoção e a dependência financeira das vítimas, que, movidas pela compaixão, enviavam dinheiro e prestavam apoio emocional, acreditando estar ajudando uma criança à beira da morte.

O Impacto Devastador nas Vítimas e o Alerta para a Sociedade

O golpe de Amanda Maria Souza de Oliveira deixou cicatrizes profundas, que vão muito além do prejuízo financeiro. Uma das vítimas expressou a dimensão do trauma: "Comigo foi muito cruel, minha cunhada tinha acabado de falecer. O que eu perdi de vida, de emocional, de psicológico, ninguém vai restaurar." A manipulação se estendia aos laços familiares, com os filhos da vítima chamando a golpista de "irmã" e trocando mensagens diárias. "Quando eu lembro que deixei de pegar a minha sobrinha no colo… por causa dessa bandida. E se soltarem ela agora, ela vai fazer mais vítimas", desabafou a vítima, expondo a dor e o medo de que outros caiam na mesma armadilha.

Este caso chocante serve como um duro alerta sobre a crescente vulnerabilidade no ambiente digital. A internet, ao mesmo tempo em que conecta pessoas, oferece um terreno fértil para criminosos que exploram a confiança e a empatia. Golpes que envolvem falsas doenças ou crianças em situação de risco são particularmente eficazes, pois acionam um senso de urgência e solidariedade na população. A dificuldade de verificar identidades e histórias online torna esses cenários ainda mais propícios à atuação de estelionatários com alta capacidade de manipulação psicológica.

Próximos Passos e a Importância da Vigilância Contínua

Com o indiciamento de Amanda Maria Souza de Oliveira em Colombo, o caso avança para a fase judicial, onde a Justiça avaliará as provas e decidirá sobre a responsabilização penal da suspeita. A conexão entre os golpes aplicados em diferentes estados, como Paraná e Santa Catarina, ressalta a importância da cooperação entre as polícias e do compartilhamento de informações para combater crimes que transcendem fronteiras geográficas, mas que se conectam pela rede global.

Para o público, a história de Amanda reforça a necessidade de vigilância constante e de um ceticismo saudável em interações online, especialmente quando envolvem pedidos de ajuda financeira ou histórias dramáticas que demandam um alto grau de envolvimento emocional. A emoção, quando não acompanhada da razão e de uma checagem mínima de fatos, pode se tornar uma porta de entrada para a exploração.

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Fonte: https://g1.globo.com

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