O Brasil perdeu nesta quinta-feira (16) uma de suas mentes mais brilhantes e comprometidas com a compreensão das complexas dinâmicas sociais. A demógrafa Elza Salvatori Berquó faleceu em São Paulo, aos 100 anos, deixando um legado inestimável que transcende o campo acadêmico e se enraíza profundamente na formulação de políticas públicas e na defesa dos direitos humanos. Sua trajetória, marcada por rigor científico e uma visão humanista, foi essencial para mapear e interpretar as transformações que moldaram o país, desde a urbanização acelerada até as mudanças nos padrões reprodutivos e sociais.
Pioneirismo em Dados e Análise Social
Formada em Matemática pela Universidade Católica de Campinas, com mestrado em Estatística pela USP e especialização em Bioestatística pela Columbia University, Elza Berquó dedicou sua vida a decifrar o Brasil através dos números. Sua capacidade de ir além das estatísticas e enxergar as pessoas por trás dos dados a tornou uma figura ímpar. Em 1965, destacou-se com a análise do desenvolvimento populacional paulista a partir de censos históricos, uma contribuição que abriu caminho para uma nova forma de entender as cidades e seus desafios. Seu trabalho não era meramente descritivo; ele pavimentava o entendimento para ações concretas.
Sua carreira, no entanto, enfrentou os ventos autoritários da ditadura militar. Após ser compulsoriamente aposentada da Faculdade de Saúde Pública da USP em 1968, Elza não se calou. No ano seguinte, foi uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ao lado de intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti. O Cebrap se tornou um dos mais importantes centros de pesquisa e resistência intelectual do continente, um bastião de pensamento crítico em tempos de censura e repressão, onde Berquó continuou a desenvolver análises fundamentais sobre a população brasileira.
A Defesa Incansável dos Direitos Reprodutivos
Elza Berquó foi uma voz potente na defesa dos direitos reprodutivos e da saúde da mulher, temas que ainda hoje geram intensos debates na sociedade brasileira. Ela advogava pelo acesso consciente e esclarecido a métodos contraceptivos e pela discussão séria e rigorosa sobre o aborto, sempre contextualizando essas pautas como parte integrante dos direitos humanos. Além disso, dedicou-se com persistência à análise de problemas cruciais como a mortalidade infantil, buscando soluções baseadas em evidências científicas. “Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”, destacou Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, ressaltando a singularidade de sua atuação.
Legado Institucional e Formação de Gerações
A influência de Elza Berquó estendeu-se à criação e fortalecimento de importantes instituições. Ela foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), que, em uma justa homenagem ao seu pioneirismo, leva seu nome desde 2014. O Nepo se tornou uma referência nos estudos demográficos e um celeiro de novos pesquisadores. “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área e abriu um flanco importante para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino”, afirmou José Marcos Cunha, ex-coordenador do Nepo. Sua capacidade de formar e inspirar foi um pilar para o avanço da demografia brasileira.
Em 1995, sua expertise foi reconhecida com a fundação e presidência da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), um órgão federal que assessora decisões estratégicas sobre o tema. Richarlls Martins, atual presidente da CNPD, enfatiza: "Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências". Sua atuação na CNPD garantiu que as discussões sobre população e desenvolvimento tivessem um embasamento científico e uma perspectiva de direitos.
“Elza é a mãe da demografia brasileira, teve uma trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da ABEP, do NEPO e da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento do Governo Federal (CNPD),” corroborou o Acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou com Berquó na ABEP. As comemorações de seu centenário, em outubro passado, centralizadas pelo Nepo-Unicamp, já eram um testemunho da grandiosidade de sua presença e de seu legado, antecipando a celebração póstuma de sua vida e obra.
Um Legado VIVO para o Futuro do Brasil
A partida de Elza Berquó deixa uma lacuna, mas seu legado é uma bússola para os desafios contemporâneos do Brasil. Em um país que continua a vivenciar profundas transformações demográficas, sociais e econômicas, suas análises sobre urbanização, migração, desigualdade e direitos reprodutivos permanecem vitalmente relevantes. Ela nos ensinou a olhar para os dados não apenas como números frios, mas como espelhos de realidades humanas complexas, exigindo rigor e, sobretudo, sensibilidade. A compreensão de Elza sobre o Brasil continua a ser uma ferramenta poderosa para a construção de um futuro mais justo e equitativo.
A história de Elza Berquó, a cientista que viu o Brasil nos números e lutou por um país mais humano, é um lembrete da importância do conhecimento e do compromisso cívico. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre figuras que moldam nossa história, os desafios da sociedade e as informações mais relevantes do cenário nacional e regional, mantenha-se conectado ao Guarapuava no Radar, seu portal de notícias comprometido com a informação de qualidade e a relevância contextual.