Atuar em campos tradicionalmente dominados por homens é um desafio persistente para as mulheres em diversas esferas profissionais. No universo do futebol, as barreiras são historicamente mais elevadas, e a permanência neste esporte exige uma dose extra de determinação. Em meio às reflexões do Mês da Mulher, histórias de atletas, narradoras e jovens promessas emergem, revelando como a paixão e a vontade de vencer são o combustível diário para transformar um espaço que, por quase quatro décadas, esteve formalmente proibido às mulheres.
A proibição do futebol feminino no Brasil, que perdurou de 1941 a 1979, deixou marcas profundas na cultura e no desenvolvimento da modalidade. Por muito tempo, a prática era vista como 'inadequada' para o gênero feminino, perpetuando um preconceito que ainda ecoa nos dias atuais. Embora a legislação tenha sido revogada há mais de 40 anos, o caminho para a plena igualdade de condições e reconhecimento é longo, marcado por lutas contínuas por infraestrutura, investimento e, sobretudo, por um ambiente seguro e respeitoso.
Um Cenário de Transformação e a Luta por Estrutura
Os números de 2022 da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) são um retrato da disparidade que ainda precisa ser superada: apenas 360 jogadoras profissionais e 17 árbitras estavam registradas em todo o país. Essa base restrita reflete a carência de um ecossistema mais robusto, que abranja desde a formação de talentos até a profissionalização e a garantia de direitos. A questão não é apenas quantitativa; é sobre a qualidade das condições oferecidas para que o futebol feminino floresça em todas as suas vertentes, do campo à gestão.
A Visão de uma Lenda: Formiga e a Base Segura
Uma das vozes mais emblemáticas nessa luta é a de Formiga, ex-jogadora de trajetória ímpar, com sete Copas do Mundo disputadas – um recorde global para qualquer gênero –, duas vezes vice-campeã olímpica e uma mundial, além do ouro pan-americano em 2007. Hoje, Formiga ocupa a Diretoria de Políticas de Futebol e de Promoção do Futebol Feminino no Ministério do Esporte. Sua experiência de campo se traduz em uma visão clara para o futuro: a necessidade urgente de construir um ambiente seguro para todas as mulheres envolvidas no esporte.
“Precisamos trazer segurança não só para essas atletas de hoje, mas para todas as meninas, mulheres, independentemente em que cargo estejam, seja como treinadora, árbitra, diretora”, afirma Formiga. Para ela, a formação de base é o pilar central. “Meninas tem até demais, talentos temos até demais, mas, enquanto não tivermos estrutura, vamos avançar pouco.” A ex-atleta defende que todos os estados brasileiros precisam investir e consolidar times femininos, com foco no desenvolvimento de categorias de base, um modelo já mais estabelecido em São Paulo.
A busca por um equilíbrio nacional, onde a hegemonia paulista dê lugar a um cenário mais distribuído e competitivo, é um dos propósitos de Formiga em sua nova função. “A gente entende que São Paulo praticamente é o peso do futebol feminino, mas é preciso ter um equilíbrio no país inteiro. Os clubes precisam aceitar isso, precisam nos ajudar nisso”, pontua, convocando os clubes a assumirem seu papel no fomento da modalidade.
A Nova Geração em Campo: O Sonho de Isadora Jardim
Essa determinação é personificada por talentos como Isadora Jardim, de apenas 14 anos. A meio-campista do Corinthians, já convocada para a Seleção Brasileira sub-15, vive o sonho que antes parecia distante. Para isso, deixou sua cidade no Distrito Federal e se mudou para São Paulo, conciliando treinos intensos pela manhã com os estudos à tarde. Sua jornada, embora promissora, não é isenta de obstáculos.
Isadora relata ter ouvido comentários desanimadores, típicos do preconceito ainda enraizado. “Já ouvi muitos comentários do tipo ‘futebol não é para mulher’, ‘mulher não joga futebol’. E isso nunca é bom, mas aprendi a lidar com eles e a me tornar mais forte”, conta a jovem atleta. Sua resiliência serve de inspiração para outras meninas. “Deixo aqui meu apoio e incentivo para todas as meninas que sonham com o futebol, assim como eu: nunca desistam e continuem treinando”, declara, evidenciando a força que nasce da superação.
Vozes que Abrem Caminho: A Luta por Representatividade
O preconceito no futebol não se limita aos gramados. Em outra vertente, a narradora Luciana Zogaib expõe a resistência histórica à presença feminina na comunicação esportiva. “O rádio tem 100 anos, e só havia homens fazendo esse trabalho de locução. Há uma resistência muito grande em relação às mulheres. Culturalmente, o machismo no futebol é muito, muito forte”, destaca Zogaib, que integra a equipe da TV Brasil e Rádio Nacional.
A presença de mulheres nas cabines de transmissão é fundamental não apenas para a diversidade, mas para a própria expansão do mercado. “Isso é fundamental para abrir esse mercado, para que os outros parceiros também vejam a necessidade de ter locutoras [em seus quadros] e, com isso, gerar oportunidades em outros locais”, explica a narradora. A normalização da voz feminina no esporte é um passo crucial para desconstruir estigmas e mostrar que o lugar da mulher é onde ela quiser estar, seja narrando um gol ou marcando-o.
O Horizonte de 2027: Legado e Oportunidades para o Brasil
O futuro do futebol feminino no Brasil ganha contornos mais nítidos com a preparação para a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será sediada no país. A Empresa Brasil de Comunicação (EBC), por exemplo, já prioriza a exibição da modalidade e integra as câmaras temáticas que trabalham nos preparativos para o evento. Em parceria com o Ministério do Esporte, a EBC discute estratégias de apoio para levar o futebol feminino a todas as regiões do país, inclusive às mais remotas.
Recentemente, a secretária extraordinária para a Copa do Mundo Feminina 2027, Juliana Agatte, reuniu-se com o presidente e o diretor-geral da EBC, André Basbaum e David Butter, para discutir o legado social e esportivo que a competição pode deixar. Sediar um evento desse porte não é apenas uma questão de visibilidade; é uma oportunidade sem precedentes para catalisar investimentos em infraestrutura, impulsionar a formação de novas atletas e promover uma mudança cultural duradoura, reafirmando que a determinação das mulheres é, de fato, a chave para reescrever a história do futebol brasileiro.
Avanços como esses mostram que, embora a jornada seja desafiadora, a persistência e o talento das mulheres estão reconfigurando o cenário esportivo nacional. Para o leitor do Guarapuava no Radar, acompanhar essa transformação é entender não apenas o esporte, mas as dinâmicas sociais e culturais de um país que busca igualdade e reconhecimento. Continue conosco para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que impactam a nossa comunidade e o Brasil.