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Abusos sexuais em consultas e partos: vítimas detalham modus operandi de ginecologista preso no Paraná

G1

A prisão do ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos, acusado de estuprar uma paciente em trabalho de parto, trouxe à tona uma série de relatos chocantes que desvendam um suposto padrão de abuso em atendimentos médicos. O profissional, com uma trajetória de cinco décadas na medicina e passado político influente, foi detido na última quarta-feira (6), após quatro mulheres virem a público denunciar atos libidinosos durante exames de rotina, consultas de pré-natal e até mesmo no momento mais vulnerável do parto, nas cidades de Irati e Teixeira Soares, região central do Paraná.

A investigação da Polícia Civil aponta para um modus operandi que se repetia: o médico supostamente utilizava a posição de confiança e a suposta realização de procedimentos clínicos como pretexto para a prática dos abusos. A revelação desses casos não apenas abala a comunidade local, mas também reacende o debate sobre a segurança e a vulnerabilidade de pacientes em ambientes de saúde, especialmente quando há um desequilíbrio de poder tão acentuado.

O Padrão dos Abusos e a Ausência de Protocolo

O primeiro caso que ganhou publicidade, ainda antes da prisão, descreve uma consulta ginecológica de rotina onde a vítima foi submetida a massagens íntimas. Segundo o delegado Luis Henrique Dobrychtop, de Irati, o médico alegava ser uma orientação para estímulo da libido, uma conduta sem qualquer respaldo médico, conforme apontam especialistas. A situação se agravou pelo constrangimento da paciente, que relatou o médico atender uma ligação pessoal enquanto ela estava despida na mesa de exames.

A análise do prontuário eletrônico da instituição corrobora a natureza suspeita do atendimento. Diferentemente de outros profissionais, não havia qualquer registro clínico, anamnese ou solicitação de exames por parte do investigado na data do fato, um indício que levanta sérias dúvidas sobre a conduta ética e profissional de Felipe Lucas, de acordo com a polícia. Essa ausência de documentação é um ponto crucial, pois em um ambiente médico, o registro é fundamental para o acompanhamento e a transparência do tratamento.

A Coragem das Vítimas e o Efeito Cascata

A divulgação inicial do caso de Irati serviu como um catalisador. Duas outras mulheres, encorajadas, procuraram a polícia para relatar experiências semelhantes. Uma delas descreveu massagens íntimas prolongadas durante um exame de rotina, notando que o médico mudava bruscamente de comportamento com a chegada de outro profissional na sala. A outra vítima, em consulta de pré-natal, relatou múltiplos 'exames de toque' excessivos e dolorosos, nos quais o médico insistia, mesmo diante de seu desconforto.

O caso mais grave, que motivou a prisão do ginecologista, envolveu uma paciente em trabalho de parto. Ela narrou ter recebido massagens íntimas na região externa da genitália por cerca de cinco minutos, uma experiência que nunca havia tido em partos anteriores. O delegado Rafael Nunes Mota, de Teixeira Soares, explicou que o crime foi classificado como estupro de vulnerável, pois a paciente estava em uma condição que a impedia de oferecer resistência, tornando-a ainda mais suscetível à ação do agressor. O abuso só cessou com a entrada de uma enfermeira no ambiente.

O Medo e a Influência de um Político e Médico Respeitado

Um elemento comum nos depoimentos é a demora e o medo das vítimas em denunciar. As investigações revelaram que uma das ocorrências remonta há 15 anos, e outra, há 10. Para a Polícia Civil, esse receio está diretamente ligado à figura de Felipe Lucas, que, além de médico renomado, possui um histórico político significativo, tendo sido ex-deputado estadual, ex-prefeito e ex-vereador de Irati. A influência e o prestígio social do profissional teriam criado um ambiente de temor, levando as vítimas a acreditar que suas denúncias não prosperariam.

Esse contexto social sublinha a dificuldade enfrentada por vítimas de abuso, especialmente quando o agressor ocupa uma posição de poder e reconhecimento na comunidade. O receio de descrédito, represálias ou simplesmente de não ser ouvida, muitas vezes as silencia por anos, prolongando o sofrimento e a impunidade. A quebra desse silêncio, impulsionada pela coragem de algumas, mostra a importância da rede de apoio e da atuação policial em dar voz a quem antes não conseguia falar.

Os Próximos Passos e a Defesa

A defesa de Felipe Lucas, por sua vez, manifestou que considera a prisão “ilegal, sob alegação completamente falsa e de um fato que se encontra prescrito”, afirmando que o médico provará sua inocência ao longo do processo. O desenrolar do caso agora depende das etapas legais, com a análise das provas, depoimentos e a decisão judicial sobre a validade das acusações e a aplicabilidade da prescrição.

A situação lança um alerta sobre a ética na medicina e a necessidade de mecanismos mais robustos para proteger pacientes. A quebra da confiança na relação médico-paciente é um dos mais graves desdobramentos de casos como este, que reverberam para além dos envolvidos, atingindo a percepção pública sobre a segurança em ambientes de saúde.

Este caso continua em investigação, e o Guarapuava no Radar seguirá acompanhando de perto todos os desdobramentos. Para se manter informado sobre esta e outras notícias relevantes que impactam a vida em nossa região, com reportagens aprofundadas e análise contextualizada, continue acessando nosso portal. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, a serviço da comunidade, oferecendo uma cobertura variada e confiável.

Fonte: https://g1.globo.com

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