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Alerta Global: Ajuda Internacional a Países em Desenvolvimento Sofre Corte Recorde de 23,1%

© Valter Campanato/Agência Brasil

Em um cenário de crescentes desafios globais e urgências humanitárias, a ajuda internacional destinada por nações ricas a países em desenvolvimento e a instituições multilaterais sofrerá um corte sem precedentes de 23,1% na transição de 2024 para 2025. Esta é a maior redução já registrada, marcando um novo e preocupante capítulo na cooperação global para o desenvolvimento. O volume de auxílio, que totalizou US$ 174,3 bilhões (quase R$ 900 bilhões) no ano passado, verá uma diminuição real de US$ 52,4 bilhões, já considerando a inflação do período.

Esta não é uma tendência isolada. Pelo segundo ano consecutivo, o mundo testemunha uma diminuição na ajuda internacional global, com projeções que indicam uma nova redução de 6,9% em 2026. Tal sequência de cortes, se confirmada, levaria o patamar de ajuda ao mesmo nível de uma década atrás, impactando diretamente milhões de pessoas e a capacidade de nações mais pobres enfrentarem crises. Os dados alarmantes são revelados pelo estudo “Financiamento para o Desenvolvimento”, conduzido pelo Brics Policy Center, um centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

O Que É a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD)?

Os valores em questão referem-se à Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), uma modalidade de recursos públicos fornecidos por governos com o objetivo explícito de promover o desenvolvimento econômico e social, além da melhoria da prosperidade em outros países. A AOD pode ser direcionada de duas formas principais: bilateral, quando os recursos são enviados diretamente de um país doador para um país receptor, ou multilateral, quando os governos contribuem para instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou o Banco Mundial, que, por sua vez, gerenciam e implementam seus próprios programas de desenvolvimento global.

Os Maiores Cortes e as Razões Por Trás da Retração

A análise do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), um grupo de países doadores ligado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), demonstra uma concentração preocupante. Embora o comitê seja composto por 33 países e a União Europeia, os cinco maiores doadores – França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – são responsáveis por impressionantes 95,7% da redução projetada entre 2024 e 2025. Neste cenário, os Estados Unidos despontam como o principal motor da retração, cortando sua ajuda internacional em mais da metade (56,9%) e respondendo por três quartos (75,1%) da diminuição total.

Pela primeira vez, todos os grandes doadores mencionados registraram queda no volume de doações por dois anos consecutivos: Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%). Vários fatores complexos são apontados para explicar essa guinada. A retórica e as políticas anti-multilateralismo, frequentemente associadas a figuras como Donald Trump e seu novo mandato projetado como presidente dos EUA, sinalizam uma mudança ideológica que prioriza interesses nacionais diretos sobre a cooperação global.

Outro fator crucial é o redirecionamento de recursos para áreas como segurança energética e defesa. Nos EUA, os gastos com defesa saltaram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões, enquanto na União Europeia, o aumento foi de 11%, atingindo 381 bilhões de euros. O investimento total em energia na UE quase dobrou de 2015 para 2025, impulsionado intensamente pela crise de segurança energética deflagrada pela Guerra da Ucrânia em fevereiro de 2022. Essa reorientação estratégica dos orçamentos, embora compreensível em um contexto de conflito e instabilidade, subtrai recursos que antes eram dedicados ao desenvolvimento de países vulneráveis.

Retração Seletiva e a Exceção da Ucrânia

Os pesquisadores do Brics Policy Center classificam o cenário atual como uma “retração seletiva” da ajuda internacional. Isso porque a queda não é uniforme em todos os canais multilaterais. Enquanto o financiamento ao sistema da ONU sofreu a maior queda já registrada, com 27%, o apoio ao Banco Mundial aumentou 6,4%, e aos bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%. Esse movimento indica que governos doadores estão reavaliando quais tipos de engajamento multilateral consideram estratégicos e dignos de serem preservados, realinhando seus investimentos de acordo com prioridades geopolíticas e econômicas específicas.

Um exemplo notável dessa seletividade é a Ucrânia. Apesar da queda global da ajuda internacional e de uma drástica redução de 91% na assistência dos EUA ao país, a Ucrânia se tornou o maior recebedor individual da história da AOD. Os R$ 44,9 bilhões recebidos foram compensados pelo incremento de assistência financeira de 23 países e um aumento de 65,2% nos envios de instituições da União Europeia. O montante destinado à Ucrânia supera os US$ 28,1 bilhões direcionados aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD), evidenciando uma priorização clara de um conflito geopolítico em detrimento de necessidades de desenvolvimento de longo prazo.

Impactos Diretos e Indiretos da Redução para o Mundo e o Brasil

As consequências de um corte tão profundo na ajuda internacional são vastas e preocupantes. Para as nações mais pobres, significam um agravamento da pobreza extrema, insegurança alimentar, acesso limitado à saúde e educação, e uma capacidade reduzida de adaptação às mudanças climáticas. Programas de alimentação e saúde que dependem desses recursos podem ser drasticamente comprometidos, impactando milhões de vidas e dificultando ainda mais o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

Indiretamente, a redução da ajuda pode alimentar ciclos de instabilidade, conflitos e migrações forçadas, fenômenos que não se confinam às fronteiras dos países diretamente afetados. Para o Brasil, embora não seja um doador principal no contexto da OCDE, o enfraquecimento da cooperação global tem suas reverberações. Como um ator relevante no cenário internacional e um defensor do multilateralismo, o Brasil pode encontrar mais dificuldades em promover sua agenda de desenvolvimento sustentável e em colaborar com parceiros do Sul Global, que dependem dessa ajuda. Além disso, desafios globais como a crise climática ou futuras pandemias exigem coordenação e financiamento que podem ser prejudicados por essa retração.

O corte histórico na ajuda internacional, portanto, não é apenas um número em um relatório; é um sinal de alerta sobre as prioridades globais e suas consequências tangíveis para a vida de milhões de pessoas e para a estabilidade do planeta. Para compreender a fundo as complexidades e os desdobramentos desse cenário e de outros temas cruciais que afetam o nosso dia a dia, continue acompanhando o Guarapuava no Radar. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada, permitindo que você esteja sempre bem informado sobre os fatos que moldam nossa realidade local e global.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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