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Cânceres por HPV causam 7,5 mil mortes anuais no Brasil, com maioria evitável

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Todos os anos, cerca de 7,5 mil vidas são perdidas no Brasil devido a cânceres associados ao Papilomavírus Humano (HPV), enquanto outras 29 mil pessoas são hospitalizadas pela mesma causa. Uma realidade que se agrava com a constatação de que a vasta maioria desses casos, impactando majoritariamente mulheres, poderia ser prevenida. A identificação precoce de lesões precursoras e, fundamentalmente, a vacinação emergem como pilares essenciais para frear essa alarmante estatística de saúde pública, conforme aponta uma pesquisa recente que ilumina a gravidade e a abrangência do desafio.

O Estudo que Revela as Tendências Nacionais

O estudo, cujos resultados foram divulgados na prestigiada revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics, debruçou-se sobre uma vasta base de dados oficiais do Ministério da Saúde. Ao analisar o período de 2011 a 2019, os pesquisadores conseguiram traçar um panorama robusto das tendências de hospitalização e mortalidade relacionadas ao HPV antes que a pandemia de COVID-19 alterasse significativamente os indicadores de saúde. A meticulosa coleta e análise visava não apenas quantificar o problema, mas também identificar padrões e lacunas na prevenção e tratamento, oferecendo subsídios vitais para a formulação de políticas públicas mais eficazes.

Desmistificando o HPV: Além do Câncer de Colo do Útero

Um dos pontos mais críticos e frequentemente subestimados, segundo Cintia Parellada, diretora executiva de Pesquisa de Dados de Mundo Real da farmacêutica MSD e líder do estudo, é a diversidade de manifestações cancerígenas que o HPV pode provocar. A pesquisa, que estimou as ocorrências causadas pelo vírus com base em proporções consolidadas pela literatura médica, buscou desmistificar a ideia de que o problema se restringe a um único tipo de câncer ou gênero. "O foco excessivo no câncer de colo do útero pode gerar a falsa percepção de que a vacinação é uma preocupação exclusiva das mulheres", alerta Parellada. Contudo, o HPV é um agente etiológico para oito tipos de câncer, afetando ambos os sexos: colo do útero, vagina, vulva, ânus, pênis, e os de orofaringe, laringe e cavidade oral, comumente agrupados como cânceres de cabeça e pescoço. Essa compreensão expandida é fundamental para uma abordagem preventiva que inclua toda a população em risco.

O Cenário do Câncer de Colo do Útero: Tendências Preocupantes e Baixa Adesão à Prevenção

Embora o alerta sobre a abrangência do HPV seja fundamental, o câncer de colo do útero permanece como a principal preocupação numérica, respondendo por 74,3% das hospitalizações e 77,3% das mortes no período analisado. Mais alarmante é a tendência observada: após uma queda de 4,7% nas hospitalizações entre 2011 e 2016, houve um preocupante crescimento de 3,9% de 2016 a 2019. A mortalidade seguiu padrão semelhante, com leve queda inicial e posterior alta. Outro dado que merece atenção é a faixa etária: enquanto outros cânceres associados ao HPV se manifestam mais tarde na vida, o de colo do útero já é expressivo a partir dos 30 anos, com média de idade de 47 anos para hospitalização e 56 para óbito – pelo menos dez anos antes que os demais tipos.

"Hoje o câncer do colo do útero é o câncer que mais mata mulheres em idade reprodutiva e é o que tem maior nível de incidência nessa faixa etária", enfatiza Parellada. A baixa adesão ao Papanicolau, com apenas 40% das mulheres realizando o exame periodicamente, conforme o recomendado, é um fator contribuinte crucial, resultando em diagnósticos tardios de tumores invasivos. O Papanicolau, ou exame preventivo, é crucial para detectar o HPV ou lesões precursoras no colo uterino, permitindo tratamento antes da evolução para câncer. Recentemente, o Ministério da Saúde atualizou as diretrizes, recomendando o teste DNA-HPV oncogênico para mulheres e pessoas com útero entre 25 e 64 anos. Este teste identifica não só a presença do vírus, mas também seu tipo, uma vez que apenas alguns têm potencial cancerígeno. Com resultados negativos, a repetição é a cada cinco anos; positivos levam a exames complementares e tratamento, visando, em até 20 anos, a eliminação do câncer de colo do útero no Brasil através de rastreamento organizado, tratamento oportuno e alta cobertura vacinal.

Avanço de Outros Cânceres: O Alerta para Homens e Grupos Vulneráveis

A análise do estudo vai além do câncer de colo do útero, revelando tendências alarmantes em outras manifestações da doença. O câncer anal, por exemplo, registrou o maior aumento de ocorrências, com um salto de 3,1% nas hospitalizações e expressivos 10,9% na mortalidade. Essa elevação acende um alerta especial para grupos de maior vulnerabilidade, como homens que fazem sexo com homens e pessoas imunossuprimidas, para os quais o rastreamento e a prevenção são ainda mais cruciais. Além disso, Cintia Parellada chama a atenção para os cânceres de cabeça e pescoço, que, por sua natureza, acometem homens em proporção quatro vezes maior que mulheres. "Em nações onde o câncer de colo do útero já foi eficazmente controlado, o desafio do HPV se manifesta predominantemente nos homens devido a esses outros tipos de câncer", explica a líder do estudo. Uma característica preocupante desses cânceres é a ausência de lesões precursoras que possam ser identificadas e tratadas previamente. "Para estes casos, a vacinação é a única e mais eficaz forma de prevenção", salienta Parellada, reforçando a urgência da imunização masculina e a necessidade de desconstruir a ideia de que o HPV é uma questão exclusivamente feminina.

Prevenção: Ferramenta Essencial para o Combate ao HPV

Diante desse cenário desafiador, as ferramentas de prevenção se mostram mais urgentes do que nunca. A vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para faixas etárias específicas, é a principal arma contra o vírus e suas consequências nefastas. Aliada a ela, a realização periódica do Papanicolau para mulheres, e a conscientização sobre os novos métodos de rastreamento como o teste DNA-HPV, compõem a estratégia para mudar o rumo dessa doença no Brasil. "Apesar dos desfechos agressivos, este é um tipo de câncer que oferece grande oportunidade de prevenção", reitera Parellada, sublinhando que a informação, o acesso à saúde e a adesão às campanhas de vacinação e exames são a chave para a proteção de milhares de vidas. É um chamado à ação para indivíduos, famílias e políticas públicas, para que, juntos, possamos reduzir o número de mortes e hospitalizações por cânceres relacionados ao HPV, construindo um futuro com menos doenças evitáveis e mais saúde para todos. Para mais análises aprofundadas e notícias relevantes sobre este e outros temas que impactam a vida em nossa região e no Brasil, continue acompanhando o Guarapuava no Radar, seu portal de informação relevante e contextualizada, comprometido com a qualidade e a diversidade de temas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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