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Caso Evandro: STF confirma inocência de condenados, mas assassino de menino segue sem identificação

G1

Quase 34 anos após o bárbaro assassinato que chocou o Paraná e mobilizou o Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou o trânsito em julgado do Caso Evandro, mantendo a decisão que reconheceu a inocência dos quatro ex-condenados pela morte do menino Evandro Ramos Caetano. A decisão, que encerra o processo sem possibilidade de novos recursos, representa um marco para os acusados que lutaram por décadas para provar sua inocência, mas mantém uma ferida aberta na sociedade brasileira: o verdadeiro responsável pela morte do garoto de seis anos nunca foi identificado.

A Tragédia que Chocou Guaratuba

A história que se tornaria um dos mais intrincados e dolorosos capítulos da crônica policial brasileira começou em 6 de abril de 1992, em Guaratuba, no litoral paranaense. Evandro Ramos Caetano, um menino de apenas seis anos, desapareceu no curto trajeto entre sua casa e a escola. Naquele período, a região vivenciava uma série de sumiços de crianças, gerando um clima de apreensão e desespero que se alastrava pelas comunidades. A notícia do desaparecimento de Evandro, portanto, somava-se a uma dolorosa sequência de eventos, amplificando o pavor e a urgência por respostas.

Dias depois, em 11 de abril, a angústia se transformaria em horror. Um corpo com sinais de extrema violência e mutilações, sem mãos, pés e vísceras, foi encontrado em um matagal. O pai de Evandro, Ademir Caetano, realizou o doloroso reconhecimento no Instituto Médico-Legal (IML) de Paranaguá, identificando o filho por uma pequena marca de nascença nas costas, um detalhe íntimo que selaria o destino daquele caso como um dos mais emblemáticos e brutais do país.

A Trama das Acusações e o 'Ritual Satânico'

A investigação policial, conduzida em um cenário de forte pressão pública e mediática, rapidamente se concentrou em uma teoria de ritual satânico. Sete pessoas foram acusadas pelo crime, incluindo figuras de destaque local: Celina Abagge e Beatriz Abagge, respectivamente esposa e filha do então prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge; Osvaldo Marcineiro, identificado como 'pai de santo'; Vicente de Paula Ferreira, seu ajudante; e Davi dos Santos Soares, artesão. Completavam a lista Airton Bardelli dos Santos e Francisco Sérgio Cristofolini.

As acusações, à época, apontavam que a criança teria sido morta em um suposto ritual encomendado pelas Abagge. Celina e Beatriz, inicialmente, confessaram o crime após serem presas, mas logo depois alegaram terem sido torturadas pela polícia para admitir participação no assassinato. Essas alegações, no entanto, foram inicialmente desconsideradas, e o caso avançou para um complexo e longo processo judicial.

O Caminho Tortuoso da Justiça e as Provas de Tortura

O Caso Evandro se tornou um labirinto jurídico com cinco julgamentos, que expuseram as fragilidades e os abusos do sistema. Um dos mais notórios foi o de 1998, que entrou para a história como o mais longo do Judiciário brasileiro, durando 34 dias. Nele, Celina e Beatriz Abagge foram inocentadas, em parte pela dúvida levantada sobre a identificação do corpo, que alguns laudos apontavam ser maior do que o de Evandro.

Contudo, em 1999, o Ministério Público conseguiu a anulação desse júri, argumentando que os jurados não poderiam ter ignorado um exame de DNA que confirmava a identidade do menino. Seguiram-se novos julgamentos. Davi dos Santos Soares, Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira foram condenados em 2004, com os dois primeiros tendo as penas extintas por já terem cumprido o tempo de prisão preventiva. Vicente morreu na prisão em 2011. Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli foram absolvidos em 2005. Em 2011, Beatriz Abagge foi condenada a 21 anos, enquanto o caso de Celina prescreveu devido à sua idade.

A reviravolta decisiva veio à tona em 2018, impulsionada pelo trabalho do jornalista Ivan Mizanzuk. Ao ter acesso aos mais de 60 volumes e 20 mil páginas do processo, Mizanzuk revelou a existência de fitas cassete com áudios que indicavam tortura policial durante os interrogatórios dos réus. Essas fitas, que estavam nos autos desde a época da condenação, continham trechos cruciais que haviam sido omitidos ou manipulados nas versões apresentadas em juízo. A divulgação dessas provas no podcast 'Projeto Humanos', que se tornou um fenômeno de audiência e deu origem a uma série documental, reacendeu o debate e forçou uma nova avaliação jurídica.

A Inocência Confirmada, a Verdade Incompleta

A confirmação da inocência pelo STF, quase 34 anos depois, é uma vitória tardia para os ex-condenados, muitos dos quais viram suas vidas devastadas por anos de acusações e prisões. A frase de um dos ex-condenados, 'Uma justiça que demora mais de 30 anos é uma meia-justiça', ecoa a dor e a frustração de um processo que se arrastou por mais de três décadas, marcado por falhas investigativas, abusos de autoridade e decisões judiciais controversas.

Embora a decisão do STF represente o fim de uma saga judicial para os que foram injustamente acusados, ela não oferece o desfecho mais esperado: a identificação do verdadeiro assassino de Evandro. O encerramento do caso, com o reconhecimento da inocência dos ex-condenados, lança uma sombra sobre a capacidade do Estado de desvendar crimes complexos e garantir justiça plena. A ausência de um culpado real não apenas nega paz à família de Evandro, mas também perpetua a sensação de impunidade e a incerteza sobre a verdade, um lembrete contundente das consequências de falhas sistêmicas na apuração e julgamento de delitos.

O Caso Evandro, agora com seu desfecho judicial para os acusados, permanece como um símbolo da falibilidade humana e institucional, um espelho das fragilidades da justiça e da importância de uma imprensa vigilante na busca pela verdade. Para acompanhar outros casos de repercussão, análises aprofundadas e as notícias mais relevantes que impactam Guarapuava, o Paraná e o Brasil, continue acompanhando o Guarapuava no Radar, seu portal de informação comprometido com a qualidade e a contextualização dos fatos.

Fonte: https://g1.globo.com

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