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Ciência à margem: SBPC alerta para ausência do tema no debate eleitoral

Ciência à margem: SBPC alerta para ausência do tema no debate eleitoral
© Valter Campanato/Agência Brasil

Enquanto o cenário político nacional é dominado por escândalos e disputas, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) levanta um alerta crucial: temas vitais para o futuro do país, como a ciência e a tecnologia, permanecem à margem do debate eleitoral. A presidenta da SBPC, Francilene Garcia, expressou profunda preocupação com o esvaziamento das discussões sobre desafios estratégicos, que vão desde o envelhecimento populacional e a transição energética até a capacidade de processar minerais críticos.

A doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), que lidera a principal entidade de promoção da ciência no Brasil desde 2025, ressalta que a sociedade e os candidatos parecem ter sido empurrados para uma falsa dicotomia. A ideia errônea de que é preciso escolher entre sanear as instituições ou planejar o futuro do país tem desviado o foco de uma agenda que, segundo ela, deveria integrar ambos os pilares. “O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda”, defendeu Francilene em entrevista à Agência Brasil.

Crise política ofusca pautas estratégicas

A atual conjuntura política, marcada por denúncias e o “caso Master”, tem monopolizado a atenção da mídia e do eleitorado. Para a SBPC, essa concentração em disputas pessoais e escândalos aprofunda o distanciamento de discussões essenciais. A ciência, que depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção contínua, é uma das principais vítimas desse cenário. Francilene Garcia enfatiza que, mesmo diante da iminência de novas crises sanitárias e dos impactos das mudanças climáticas, a pauta científica é tratada de forma periférica.

A SBPC, ciente dessa lacuna, lançou o Observatório das Eleições, uma plataforma que reúne mais de uma centena de propostas de políticas públicas consideradas importantes para o desenvolvimento nacional. Entre os temas abordados estão as mudanças climáticas e seus impactos urbanos, o risco de novas pandemias e o processo de transformação digital. Contudo, apesar do esforço, o engajamento das candidaturas com essas propostas tem sido limitado, evidenciando a dificuldade de inserir a ciência no centro do debate.

Um histórico de marginalização e momentos de visibilidade

Historicamente, a ciência tem sido um tema marginalizado nas campanhas eleitorais brasileiras. Francilene Garcia reconhece que essa realidade mudou brevemente em 2020, com a crise sanitária da pandemia de covid-19, quando a importância da pesquisa e do conhecimento científico ganhou destaque. Mais recentemente, em 2024, eventos extremos como as enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas no Centro-Oeste e a escassez hídrica nas regiões Norte e Nordeste, todos frutos do novo regime climático, trouxeram a temática ambiental e científica para a pauta.

No entanto, no atual debate eleitoral, a temática científica voltou a perder espaço. A presidenta da SBPC lamenta que, enquanto países líderes globais discutem o aproveitamento de terras raras – minerais cruciais para a indústria de transformação digital –, o Brasil se vê em um esvaziamento não apenas da participação dos candidatos nos debates, mas também dos temas que realmente importam para o futuro da nação. A crise política atual, ao ocupar o centro das atenções, tem impactado diretamente a estratégia da SBPC de pautar a ciência.

O impacto da crise na mobilização científica

Os esforços da SBPC para engajar candidaturas têm enfrentado obstáculos significativos. O Observatório das Eleições, por exemplo, conta com pouco mais de uma centena de candidaturas comprometidas com suas propostas, mas apenas uma de âmbito federal e nenhuma de âmbito estadual. Candidatos a deputado federal e ao Senado vinham se comprometendo, mas essa adesão perdeu velocidade nos últimos dias, segundo Francilene Garcia. A discussão sobre a integridade das instituições, embora necessária, tem afastado outros temas cruciais, como o financiamento da ciência.

A situação é ainda mais complicada para a comunidade científica devido à “disputa de versões” que acompanha a crise. A SBPC, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e outras entidades científicas emitiram uma nota conjunta defendendo o cumprimento do rito processual e o amplo direito à defesa, sem julgamentos prévios. A preocupação é que vazamentos de informações em prol de interesses particulares acabem monopolizando o debate público, esvaziando a discussão de temáticas importantes e impedindo que escolhas cruciais sejam feitas com base em um projeto de país.

Desafios além do financiamento: clima e biomas

Além dos investimentos em educação, ciência e tecnologia e da regulamentação da exploração de terras raras, a SBPC destaca outros temas centrais para o Brasil. A discussão sobre os impactos da crise climática é uma realidade inegável e precisa continuar ocupando um espaço proeminente. O aumento dos eventos climáticos extremos, que afetam diretamente a vida no planeta e, em particular, os biomas brasileiros, exige atenção e soluções baseadas na ciência.

É fundamental que o país se prepare para cenários adversos, incluindo a prevenção e resposta a futuras crises sanitárias, a adaptação às mudanças climáticas e o desenvolvimento tecnológico que garanta a soberania e o bem-estar da população. A ausência desses temas no debate eleitoral representa um risco para o planejamento de longo prazo e para a capacidade do Brasil de enfrentar os desafios do século XXI.

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