Em um cenário de projeções alarmantes sobre o aumento da incidência de câncer no Brasil, um dado recente acende um alerta crucial para a saúde pública: um em cada quatro brasileiros ainda desconhece que a doença pode ser prevenida. A revelação faz parte do relatório “Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer”, um estudo de abrangência nacional divulgado nesta quarta-feira (3).
A pesquisa, pioneira por investigar de forma tão aprofundada o conhecimento e as práticas dos brasileiros em relação à prevenção oncológica, analisou como a população percebe e se relaciona com fatores de risco amplamente reconhecidos, como tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e o sedentarismo. O resultado sublinha a urgência de estratégias mais eficazes de comunicação e políticas públicas para reverter esse quadro e fortalecer a cultura da prevenção no país.
A Radiografia do Desconhecimento: Hábitos e Percepções
Realizado pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o estudo entrevistou 6,5 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. A vasta amostra permitiu traçar um panorama detalhado da consciência pública sobre os fatores que elevam o risco de desenvolver câncer, revelando uma percepção fragmentada e, em muitos aspectos, preocupante.
Tabagismo: Um Exemplo de Sucesso nas Políticas Públicas
Quando o assunto é tabagismo, a percepção de risco é notavelmente alta: 90,5% dos adultos brasileiros sabem que fumar causa câncer. Esse índice elevado, de acordo com Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, é um reflexo direto de décadas de políticas públicas robustas. “Advertências em embalagens, impostos para elevar o preço do tabaco, ambientes restritos de fumo. Ou seja, um conjunto de políticas públicas e muita campanha informativa, de comunicação, que já foram desenvolvidas acerca do tabaco”, compara a especialista, indicando que o Brasil é referência mundial nessa área. Outros fatores bem reconhecidos incluem a herança genética (89,4%) e a exposição solar excessiva (88,3%).
Lacunas Alarmantes: Riscos Subestimados e Desinformação
No entanto, o cenário muda drasticamente ao analisar outros fatores. O sedentarismo, por exemplo, é percebido como risco por menos da metade dos brasileiros (48,3%), figurando nas últimas posições da lista. Similarmente, o consumo de bebidas alcoólicas é associado ao câncer por 71,3%, enquanto alimentos embutidos (presunto, salsicha) e ultraprocessados (macarrão instantâneo, salgadinhos, sorvete) são reconhecidos por 70,7% e 65,6% dos entrevistados, respectivamente. Esses números, embora majoritários, ainda revelam uma margem significativa de desconhecimento, especialmente quando comparados ao tabagismo.
A pesquisa também evidencia uma falta crítica de informação sobre a obesidade, reconhecida como fator de risco por apenas 54,1% da população. O consumo de bebidas adoçadas (55,3%), a baixa ingestão de frutas e verduras (53,3%) e, novamente, o sedentarismo, estão entre os hábitos menos associados à doença. Um dos dados mais surpreendentes revela que menos de três em cada dez brasileiros (27,5%) percebem a carne vermelha como um item que aumenta a chance de desenvolver câncer. Além disso, 40% das mulheres desconhecem que o aleitamento materno é um fator de proteção contra o câncer de mama, um dado que ressalta a necessidade urgente de campanhas focadas na saúde da mulher.
O Cenário do Câncer no Brasil: Desafios e Projeções
Os dados da pesquisa ganham ainda mais relevância quando confrontados com as projeções do Inca. São estimados 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026/2028, um aumento de 10,9% em relação ao período anterior. Esse crescimento é impulsionado, em grande parte, pelo envelhecimento da população, mas também, e de forma preocupante, pelos hábitos de vida que a pesquisa demonstra serem pouco compreendidos como riscos. O câncer não é apenas uma questão de saúde individual, mas um desafio coletivo que demanda investimento em prevenção para evitar o colapso de sistemas de saúde e o sofrimento humano.
Para Além da Informação: O Papel Essencial das Políticas Públicas Abrangentes
A diferença marcante na percepção entre o tabagismo e outros fatores de risco sugere que apenas informar sobre os perigos não é suficiente. É preciso avançar com políticas públicas semelhantes às que transformaram a relação do brasileiro com o cigarro, agora aplicadas à alimentação saudável, à prática de atividade física e ao controle do peso. Luciana Grucci Moreira enfatiza que a informação é apenas um dos determinantes para escolhas mais saudáveis. “Existem outras questões como o acesso ao alimento, renda, preço dos alimentos, marketing. A gente precisa avançar em outras políticas públicas também conjuntamente para promover não só essa percepção, como a melhora das escolhas mais saudáveis por parte da população”, defende.
A especialista reforça que o papel do Estado vai além de simples recomendações. Não basta dizer “faça atividade física” se as ruas não são seguras, iluminadas ou não oferecem espaços adequados para a prática. A promoção da saúde, portanto, passa por um trabalho intersetorial que envolve urbanismo, economia, educação e assistência social. Somente um conjunto de ações que garantam acessibilidade e a possibilidade de escolhas saudáveis para todos os estratos sociais poderá, de fato, combater o alarmante desconhecimento sobre a prevenção do câncer e, consequentemente, reduzir o impacto devastador da doença na vida dos brasileiros.
O combate ao câncer começa na informação e se fortalece com a ação. Manter-se atualizado sobre as melhores práticas de prevenção e as políticas públicas em andamento é fundamental. Continue acompanhando o Guarapuava no Radar para mais notícias relevantes, análises aprofundadas e conteúdo de qualidade que impactam a sua vida e a comunidade.