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Galípolo detalha manobras do Banco Master que acenderam o alerta do Banco Central

© Lula Marques/Agência Brasil.

O Banco Central (BC) teve seu sinal de alerta aceso por uma manobra inusitada do Banco Master: a criação de novas carteiras de investimento para captar recursos, mesmo em meio a uma grave crise de liquidez. A revelação foi feita nesta terça-feira (19) pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Ele detalhou a série de eventos que levou à intervenção na instituição do banqueiro Daniel Vorcaro, em um cenário de acusações de fraudes bilionárias no sistema financeiro.

O Enigma da Liquidez: Formar ou Vender Carteiras?

A liquidez bancária, que representa a capacidade de um banco honrar compromissos de curto prazo, é fundamental para a sua solidez. Contudo, em cenário de escassez de dinheiro disponível, a lógica impõe a venda de ativos, não a formação de novos. Galípolo foi categórico: “Se você tem um banco com dificuldade de liquidez, você não forma carteira. Se você está com dificuldade de dinheiro, você vende carteira. Aí tudo bem, mas como é que você está vendendo uma carteira nova? Foi isso que chamou a atenção do BC imediatamente”. Essa conduta anômala foi o estopim para o aprofundamento da fiscalização.

A manobra de formar novas carteiras, ao invés de buscar a reestruturação por injeção de capital ou venda de ativos já existentes, sugeria uma tentativa desesperada ou um esforço para mascarar a dimensão real da crise. Tal abordagem acendeu o alerta regulatório, colocando em xeque a transparência e a solidez da gestão. O Banco Master, sob a liderança de Daniel Vorcaro, já estava sob o escrutínio rigoroso da autoridade monetária, cujos sinais de alerta se intensificavam diante das ações da instituição.

A Cronologia da Intervenção e as Manobras do Master

Galípolo defendeu a atuação do Banco Central, enfatizando que não houve ação precipitada. Em novembro de 2024, um termo de compromisso foi assinado com o Banco Master, concedendo seis meses para que a instituição se adequasse em termos de governança, capitalização e, principalmente, liquidez. Este acordo, embora não garantisse a solução, demonstrava uma tentativa inicial do BC de possibilitar a reestruturação e evitar medidas mais drásticas.

Os problemas, porém, persistiram, e as tentativas de captação de recursos evidenciaram a fragilidade do banco. O Banco Master buscou, sem sucesso, captar dinheiro no mercado com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) – entidade que protege depósitos em caso de falência bancária – e, posteriormente, de fundos de investimento. As restrições impostas pelo FGC e a recusa do mercado em investir sinalizavam a crescente desconfiança e a perda de credibilidade.

Diante das portas fechadas do mercado, o Master intensificou a venda de carteiras de investimentos, prática já observada desde 2023. “Imediatamente, ele passa a tentar fazer aqueles processos que ele já vinha fazendo desde 2023 – algumas vendas de carteira, em especial ao BRB, mas ele intensifica essa venda de carteira”, detalhou Galípolo. A venda mais expressiva ocorreu para o Banco Regional de Brasília (BRB), instituição pública ligada ao Governo do Distrito Federal (GDF). Esta operação, que envolve cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos, é hoje alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de fraude, adicionando uma dimensão criminal à crise financeira do Master.

A cronologia se acelerou a partir de janeiro de 2025, quando o surgimento de novas carteiras em meio à contínua crise de liquidez levou o BC a formar um grupo de trabalho específico para analisá-las. A gravidade da situação se confirmou com a negativa do Banco Central à tentativa do BRB de adquirir o Banco Master. Dez meses após a criação do grupo e a barrada aquisição, em 18 de novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master foi, finalmente, decretada, encerrando o ciclo de tentativas e evasivas.

Propostas Negadas e o Olhar para o Risco Sistêmico

Mesmo às vésperas da liquidação, o Banco Master ainda propôs uma solução que envolveria supostos investidores árabes, cuja credibilidade era quase nula. “Quando há rejeição da compra do BRB, o banco apresenta um segundo pedido de carta para o FGC e para o Banco Central, dizendo que faria uma saída organizada do mercado, ou seja, reconhece que o banco não é viável mais, mas que ele mesmo faria uma autoliquidação do banco, passando para esses investidores árabes. Jamais tive conhecimento deles”, completou Galípolo, revelando a falta de materialidade na última tentativa de salvamento e a natureza desesperada da proposta.

Sobre o impacto mais amplo no mercado financeiro, Galípolo reafirmou que a liquidação do Banco Master não representava um risco sistêmico. “Ele é um banco que não oferece risco sistêmico, ele é menos de 0,5% [do sistema bancário]. Parece-me que o que tem chamado a atenção das pessoas é o que se fazia com o dinheiro que estava no Banco Master”, ponderou. A preocupação, portanto, não estava na contaminação generalizada do sistema financeiro, mas sim na gestão dos recursos e nas possíveis fraudes bilionárias, com consequências diretas para os investidores e clientes da instituição.

O presidente do BC também fez questão de diferenciar a liquidação de uma instituição da punição de seus gestores. “Punir uma instituição que foi vítima de maus gestores é um equívoco. É dobrar a punição em quem é vítima, que são, inclusive, os correntistas daquela instituição. Então, liquidar uma instituição não é punir os gestores. Liquidar uma instituição, isso você só vai fazer porque aquela instituição chegou a um ponto específico”, afirmou. A liquidação é uma medida regulatória extrema para proteger o sistema e os depositantes, enquanto a responsabilização por fraudes e má gestão ocorre em esferas jurídicas separadas, visando os indivíduos e não a entidade bancária em si.

O caso do Banco Master destaca a vigilância regulatória e a integridade na gestão financeira como pilares essenciais. Para os leitores de Guarapuava e região, a complexidade desse cenário reforça a necessidade de compreensão sobre as dinâmicas do mercado e as salvaguardas existentes. Mantenha-se informado sobre este e outros temas relevantes que afetam a economia e a sociedade, acompanhando o Guarapuava no Radar. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, aprofundada e contextualizada, trazendo até você análises que importam e que ajudam a decifrar os desafios do nosso tempo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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