O cenário cultural de Curitiba guarda, entre suas ruas e estabelecimentos, memórias que transcendem o tempo. Um ano após o falecimento do lendário multi-instrumentista Hermeto Pascoal, a capital paranaense revisita o período em que o artista escolheu a cidade como seu lar. Entre 2003 e 2015, o músico alagoano não apenas viveu na capital, mas integrou-se ao cotidiano curitibano de forma orgânica, transformando guardanapos, xícaras e até paredes de cafeterias em extensões de sua genialidade criativa.
A rotina criativa e o refúgio em Curitiba
A mudança de Hermeto para o Paraná foi motivada, inicialmente, pela parceria musical e afetiva com a artista Aline Morena. A conexão entre ambos teve início em 2002, durante uma oficina de música em Londrina, onde a ousadia de Aline ao utilizar um cano de PVC como instrumento chamou a atenção do mestre. O que começou como uma colaboração artística floresceu em um relacionamento de mais de uma década, consolidando a presença de Hermeto em Curitiba à medida que seus instrumentos, incluindo seu piano, eram transferidos para a cidade.
Para o músico, o clima curitibano oferecia condições ideais. Devido ao seu albinismo, a sensibilidade à luz solar tornava os dias nublados e as temperaturas amenas da capital um ambiente mais confortável para suas atividades diárias. Frequentador assíduo do bairro Santa Felicidade e do Centro, Hermeto era uma figura que, apesar da fama mundial, mantinha uma simplicidade cativante, sendo frequentemente visto em cafeterias como o Terra Verdi, no Shopping Itália.
A música que brotou das paredes
A criatividade de Hermeto Pascoal não conhecia limites físicos. No Terra Verdi, o proprietário Claudio Tsuyoshi Ushiwata tornou-se um amigo próximo e testemunha de um processo criativo singular. Em um episódio marcante, o músico decidiu presentear o amigo com uma composição original. Ao invés de papel, Hermeto utilizou a parede branca do estabelecimento como partitura, convidando os presentes a participarem da criação ao sugerirem notas musicais.
A obra, intitulada Nós e nós pra toda a vida, tornou-se um símbolo da passagem do artista pela cidade. Mesmo após o fechamento do espaço físico do café em 2017, Claudio preservou o trecho da parede, mantendo viva a relíquia como um testemunho da visão de mundo de Hermeto, para quem o ruído, o silêncio e o cotidiano eram sempre matéria-prima para a arte.
Um legado que transcende a técnica
A influência de Hermeto Pascoal na música brasileira é vasta e complexa, desafiando as fronteiras entre o erudito e o popular. Segundo André Ricardo Souza, professor de música da Unespar, a genialidade do artista residia em sua capacidade de enxergar música em tudo: desde o som da natureza até ruídos urbanos e corporais. Ele não apenas tocava instrumentos; ele transformava a percepção sonora de quem o cercava.
Histórias como a do fotógrafo Walter Thoms, que trocou um turno de trabalho por uma taça de vinho e uma conversa inesquecível com o músico, ilustram o impacto humano de sua presença. Hermeto deixou Curitiba em 2015, mas o rastro de sua genialidade permanece em cada esquina onde a música foi tratada como uma experiência de vida. O portal Guarapuava no Radar segue acompanhando as trajetórias que moldam a cultura paranaense, trazendo sempre um olhar atento sobre os personagens que, como Hermeto, deixaram sua marca indelével na história.