A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição à presidência da República, anunciou que levará à Organização dos Estados Americanos (OEA) uma denúncia formal contra a Meta. O motivo central é a acusação de interferência indevida da gigante de tecnologia — proprietária do Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads — no processo eleitoral brasileiro de 2026.
O anúncio foi feito nesta quarta-feira (14) por Camilo Santana, coordenador da campanha, que destacou o impacto direto das redes sociais na formação da opinião pública e no resultado das urnas. A medida busca internacionalizar o debate sobre a conduta das chamadas big techs, que têm sido alvo de críticas constantes por falta de transparência em seus algoritmos e políticas de moderação.
Restrições de IA e disparidade de tratamento
A tensão entre a campanha petista e a Meta escalou após a identificação de comportamentos distintos na inteligência artificial da plataforma. Testes realizados pela Agência Brasil e pela própria equipe de comunicação do candidato revelaram que a ferramenta de geração de imagens da Meta recusou pedidos para criar conteúdos relacionados a Lula e ao número 13. Em contrapartida, solicitações similares envolvendo o candidato Flávio foram atendidas, gerando cartazes de campanha e propostas políticas.
Além da IA, a campanha relatou dificuldades técnicas no perfil oficial de Lula no Instagram, onde botões essenciais para o engajamento, como o de compartilhamento e criação de stories, ficaram indisponíveis por horas. A Meta, procurada pela reportagem, não se manifestou sobre as acusações até o momento.
Conflito com as normas do TSE
O embate ocorre em um cenário onde o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já estabeleceu diretrizes rígidas. A Resolução 23.755 de 2026 proíbe expressamente que provedores de IA realizem o ranqueamento, recomendação ou priorização de candidatos e partidos. A norma veda ainda qualquer forma de favorecimento ou desfavorecimento político, seja de maneira direta ou indireta, por meio de respostas automatizadas.
Ettore Arpini, especialista em governança de IA, pondera que, embora não se possa confirmar uma intenção deliberada de favorecimento, a responsabilidade técnica recai integralmente sobre a desenvolvedora. Para o especialista, falhas dessa magnitude em período eleitoral exigem explicações imediatas. Arpini defende que o Brasil precisa avançar na criação de mecanismos próprios de fiscalização tecnológica para garantir a soberania digital e não depender exclusivamente das explicações fornecidas pelas empresas.
Histórico de tensões e mobilização internacional
Esta não é a primeira vez que a Meta enfrenta questionamentos no Brasil. Em junho, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) denunciou a remoção de perfis de mídias independentes, e em setembro, a própria conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada sem justificativas públicas. Dados da organização CTRL+Z apontam para um cenário preocupante: em um levantamento com mais de mil casos de restrições, 22% das ações foram tomadas sem qualquer explicação aos usuários.
Para ampliar a pressão, a campanha de Lula tem buscado apoio global. Representantes petistas reuniram-se com entidades de 12 países — incluindo Reino Unido, Espanha, Chile e Moçambique — para articular uma resposta coordenada contra o que definem como abuso de poder econômico e político das plataformas digitais.
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