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Lula critica agressão e neocolonialismo de potências em discurso na Cúpula da Celac

© Valter Campanato/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da 10ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e do I Fórum Celac-África, em Bogotá, neste sábado (21), para tecer duras críticas ao uso da força por nações ricas e à retomada de práticas colonialistas, especialmente por parte dos Estados Unidos. Em um discurso que ressoou com a história de exploração e desafios geopolíticos do Sul Global, Lula defendeu a soberania e o direito ao desenvolvimento autônomo, questionando a legitimidade de intervenções e a paralisia de organismos multilaterais.

A fala do presidente brasileiro, marcada por um tom incisivo e direto, abordou desde a pressão sobre nações latino-americanas até a ineficácia do Conselho de Segurança da ONU diante de conflitos globais. Ele enfatizou que a ideia de que um país pode “ser dono de outros” é inaceitável, citando casos como os de Cuba e Venezuela, que enfrentam bloqueios e pressões internacionais. A postura de Lula reforça a tradicional diplomacia brasileira de não alinhamento automático e a busca por um mundo multipolar, onde o diálogo e o respeito à autodeterminação prevaleçam sobre a imposição de poder.

A Luta Contra o Neocolonialismo e a Exploração de Recursos

Um dos pontos centrais da crítica de Lula foi a perpetuação de um modelo que, segundo ele, remete ao colonialismo. O presidente destacou a pressão que a Bolívia tem sofrido por parte dos Estados Unidos em relação à exploração de seus minerais críticos, como o lítio. Este metal, essencial para a fabricação de baterias de veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, é estratégico para a transição energética global e representa uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento de países detentores dessas reservas.

Lula alertou para o risco de que essas nações, ricas em recursos naturais, continuem a ser meras exportadoras de matéria-prima, revivendo um ciclo histórico de “saque”. “Aqui, neste plenário, todo mundo tem experiência de que o seu país já foi saqueado em tudo que é ouro que tinha, tudo que é prata, que é diamante, tudo que é minério”, lembrou o presidente, conectando a realidade atual à herança colonial que espoliou riquezas de países da América Latina, do Caribe e da África. A proposta é que esses minerais sejam utilizados para impulsionar o desenvolvimento tecnológico e industrial local, permitindo que as regiões “deem um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos” e em outras tecnologias. Quem desejar investir, defendeu Lula, deve fazê-lo produzindo no próprio país, gerando valor e conhecimento.

A Crise do Multilateralismo e a Inação da ONU

O presidente brasileiro não poupou críticas à Organização das Nações Unidas (ONU), particularmente ao seu Conselho de Segurança, questionando a eficácia e a legitimidade de um órgão que, em tese, deveria zelar pela paz mundial, mas que, na prática, parece inoperante ou até cúmplice em diversos conflitos. “Em que parágrafo e em que artigo da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está dito que o presidente de um país pode invadir o outro?”, indagou, sublinhando a ausência de amparo legal para as intervenções militares que têm marcado a cena internacional.

Lula citou uma série de conflitos que evidenciam a falha do Conselho de Segurança: os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o genocídio na Faixa de Gaza, os embates na Líbia e as guerras no Iraque e na Ucrânia. Para ele, “o que estamos assistindo no mundo é a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz. E são eles que estão fazendo as guerras”, sentenciou. O presidente reforçou a urgência de uma reforma estrutural do Conselho, que inclua mais países, especialmente do Sul Global, como forma de democratizar as decisões e garantir maior representatividade e efetividade.

A Escolha Entre Armas e Combate à Fome

A reflexão sobre a escalada dos conflitos levou Lula a confrontar a disparidade entre os investimentos globais em armamentos e a negligência em relação a problemas humanitários fundamentais. O presidente lamentou que, enquanto US$ 2,7 trilhões foram gastos em armas e guerras no ano passado, 630 milhões de pessoas ainda passem fome no mundo. Milhões de seres humanos seguem sem acesso a energia elétrica, à educação, e outros tantos milhões de mulheres e crianças são vítimas diretas desses conflitos, tornando-se refugiados sem pátria ou documentação.

Essa contradição brutal, segundo Lula, é um testemunho da necessidade de repensar as prioridades globais, direcionando recursos para o desenvolvimento humano e a erradicação da pobreza, em vez de alimentar a indústria bélica. A defesa de um Atlântico Sul livre de disputas geopolíticas, mencionada por Lula, é um exemplo de como o Brasil busca promover a paz e a cooperação regional, em contraste com a lógica da militarização e da confrontação.

Cooperação Sul-Sul: Um Caminho para a Soberania

Ao lado de líderes como o colombiano Gustavo Petro e o uruguaio Yamandú Orsi, Lula enfatizou a importância do multilateralismo e da cooperação entre os países africanos, da América Latina e do Caribe. A cúpula Celac-África serve como plataforma para fortalecer laços históricos e econômicos, buscando superar uma ordem desigual, estabelecida em tempos de colonialismo e apartheid. Essa cooperação, que se traduz em oportunidades de investimento, comércio e intercâmbio de conhecimento, é vista como um pilar fundamental para que as nações do Sul Global possam, enfim, consolidar sua soberania e traçar seus próprios caminhos de desenvolvimento, livres de pressões externas.

As contundentes declarações de Lula na Cúpula da Celac em Bogotá reiteram a posição do Brasil em defesa de uma ordem mundial mais justa e equitativa. As discussões levantadas pelo presidente ressoam a necessidade de um debate amplo e contínuo sobre a soberania dos povos, o papel das grandes potências e a urgência de reformar instituições globais para que possam, de fato, promover a paz e o desenvolvimento sustentável. Para aprofundar-se nos desdobramentos dessa e de outras notícias relevantes que impactam o cenário nacional e internacional, continue acompanhando o Guarapuava no Radar, seu portal de informação com análise contextualizada e reportagem de qualidade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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