Um ano se passou desde que os nomes de Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi, Diego Henrique Afonso e Alencar Gonçalves de Souza entraram para a dolorosa lista de vítimas de um crime brutal, cujos desdobramentos continuam a desafiar a justiça no Paraná. Em 5 de agosto de 2024, esses quatro homens foram vistos com vida pela última vez. Hoje, completando um ano do crime, a sombra da impunidade paira sobre o caso, com os principais suspeitos foragidos e a investigação ainda em curso, revelando camadas de complexidade que apontam para possíveis ligações com o crime organizado e até mesmo com a facilitação interna de fugas.
O enredo que culminou na morte dos quatro se desenrolou a partir de uma cobrança de dívida. Contratados por Alencar Gonçalves de Souza, os demais viajaram de São José do Rio Preto, em São Paulo, até Icaraíma, no noroeste paranaense, para mediar um acerto de R$ 255 mil. O débito era referente à venda de uma propriedade rural por Alencar à família Buscariollo, cujo pagamento, dividido em dez notas promissórias de R$ 25 mil cada, nunca foi efetuado. A promessa de receber metade do valor arrecadado selou o destino dos cobradores, que não imaginavam a emboscada que os esperava.
A armadilha e o desaparecimento
Em 4 de agosto de 2024, Robishley, Rafael e Diego chegaram a Icaraíma para o encontro. Áudios recuperados pela investigação indicam que, antes mesmo do contato, os homens já desconfiavam do envolvimento dos devedores com o crime organizado, um pressentimento trágico. O primeiro contato, em Vila Rica, distrito de Icaraíma, não resultou em acordo, com os Buscariollo tentando ceder uma casa urbana como parte do pagamento. A última imagem dos quatro com vida foi capturada por uma câmera de segurança de uma panificadora na manhã de 5 de agosto de 2024.
Por volta do meio-dia daquele mesmo dia, as vítimas fizeram suas últimas ligações para familiares. A Polícia Civil acredita que, poucas horas depois, por volta das 12h30, eles foram brutalmente assassinados em uma emboscada na propriedade rural dos suspeitos. O desaparecimento foi registrado em 6 de agosto de 2024 pela esposa de Robishley, em São Paulo, sem que ela soubesse ainda da dimensão do ocorrido. Semanas depois, os corpos dos quatro homens e o veículo em que viajavam foram encontrados enterrados em uma vala, em Icaraíma, confirmando o pior cenário e transformando o caso de desaparecimento em um complexo inquérito de homicídio.
Os suspeitos e a fuga com ajuda interna
Os principais suspeitos, Antônio Buscariollo, de 66 anos, e seu filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, de 22, foram ouvidos pela polícia em 6 de agosto de 2024, negando envolvimento direto com a dívida. Liberados após o depoimento, pai e filho, junto a todos os familiares que moravam no local, desapareceram, tornando-se foragidos da justiça. Desde então, seus nomes foram incluídos na lista de Difusão Vermelha da Interpol, com mandados de prisão temporária em aberto por homicídio, em uma caçada internacional que se estende por mais de 365 dias.
O que adiciona uma camada ainda mais alarmante à investigação são as revelações feitas pela Polícia Civil em dezembro de 2024. Naquela ocasião, dois policiais civis foram alvo de mandados de busca e apreensão, sob suspeita de terem facilitado a fuga dos Buscariollo. A acusação de cumplicidade dentro da própria corporação lança uma sombra sobre a credibilidade da instituição e a complexidade do caso. O Guarapuava no Radar, assim como outros veículos de imprensa, buscou retorno da assessoria da Polícia Civil sobre o andamento desta investigação interna, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem, mantendo o mistério sobre o desfecho dessa apuração paralela.
Elo com o crime organizado e a rota do tráfico
Em entrevista concedida à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, na terça-feira (4), véspera do aniversário de um ano do crime, o delegado Thiago Inácio afirmou que a participação de outras pessoas na morte não está descartada. As análises de dados coletados pela Polícia Científica e pela Polícia Civil continuam, na busca por identificar todos os envolvidos. Um ponto crucial da investigação, levantado pelo delegado, é a localização onde os corpos e o veículo foram enterrados: um local conhecido como “rota do tráfico e do contrabando”.
Essa informação não é trivial. Ela sugere que o crime pode ter sido planejado e executado com uma logística e um nível de organização que extrapolam uma simples cobrança de dívida que deu errado. A possível ligação dos Buscariollos com grupos que atuam nessas rotas ilícitas, embora ainda não comprovada, abre a possibilidade de que o caso seja mais um capítulo na intrincada rede do crime organizado que permeia as fronteiras e regiões estratégicas do Paraná. Entender essa conexão é fundamental para desvendar as motivações, a execução e a facilidade com que os suspeitos conseguiram se evadir, apontando para recursos e apoio que um criminoso comum dificilmente teria.
O clamor por justiça e o compromisso da investigação
Enquanto a investigação avança lentamente e os detalhes emergem aos poucos, as famílias das vítimas vivem o tormento da ausência e da impunidade. “Os familiares querem justiça e têm todo o direito de exigirem isso do Estado”, assegurou o delegado Inácio. Ele reiterou o compromisso da Polícia Civil em identificar e responsabilizar todos os envolvidos. No entanto, para as famílias, cada dia sem uma prisão representa mais um dia de angústia e de questionamentos sobre a eficácia do sistema de justiça.
O caso das mortes dos cobradores em Icaraíma, Paraná, transcende a história individual das vítimas e dos suspeitos. Ele se torna um espelho dos desafios enfrentados pelas forças de segurança e pelo sistema judiciário em regiões onde o crime organizado tenta fincar raízes, e onde a sombra da corrupção pode, por vezes, atrapalhar o curso da lei. A falta de resolução após um ano levanta questões sobre a segurança pública e a capacidade de garantir que crimes bárbaros como este não fiquem impunes, especialmente quando há indícios tão fortes de envolvimento de redes criminosas e falhas na própria estrutura de investigação.
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Fonte: https://g1.globo.com