O crescente uso de dispositivos eletrônicos, como celulares e tablets, por crianças e adolescentes tem acendido um alerta entre os oftalmologistas pediátricos. Um hábito simples e involuntário, o ato de piscar, está sendo drasticamente reduzido, resultando em um aumento significativo nos consultórios de casos popularmente conhecidos como olho seco. A condição, antes mais associada a adultos, agora se manifesta com preocupante frequência entre os mais jovens, impactando sua saúde ocular e bem-estar.
A síndrome do olho seco é caracterizada pela falta de lubrificação adequada na superfície ocular. Isso pode ocorrer devido à produção insuficiente de lágrimas ou à sua evaporação excessiva. Os sintomas são variados e podem incluir sensação de areia nos olhos, ardência, coceira persistente, vermelhidão e, em casos mais avançados, visão embaçada. Tais desconfortos podem afetar a concentração e o desempenho escolar das crianças, além de gerar irritabilidade e cansaço visual.
A conexão entre telas e o ressecamento ocular
A oftalmologista Ana Paula Silverio, em debate durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), realizado em Salvador, explicou detalhadamente o mecanismo por trás dessa condição. Segundo a especialista, ao passar horas seguidas em frente a telas, especialmente as de celulares e tablets que são posicionadas muito próximas ao rosto, a frequência do piscar diminui consideravelmente. Esse piscar reduzido leva a uma evaporação mais rápida da camada lacrimal, causando a sensação de secura ocular e todos os seus sintomas associados.
A Dra. Silverio ressalta que muitos pais procuram o consultório com queixas de que seus filhos começaram a piscar mais ou a relatar desconforto visual. Essa observação parental é crucial para o diagnóstico precoce e a intervenção. A dificuldade em controlar o tempo de tela dos filhos é uma realidade para muitas famílias, que buscam orientação profissional para lidar com os desafios dessa era digital.
Adolescentes: o grupo de maior risco para olho seco
Embora crianças de todas as idades possam ser afetadas, a oftalmologista aponta que o risco é ainda maior entre os adolescentes. Este grupo demográfico tende a passar uma parcela considerável do seu dia utilizando celulares, que, por possuírem as menores telas, exigem um esforço visual maior e são frequentemente mantidos a uma distância inadequada dos olhos. Outro fator agravante é o hábito de usar esses dispositivos em ambientes com pouca ou nenhuma iluminação, geralmente dentro do quarto, o que intensifica o estresse ocular.
A rotina dos adolescentes, que inclui o uso de tablets ou computadores para estudos escolares e, posteriormente, o celular para lazer, cria um ciclo de exposição contínua às telas. “Os pais já chegam falando: ‘Doutora, fala pra ele que não pode usar o celular assim’”, relatou Ana Paula, evidenciando a luta diária das famílias para moderar o uso dos aparelhos. A especialista enfatiza que, embora seja quase impossível isolar as crianças e adolescentes do contato com a tecnologia, é fundamental buscar um equilíbrio.
Recomendações e o desafio da era digital
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda um tempo máximo de duas horas diárias de telas para crianças acima de seis anos e para adolescentes. Essa orientação visa proteger a saúde ocular e o desenvolvimento geral dos jovens, que podem ser impactados negativamente pelo uso excessivo de dispositivos digitais. Além da limitação do tempo, outras medidas podem ser adotadas para mitigar os riscos do olho seco e outros problemas visuais.
- Regra 20-20-20: A cada 20 minutos de tela, olhar para um objeto a 20 pés (cerca de 6 metros) de distância por 20 segundos.
- Distância adequada: Manter a tela a uma distância de 50 a 70 centímetros dos olhos.
- Iluminação ambiente: Utilizar os dispositivos em ambientes bem iluminados, evitando o contraste excessivo entre a tela e o entorno.
- Incentivo a atividades ao ar livre: Estimular brincadeiras e esportes que promovam o foco em diferentes distâncias e a exposição à luz natural.
A Dra. Silverio reforça a necessidade de conscientização e de um esforço conjunto entre pais, educadores e profissionais de saúde para gerenciar o tempo de tela. “A gente vive essa era. Só se a gente mandar uma criança ou adolescente pra Marte, pra que ele não tenha contato com o celular. Mas temos sim que tentar diminuir o tempo de uso”, concluiu, destacando que a moderação é a chave para proteger a visão dos jovens na era digital. É um desafio que exige atenção constante e estratégias adaptadas à realidade de cada família.
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