O Paraná consolidou-se como um epicentro do consumo de cigarros ilegais no Brasil, revelando uma proporção alarmante: seis em cada dez maços comercializados no estado são fruto de contrabando ou de produção clandestina. Esse índice, que chega a aproximadamente 60%, mais que dobra a média nacional de 31% e representa o maior patamar registrado no estado desde 2021, segundo dados recentes divulgados pelo Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP). A gravidade da situação se estende para além das fronteiras, transformando o estado em uma rota crucial para a distribuição desses produtos por todo o país, gerando perdas bilionárias e desafiando constantemente as forças de segurança e a saúde pública.
A Geografia do Contrabando: Por Que o Paraná?
A posição geográfica estratégica do Paraná, em especial sua extensa fronteira com o Paraguai, é apontada como o principal vetor para a proliferação desse mercado ilícito. Regiões como Foz do Iguaçu e Guaíra, banhadas pelo vasto lago de Itaipu, tornam-se verdadeiras portas de entrada para produtos ilegais, facilitando a movimentação de cargas em grande escala. Jose Antonio Bassoni, chefe de comunicação da Receita Federal em Foz do Iguaçu, corrobora essa realidade ao afirmar que quase 53% das apreensões estaduais e mais de um quinto das nacionais, neste ano, concentraram-se na cidade fronteiriça.
Edson Vismona, presidente do FNCP, reforça que “o Paraná é um estado estratégico, com a fronteira que tem de Guaíra até Foz do Iguaçu, com o Paraguai, e todo o lago de Itaipu. Então, temos muitas frentes de entrada de produtos ilegais.” De fato, cerca de 85% dos cigarros ilegais que chegam ao Brasil cruzam as fronteiras do Paraná e do Mato Grosso do Sul, antes de serem pulverizados por todo o território nacional, alimentando uma cadeia de distribuição complexa e bem organizada.
Impacto Econômico e Tributário: Bilhões Perdidos
As cifras que dimensionam o prejuízo são igualmente alarmantes. Em 2025, o mercado ilegal de cigarros no Paraná movimentou estimados R$ 1,8 bilhão, conforme cálculos do FNCP, representando um duro golpe para a economia formal e a arrecadação. Somente em Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), as perdas para os cofres públicos estaduais atingiram a marca de R$ 660 milhões. Esse montante poderia ser revertido em investimentos cruciais em áreas como saúde, educação e infraestrutura, beneficiando diretamente os cidadãos paranaenses, incluindo os moradores de Guarapuava.
O volume de apreensões pela Receita Federal ilustra a magnitude do desafio imposto às autoridades. Em 2024, mais de 70 milhões de maços de cigarros contrabandeados foram retirados de circulação, avaliados em impressionantes R$ 385 milhões, com o Paraná respondendo por 47% de todas as apreensões do país. Embora o volume tenha apresentado uma leve queda para R$ 334 milhões em 2025, os primeiros meses deste ano já somam apreensões de R$ 50 milhões e pouco mais de 7 milhões de maços, representando 41% do total nacional. Esses números revelam um esforço contínuo das autoridades, mas também a persistência e a resiliência do crime organizado.
A Lógica do Consumo Ilegal: Preço Versus Imposto
A força motriz por trás desse mercado pernicioso é, em grande parte, a brutal diferença de carga tributária entre o Brasil e o Paraguai. Enquanto no Brasil os impostos sobre o cigarro podem variar de 70% a 90% do preço final, no Paraguai essa média é de apenas 13%. Essa disparidade se traduz diretamente em um preço final ao consumidor que pode ser até 40% menor para o produto ilegal, tornando-o extremamente atrativo para uma parcela da população.
“O consumidor pede o cigarro estrangeiro porque sabe que é mais barato. E é mais barato porque não paga imposto”, explica Edson Vismona. Essa lógica de mercado, baseada na busca por menor preço, facilita a distribuição e o consumo. Os cigarros ilegais não são encontrados apenas em mercados paralelos; eles se infiltram em estabelecimentos formais e informais, desde barraquinhas de rua e bancas de jornal até bares e padarias, sendo muitas vezes oferecidos “de forma mais discreta” quando o cliente busca a opção mais em conta.
Além do Contrabando: As Fábricas Clandestinas no Brasil
Para além do fluxo constante de cigarros contrabandeados, as autoridades têm enfrentado um fenômeno crescente e igualmente preocupante: a proliferação de fábricas clandestinas em solo brasileiro. Esses empreendimentos operam totalmente à margem da lei, sem qualquer controle sanitário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e sem o recolhimento de impostos. O que as torna particularmente atrativas para o crime é a capacidade de produzir cigarros a custos irrisórios, muitas vezes falsificando até mesmo marcas paraguaias já conhecidas no mercado ilegal.
“A vantagem dessa fábrica clandestina é que ela está instalada dentro do território brasileiro, próximo dos centros de consumo e também não paga nada de impostos, por isso atrai o consumidor que procura um preço mais baixo”, salienta Vismona. Essa modalidade adiciona uma camada de complexidade ao combate, pois o produto não precisa atravessar fronteiras, tornando-se ainda mais difícil de rastrear e combater, além de expor os consumidores a riscos sanitários imprevisíveis devido à ausência de fiscalização.
Repercussões para o Paraná e o Cidadão Paranaense
O cenário desenhado pelo avanço do cigarro ilegal no Paraná tem implicações profundas que afetam diretamente o dia a dia do cidadão. As perdas tributárias bilionárias significam menos recursos para investimentos essenciais em saúde, educação e infraestrutura em todo o estado. Além disso, a ausência de controle sanitário sobre esses produtos clandestinos e contrabandeados representa um sério risco à saúde pública, expondo os consumidores a substâncias nocivas e sem qualquer garantia de qualidade.
A facilidade com que esses produtos chegam às mãos do consumidor final também alimenta o crime organizado, que encontra no contrabando de cigarros uma de suas principais fontes de financiamento, impactando a segurança pública. Para o morador de Guarapuava e de todo o Paraná, a luta contra o cigarro ilegal é uma batalha por mais recursos para o estado, por produtos seguros e por uma sociedade menos refém da criminalidade e dos riscos associados a um mercado sem controle.
Acompanhar de perto a dinâmica do contrabando e seus impactos é fundamental para compreender os desafios complexos que o Paraná enfrenta. No Guarapuava no Radar, estamos comprometidos em trazer a você as informações mais relevantes e aprofundadas sobre este e outros temas que moldam nossa realidade. Continue conosco para se manter atualizado sobre os desdobramentos, análises e reportagens exclusivas que impactam a sua comunidade e o seu estado, com a credibilidade e a variedade de temas que você já conhece.
Fonte: https://g1.globo.com