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Pré-natal integral: estudo revela profundas disparidades entre indígenas e mulheres com baixa escolaridade

© Agência Brasil/Marcello Casal Jr./Arquivo

Embora a grande maioria das gestantes brasileiras, cerca de 99,4%, inicie o acompanhamento pré-natal com pelo menos uma consulta, a jornada rumo à integralidade desse cuidado essencial revela um cenário de profundas desigualdades no país. Um estudo recente aponta que o acesso completo ao pré-natal diminui drasticamente para mulheres indígenas, aquelas com menor nível de escolaridade e as que residem na Região Norte, evidenciando abismos sociais que impactam diretamente a saúde de mães e bebês.

O levantamento, divulgado por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) em parceria com a Umane, organização dedicada à qualidade do Sistema Único de Saúde (SUS), baseia-se em dados de mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados em 2023. Ele joga luz sobre um dado alarmante: a cobertura que começa em 99,4% na primeira consulta, cai para apenas 78,1% até a sétima consulta, considerada o mínimo ideal para um pré-natal eficaz. O acompanhamento, que deveria ter início até a 12ª semana de gestação, é crucial para prevenir complicações e garantir o bem-estar materno-infantil.

Educação e Origem Étnica: Obstáculos à Saúde

As disparidades se tornam mais evidentes ao analisar o nível de escolaridade das gestantes. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível de educação formal conseguem completar o pacote de consultas do pré-natal, esse percentual despenca para 44,2% entre aquelas com menos tempo de estudo. Essa diferença de quase metade na adesão ao pré-natal integral sublinha como o acesso à informação e a capacidade de navegação no sistema de saúde são influenciados pela educação.

A situação é ainda mais crítica para as mulheres indígenas, que acumulam os desafios da baixa escolaridade e da origem étnico-racial. Apenas 19% das gestantes indígenas com pouca escolaridade conseguem seguir a quantidade recomendada de consultas, um índice drasticamente inferior aos 88,7% observados entre mulheres brancas com 12 anos ou mais de estudo. Este contraste revela um cenário de múltiplas vulnerabilidades, onde fatores históricos e estruturais se entrelaçam para criar barreiras significativas ao acesso à saúde.

A análise étnico-racial do estudo reforça a exclusão das mães indígenas. Somente 51,5% delas finalizam o acompanhamento, contra 84,3% das mulheres brancas. Mesmo em comparação com outros grupos da população negra, como as mulheres pretas (75,7%) e pardas (75,3%), as indígenas são as mais desfavorecidas. Em quase metade dos casos (46,2 pontos percentuais), o acompanhamento das indígenas é abandonado, uma taxa três vezes maior que a registrada entre mulheres brancas (15,3 pontos percentuais), indicando falhas sistêmicas na captação e retenção dessas gestantes.

Geografia e Idade: Outros Fatores de Vulnerabilidade

As diferenças geográficas também são um forte indicador das barreiras ao acesso. A Região Norte do Brasil apresenta a menor taxa de pré-natal integral respeitado, com apenas 63,3% das gestantes recebendo o cuidado adequado. Em seguida, vêm o Nordeste (76,1%) e o Centro-Oeste (77%). As regiões Sudeste (81,5%) e Sul (85%) mostram as melhores taxas, um reflexo das distintas realidades de infraestrutura, logística e oferta de serviços de saúde em um país de dimensões continentais, onde distâncias e falta de acesso a transporte público podem ser decisivas.

A idade também se configura como um fator de vulnerabilidade. Gestantes adolescentes, com menos de 20 anos, atingem o pré-natal integral em apenas 67,7% dos casos, patamar significativamente inferior aos 82,6% observados entre mulheres acima de 35 anos. Esse dado sugere que, além das questões de acesso, o estigma da gravidez na adolescência e a falta de programas direcionados podem afastar essas jovens do acompanhamento adequado, impactando a saúde de duas gerações.

Desafios e Soluções: O Olhar dos Especialistas

Luiza Eunice, pesquisadora responsável pelo estudo no ICEH/UFPel, destaca que o parâmetro de sete consultas é relativamente recente, tendo sido elevado pelo governo federal em 2024. Ela contextualiza as políticas em andamento, como a Rede Alyne, estratégia lançada este ano para reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027, com uma meta ambiciosa de redução pela metade entre gestantes negras. Eunice, nutricionista e doutora em saúde pública, defende que medidas de combate ao racismo estrutural e à discriminação na oferta do cuidado são cruciais.

A especialista também aponta para a necessidade de programas específicos para adolescentes, que abordem a educação sexual sem tabus, e para mulheres com menor escolaridade, evidenciando a importância do pré-natal como prioridade. Ela ressalta fatores práticos, como a disponibilização de transporte público para as unidades de saúde e a construção de um vínculo de confiança entre gestantes e profissionais, elementos essenciais para que o acompanhamento seja efetivo e contínuo. “É esse apoio, esse vínculo, essa captação ativa dessa gestante que vai melhorar a navegação dela para ela retornar às consultas”, afirma.

Evelyn Santos, gerente de Investimento e Impacto Social da Umane, ecoa a necessidade de um maior empenho do Poder Público. Apesar dos aprimoramentos na atenção primária, ela defende que “independentemente de onde moram, de cor de pele, de escolaridade, nós temos que ser capazes de fornecer o mesmo pré-natal, adequado, a todas as mulheres”. A visão é de um sistema de saúde proativo, que não espere que a gestante mais vulnerável precise “buscar” ativamente o seu direito, mas que chegue até ela, quebrando as barreiras impostas pelas desigualdades sociais.

O acesso desigual ao pré-natal integral no Brasil não é apenas uma estatística, mas um reflexo direto de complexas questões sociais, econômicas e estruturais. O estudo do ICEH/UFPel e Umane serve como um alerta contundente para a urgência de políticas públicas mais eficazes e inclusivas, que garantam a todas as gestantes, independentemente de sua etnia, educação, localização ou idade, o direito a um acompanhamento digno e completo. Ficar bem informado sobre temas tão cruciais é o primeiro passo para o debate e a busca por soluções. Continue acompanhando o Guarapuava no Radar para análises aprofundadas, notícias relevantes e contextualizadas, reforçando nosso compromisso com a informação de qualidade e a relevância social dos fatos que moldam o nosso país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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