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Reconfiguração territorial e dados do IBGE mudam liderança da produção agrícola no Brasil

Reconfiguração territorial e dados do IBGE mudam liderança da produção agrícola no Brasil
Foto: Wenderson Araujo/Trilux

O cenário da produção agrícola brasileira passou por uma significativa alteração, revelada pelos dados mais recentes da Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O município de Sorriso, localizado no norte de Mato Grosso e amplamente conhecido como a “capital do agronegócio” nacional, perdeu sua posição de destaque no topo do ranking dos maiores produtores agrícolas do país. Essa mudança não se deveu apenas a uma variação no desempenho produtivo das lavouras, mas principalmente a uma reconfiguração administrativa e geográfica do estado.

A liderança agora é ocupada por dois outros municípios com forte vocação agrícola: Sapezal, também em Mato Grosso, e São Desidério, na Bahia. A ascensão dessas cidades e a queda de Sorriso no ranking refletem uma dinâmica complexa que envolve tanto o crescimento da produção em algumas regiões quanto ajustes territoriais que impactam diretamente os indicadores econômicos e sociais do setor.

A Reconfiguração do Mapa da Produção Agrícola Nacional

A principal razão para a alteração no ranking está ligada à criação do município de Boa Esperança do Norte, uma nova entidade federativa que surgiu em áreas anteriormente pertencentes a Sorriso e Nova Ubiratã, ambos no estado de Mato Grosso. Essa divisão territorial resultou em uma diminuição de 9,3% na área plantada de Sorriso, afetando diretamente suas lavouras de soja, algodão e feijão, culturas que historicamente impulsionam a economia local.

A Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, que serve como base para essa constatação, também apontou um crescimento expressivo no valor da produção agrícola brasileira em 2025. O setor alcançou a marca de R$ 927,2 bilhões, representando um salto de 18,4% em comparação com o ano de 2024. Esse dado ressalta a pujança do agronegócio nacional, mesmo diante das reestruturações e desafios regionais.

O Impacto da Criação de Boa Esperança do Norte

A história da criação de Boa Esperança do Norte é um exemplo da complexidade dos processos de divisão territorial no Brasil. Embora a lei estadual que o instituiu seja do ano 2000, o município precisou aguardar mais de duas décadas para sua efetivação. Após uma decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso que apontou a criação como institucional, a Assembleia Legislativa do Estado recorreu. Somente em outubro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a criação, e a instalação oficial ocorreu em 1º de janeiro de 2025. Foi justamente neste ano que Sorriso perdeu seu título informal de “capital do agro”.

Com uma população estimada em 5,9 mil pessoas, o novo município de Boa Esperança do Norte absorveu parte da produção que, até 2024, era contabilizada por Sorriso, que possui uma população significativamente maior, de 124,7 mil habitantes. Essa transferência de território e, consequentemente, de capacidade produtiva, foi o fator determinante para a mudança na liderança do ranking.

Sapezal e São Desidério: Os Novos Líderes do Agro

Em 2024, Sorriso havia ostentado a liderança com um valor de produção de R$ 7,2 bilhões, seguido por São Desidério (R$ 6,6 bilhões) e Sapezal (R$ 5,9 bilhões). No ano seguinte, 2025, a produção agrícola de Sorriso cresceu para R$ 8,16 bilhões, mas foi superada por Sapezal, que atingiu R$ 8,59 bilhões, e São Desidério, com R$ 8,22 bilhões.

O valor da produção, conforme explica o IBGE, é uma combinação do volume físico produzido e dos preços praticados na venda, sendo expresso em moeda corrente do ano da pesquisa, sem correção inflacionária. Sapezal, o novo campeão, registrou um impressionante crescimento de 46,6% no valor de sua produção agrícola, impulsionado principalmente pelo cultivo de algodão herbáceo. Em 2025, o município produziu 1,2 milhão de toneladas do produto, que representou 60% de seus R$ 8,59 bilhões totais (R$ 5,13 bilhões). Além disso, Sapezal também apresentou avanços significativos na produção de soja (51,4%) e milho (58,1%), gerando R$ 2,8 bilhões e R$ 656,9 milhões, respectivamente. São Desidério, por sua vez, viu seu valor de produção crescer 23,7%.

Mato Grosso Mantém Hegemonia no Setor

Apesar da reconfiguração interna, o estado de Mato Grosso reafirma sua posição de destaque no cenário agrícola nacional. Com um valor total de produção agrícola de R$ 165,6 bilhões, o estado abriga cinco dos dez municípios brasileiros com maior valor de produção. Essa concentração demonstra a força e a importância do agronegócio mato-grossense para a economia do país.

A lista dos dez municípios com maior valor da produção agrícola e seus principais produtos em 2025 é a seguinte:

  • Sapezal (MT): R$ 8,59 bilhões – algodão
  • São Desidério (BA): R$ 8,22 bilhões – soja
  • Sorriso (MT): R$ 8,16 bilhões – soja
  • Campo Novo do Parecis (MT): R$ 7,87 bilhões – soja
  • Formosa do Rio Preto (BA): R$ 5,89 bilhões – soja
  • Diamantino (MT): R$ 5,82 bilhões – soja
  • Rio Verde (GO): R$ 5,69 bilhões – soja
  • Cristalina (GO): R$ 5,45 bilhões – soja
  • Nova Mutum (MT): R$ 5,39 bilhões – soja
  • Jataí (GO): R$ 4,84 bilhões – soja

Essa análise detalhada dos dados do IBGE permite compreender que as mudanças no ranking da produção agrícola são multifacetadas, envolvendo desde o desempenho das lavouras até as complexas dinâmicas territoriais e administrativas. Ficar por dentro dessas transformações é essencial para entender os rumos do agronegócio brasileiro.

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