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O monumental resgate de animais em Itaipu: a operação Mymba Kuéra que salvou milhares de vidas

O monumental resgate de animais em Itaipu: a operação Mymba Kuéra que salvou milhares de vidas
Foto: Itaipu Binacional

A construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma das maiores obras de engenharia do mundo, entre Brasil e Paraguai, nos anos 1980, não foi apenas um marco tecnológico. Ela também deu origem a uma das mais ambiciosas e bem-sucedidas operações de resgate de fauna silvestre da história da América Latina: a Mymba Kuéra, que em guarani significa “os animais”. Essa força-tarefa monumental mobilizou centenas de profissionais em uma corrida contra o tempo para salvar a vida de quase 39 mil espécimes terrestres da inundação.

Liderada pelo engenheiro agrônomo paraguaio Darío Pérez Chena, a operação pioneira no lado paraguaio, em 1982, retirou 27.150 animais da área que seria submersa pelo gigantesco reservatório. Somados aos cerca de 11 mil resgatados no lado brasileiro, o total atingiu um recorde sul-americano, demonstrando um compromisso ambiental sem precedentes para a época.

O Desafio Ambiental da Gigante Itaipu

A Usina de Itaipu, com mais de 7 km de comprimento, foi projetada para ser a maior hidrelétrica do mundo em sua inauguração. Sua construção, que durou nove anos e empregou cerca de 40 mil pessoas, exigiu o desvio temporário do rio Paraná para permitir as obras em terreno seco. Em 1982, tudo estava pronto para o fechamento das comportas e o enchimento do reservatório de aproximadamente 1.350 km².

No entanto, a área a ser inundada era parte vital da Floresta Atlântica do Alto Paraná, um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do planeta. Este habitat abrigava cerca de 20 mil espécies de plantas e pelo menos 2 mil espécies de animais, incluindo onças-pardas, onças-pintadas e 400 espécies de aves. A construção de Itaipu coincidiu com uma nova era na ecologia, impulsionada pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo (1972), que elevou o meio ambiente a uma questão global fundamental. O resgate da fauna de Itaipu, portanto, despertou enorme interesse internacional.

Mymba Kuéra: Planejamento e a Equipe Pioneira

A tarefa de resgatar a fauna silvestre foi assumida por Brasil e Paraguai, e no lado paraguaio, o projeto recebeu o nome de Mymba Kuéra. Os preparativos para o resgate levaram vários anos e incluíram um inventário detalhado de toda a área afetada, com a participação de botânicos, zoólogos e engenheiros florestais. Cada avistamento e rastro animal era registrado, criando um valioso arquivo da fauna paraguaia e oferecendo oportunidades de aprendizado para estudantes.

Darío Pérez Chena, então com 43 anos e diretor do Serviço Florestal Nacional do Paraguai, assumiu a liderança da equipe de resgate. Ele se mudou para Puerto Stroessner (hoje Ciudad del Este) com sua família, tornando-se responsável pela fauna e flora terrestre em Itaipu. Sua equipe de 189 pessoas foi cuidadosamente selecionada: jovens, com menos de 45 anos, que soubessem nadar e tivessem boa visão e audição. Além deles, uma equipe de apoio de mais 150 pessoas, incluindo médicos, enfermeiros, pilotos de helicóptero e mecânicos, garantia a infraestrutura necessária. Os socorristas foram treinados por técnicos brasileiros e de outros países para lidar com os desafios da operação.

A Corrida Contra a Água: Métodos e Descobertas no Resgate

A aventura teve início em 13 de outubro de 1982, quando as comportas do canal de desvio foram fechadas e o lago começou a ser inundado. Inicialmente, poucos animais eram resgatados, mas o número cresceu rapidamente, chegando a mais de 600 em um único dia. A prioridade era salvar os animais que não sabiam nadar ou que se cansavam na água, como macacos, tatus, cobras e tarântulas. Onças-pintadas, por exemplo, grandes nadadoras, não precisavam de auxílio.

A equipe se deslocava em lanchas, comunicando-se por rádio, muitas vezes em guarani. Pérez Chena recorda que a tecnologia da época era rudimentar, com rádios antigos e motores de lanchas menos desenvolvidos, mas a determinação superou as limitações. Os trabalhadores foram treinados para lidar com animais agressivos e venenosos; em cada lancha, havia um kit com soro antiofídico para emergências. Surpreendentemente, muitas aves também precisaram ser resgatadas, pois molhavam as penas da cauda, perdendo o controle do voo. A operação de resgate se estendeu até 10 de janeiro de 1983.

Um Legado de Conservação e Conhecimento para a Biodiversidade

Ao final da operação, os quase 39 mil animais resgatados foram destinados a diferentes locais. Muitos foram transportados para mais de 100 mil hectares de áreas protegidas dentro do mesmo ecossistema da Mata Atlântica. Centenas de cobras venenosas foram encaminhadas ao Instituto Butantan, em São Paulo, contribuindo para a produção de soros antiofídicos e pesquisas biológicas. Tatus do Alto Paraná, conhecidos por sua resistência à lepra, foram enviados a Tóquio para estudos científicos.

Darío Pérez Chena reconhece que, apesar da vasta operação, muitos animais não puderam ser salvos, especialmente insetos e criaturas subterrâneas. Ele lamenta as perdas, mas enfatiza que os erros foram por inexperiência, nunca por negligência. “Sempre trabalhamos com as mãos limpas, com a consciência limpa de que estávamos fazendo algo positivo para o mundo”, afirmou. A operação não registrou acidentes sérios entre os socorristas, apenas pequenas mordidas de macacos, e todos os 189 membros da equipe retornaram em segurança, unidos pela missão de proteger a vida.

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