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Rio Bom, no Paraná: A cidade que celebra mais de 13 anos sem homicídios, mesmo sem delegacia ou Guarda Municipal

Ministério da Justiça

No complexo panorama da segurança pública brasileira, onde a violência muitas vezes dita a pauta noticiosa, a pequena Rio Bom, no norte do Paraná, surge como um ponto fora da curva. Com pouco mais de 3 mil habitantes, a cidade celebra um recorde impressionante: há mais de 13 anos, nenhum caso de homicídio ou feminicídio é registrado em seus limites, um feito notável que se concretiza mesmo sem a presença de uma delegacia de Polícia Civil ou de uma Guarda Civil Municipal.

Este número, validado por dados do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP-PR), transcende a mera estatística. Em um país que anualmente contabiliza dezenas de milhares de mortes violentas, a longevidade da paz em Rio Bom sugere que fatores além da estrutura policial tradicional podem ser determinantes na construção de ambientes seguros. O município, inserido na 17ª Subdivisão Policial de Apucarana, confia sua segurança primária apenas a um destacamento da Polícia Militar, atuante no policiamento preventivo.

Um Modelo de Paz no Paraná

A calmaria de Rio Bom não é um fenômeno isolado, embora seja o mais duradouro no estado. Outras cidades paranaenses também se destacam por longos períodos sem crimes contra a vida: Novo Itacolomi, vizinha, acompanha o recorde com mais de uma década sem registros, enquanto Campo Bonito, no oeste, e Verê, no sudoeste, celebram nove e oito anos de paz, respectivamente. De janeiro a maio deste ano, 246 das 399 cidades do Paraná não registraram homicídios ou feminicídios, demonstrando que bolsões de segurança duradouros são uma realidade no estado. No entanto, Rio Bom se destaca pela consistência ímpar de seu período de tranquilidade.

A Teia Social como Escudo Protetor

Localizada no Vale do Ivaí, a cerca de 350 quilômetros da capital, Rio Bom revela sua essência no cotidiano. Ruas tranquilas, casas com muros baixos e a ausência de equipamentos de segurança ostensivos são a norma. Crianças brincam livremente, jovens ocupam as praças até mais tarde, e os moradores relatam a raridade de conflitos, mesmo durante as festas comunitárias. Essa atmosfera remete a um tempo em que os laços sociais eram mais estreitos e a confiança, um pilar da convivência.

Rosângela Erli Rech Mazzutti, comerciante local, expressa surpresa e satisfação com o recorde. "Isso mostra que a nossa população é saudável, com tantos problemas que vemos em todos os lugares, a nossa cidade está tão bem", afirma. A confiança mútua é palpável em sua rotina, que inclui a prática do "fiado" e o registro de vendas em cadernetas, raros hoje em dia. Essa familiaridade – "todo mundo conhece todo mundo" – se traduz em um sistema de segurança informal: "Quando chega alguém diferente, a gente já fica de olho, procura saber quem é, até mesmo por medida de segurança. Todo mundo se protege, se comunica", explica Rosângela.

Para Ilza Venturini da Silva, professora há 25 anos e nascida em Rio Bom, a cidade é um "grande lar". Ela ressalta a importância de ensinar o respeito ao próximo desde cedo, um valor fundamental para a coesão social. "A gente coloca o valor do ser humano, que está escasso em muitos lugares", comenta. Essa atenção ao desenvolvimento humano, inclusive com professores atentos a possíveis pedidos de socorro das crianças, reforça o cuidado social que permeia a comunidade.

Vínculos Comunitários e a Atuação Policial

O delegado Marcus Felipe da Rocha Rodrigues, chefe da subdivisão policial que abrange Rio Bom e Novo Itacolomi, confirma a percepção dos moradores. Para ele, o fortalecimento dos vínculos comunitários é a chave para a segurança. "É fundamental. E pelo fato de ser uma cidade pequena, essa relação ganha intensidade", explica. A integração entre a população e as forças de segurança, nesse cenário, resulta em uma cultura de denúncia mais ativa e eficaz, onde informações sobre potenciais conflitos ou pessoas estranhas circulam rapidamente.

Em um contexto onde o anonimato é escasso, a Polícia Militar, mesmo em um destacamento reduzido, consegue estabelecer uma relação de proximidade com a população. O policiamento preventivo se beneficia enormemente dessa confiança mútua. A comunidade não apenas conhece os policiais, mas se sente parte de uma rede de proteção, onde a informação flui e as tensões são identificadas e apaziguadas antes que escalem para crimes graves. Esse "capital social" se torna, paradoxalmente, um dos mais eficientes mecanismos de segurança.

Lições para o Futuro da Segurança Pública

O caso de Rio Bom oferece valiosas lições para o debate nacional sobre segurança pública. Em um país que investe pesado em policiamento ostensivo e tecnologias de vigilância, a experiência paranaense demonstra que a coesão social, a confiança mútua e a valorização do ser humano desde a infância são pilares insubstituíveis na prevenção da violência. Embora replicar o modelo em grandes centros urbanos seja complexo, a importância de fortalecer os laços comunitários e o capital social como estratégias complementares – e muitas vezes primordiais – à ação policial emerge com clareza.

Manter esse cenário de paz, contudo, é um desafio contínuo. Mesmo em pequenas cidades, a globalização, o acesso facilitado à informação e as mudanças nas dinâmicas sociais podem corroer, gradualmente, os alicerces comunitários. A preservação da tranquilidade em Rio Bom dependerá da capacidade da comunidade e das autoridades locais de adaptarem e reforçarem esses vínculos, garantindo que as futuras gerações continuem a desfrutar de um ambiente seguro e acolhedor.

A história de Rio Bom é um lembrete inspirador de que a segurança pública vai além da repressão, enraizando-se profundamente nas relações humanas e na organização social. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre os desafios e as soluções para a segurança no Paraná e no Brasil, além de outras informações relevantes e contextualizadas de diversas áreas, siga o Guarapuava no Radar. Nosso compromisso é com um jornalismo de qualidade, que explora os fatos por trás das manchetes, oferecendo uma leitura completa e fidedigna.

Fonte: https://g1.globo.com

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