Cinco meses se passaram desde que um tornado devastador atingiu Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, deixando um rastro de destruição e um trauma profundo em seus habitantes. Desde então, a prefeitura do município recebeu mais de R$ 35,5 milhões em recursos destinados à reconstrução e assistência à população. No entanto, o ritmo de aplicação desses valores gera preocupação: dados do Sistema de Informações Municipais (SIM), monitorado pelo Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), revelam que apenas cerca de R$ 12 milhões, ou seja, pouco mais de 34% do total, foram efetivamente empenhados – ou seja, tiveram seu destino definido e foram reservados para pagamentos.
Essa disparidade entre o volume de verbas recebidas e o percentual utilizado acende um alerta sobre a celeridade da recuperação da cidade e a transparência na gestão dos recursos emergenciais. Enquanto moradores ainda se esforçam para reerguer suas vidas e lares, a burocracia e a lentidão na aplicação do dinheiro público comprometem um processo que exige urgência e clareza, especialmente diante da dimensão da tragédia vivida pela comunidade.
O Cenário de Devastação e a Necessidade de Resposta Rápida
Em 7 de novembro de 2025, um tornado de categoria F4 – a segunda mais devastadora na escala Fujita – cruzou Rio Bonito do Iguaçu, município de aproximadamente 14 mil habitantes. Com ventos próximos dos 400 km/h, o fenômeno deixou um cenário de guerra: seis pessoas morreram, pelo menos 750 ficaram feridas e cerca de 90% das construções da cidade foram danificadas ou completamente destruídas. A tragédia não foi apenas material; o impacto psicológico é visível, com relatos de que “as crianças não ficam mais em casa quando chove”, evidenciando um trauma que persiste e afeta o cotidiano das famílias.
Diante da calamidade, a mobilização de recursos foi expressiva. As contas da prefeitura foram abastecidas por investimentos do Governo Federal, do Governo do Estado do Paraná e, de forma comovente, por doações de empresas e pessoas físicas. Todo esse montante, ultrapassando os R$ 35,5 milhões, tinha um propósito claro: auxiliar o atendimento à população afetada e financiar a indispensável reconstrução da cidade, desde a infraestrutura pública até as moradias particulares.
Onde Está o Dinheiro? Detalhes dos Repasses e a Aplicação Lenta
Apesar do volume robusto de fundos, a maior parte do dinheiro empenhado, cerca de R$ 11 milhões, veio do Fundo Estadual da Defesa Civil e foi prioritariamente direcionado para a compra de novos ônibus escolares. Embora a renovação da frota seja importante, a proporção empenhada para a infraestrutura mais diretamente ligada à recuperação das casas e edifícios públicos que foram devastados parece desproporcional.
Entre os repasses mais significativos, há quase R$ 14 milhões em transferências do Governo Federal especificamente para situações de calamidade pública. Esses valores deveriam ser usados em obras estratégicas, como a reconstrução da feira de produtores rurais, da Associação Comercial e Empresarial e do prédio da própria prefeitura, além da demolição de estruturas danificadas e da limpeza de escombros. No entanto, até o final de março, a Prefeitura Municipal de Rio Bonito do Iguaçu não havia reportado nenhum desses repasses como 'empenhado', mesmo com o prédio da prefeitura visivelmente em obras na época da apuração.
Outras fontes de receita incluem um repasse de R$ 8,3 milhões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), proveniente do pagamento de multas em ações criminais e destinado a municípios em calamidade. Somam-se a isso R$ 1.432.249,68 arrecadados por meio de uma campanha de doações via PIX e depósitos, organizada logo após o tornado, demonstrando a solidariedade da sociedade civil.
Ação do Ministério Público e a Busca por Transparência
A falta de clareza na aplicação e prestação de contas dos recursos não passou despercebida. O Ministério Público do Paraná (MP-PR) ingressou com uma ação civil pública, questionando a ausência de transparência no uso desses valores. Segundo o MP, a omissão de informações sobre os gastos em um momento de recebimento emergencial de cifras milionárias cria um ambiente propício para diversos riscos, violando o direito da sociedade à informação.
Para o promotor Igor Rabel Corso, que assina a ação, os dados disponibilizados pela prefeitura até o momento são insuficientes para um controle efetivo. “A gente tem informação de que é um volume muito grande, mas um número específico a gente não tem ainda”, pontua. Essa nebulosidade fomenta, conforme a ação, “a omissão e a inércia por parte dos agentes públicos, bem como a falta de controle e fiscalização de seus atos, o que possibilita, por conseguinte, o aumento do número de ilícitos administrativos passíveis de serem perpetrados”.
Em resposta à iniciativa do MP, a Justiça do Paraná aceitou a ação e concedeu um prazo de quatro meses para que o Portal da Transparência de Rio Bonito do Iguaçu seja adequado, priorizando as informações sobre as despesas extraordinárias decorrentes do tornado. O descumprimento da decisão pode acarretar uma multa de mil reais por semana de atraso na disponibilização dos dados, um sinal claro da seriedade com que o judiciário encara o tema.
As dificuldades no acompanhamento dos gastos são confirmadas até mesmo por órgãos de controle. Mario Antonio Cecato, auditor de controle externo do TCE-PR, relata que, apesar da existência de vários relatórios, um demonstrativo específico que permita levantar a situação exata dos gastos relacionados ao tornado “você não vai encontrar. Hoje nós não temos”. Essa afirmação reforça a gravidade da ausência de dados claros.
A Voz dos Atingidos e o Compromisso com a Fiscalização
Enquanto as questões burocráticas e judiciais avançam, a realidade em Rio Bonito do Iguaçu permanece desafiadora. A lentidão na aplicação dos recursos e a falta de transparência impactam diretamente a velocidade da reconstrução e, consequentemente, a superação do trauma coletivo. A reportagem do Guarapuava no Radar tentou contato com o prefeito da cidade, Sezar Augusto Bovino (PSD), mas a assessoria alegou dificuldades de agenda. Em nota, a prefeitura afirmou que o “Portal da Transparência está em constante atualização para atender às exigências legais” e encara a ação do Ministério Público como uma “oportunidade de aperfeiçoamento técnico”.
Essa situação em Rio Bonito do Iguaçu serve como um espelho para os desafios na gestão de crises e calamidades públicas em todo o país. A capacidade de resposta rápida, a eficiência na aplicação dos recursos e a transparência são pilares essenciais para garantir que a ajuda chegue a quem realmente precisa e para reconstruir não apenas estruturas, mas também a confiança da população nas instituições. O olhar atento da imprensa e dos órgãos fiscalizadores é fundamental para que a tragédia não seja agravada pela ineficiência e pela opacidade.
O Guarapuava no Radar continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa história, buscando levar informação relevante, atual e contextualizada. Nosso compromisso é com a verdade e com a prestação de serviço à comunidade, garantindo que temas cruciais como este recebam a atenção e a profundidade que merecem. Fique conosco para mais atualizações sobre este e outros temas que impactam a nossa região e o estado do Paraná.
Fonte: https://g1.globo.com