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Acolhimento especializado é essencial para saúde mental após luto gestacional

Acolhimento especializado é essencial para saúde mental após luto gestacional
© Tomaz Silva/Agência Brasil

A interrupção involuntária de uma gravidez é uma experiência que, para muitas mulheres, marca o início de um processo silencioso e doloroso. O que deveria ser um momento de celebração transforma-se, por vezes, em um luto solitário, frequentemente subestimado por familiares, amigos e até mesmo pelo sistema de saúde. Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alertam que a saúde mental dessas pacientes ainda é negligenciada, tornando o acolhimento um passo fundamental para evitar desdobramentos mais graves, como a depressão profunda ou o luto patológico.

O caso de Kalyane Ribeiro, que aos 32 anos enfrentou uma perda gestacional precoce, ilustra a invisibilidade que cerca o tema. Para ela, o luto gestacional cria um distanciamento social, onde quem está de fora raramente compreende a profundidade da perda. Esse cenário ganha relevância especial durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção ao suicídio, reforçando a necessidade de um olhar atento para mulheres que atravessam esse trauma.

A complexidade do trauma e as reações esperadas

A perda gestacional, independentemente da idade da gravidez, desencadeia uma série de reações físicas e emocionais. Segundo o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, é comum que a mulher sinta tristeza profunda, culpa, ansiedade e distúrbios do sono. O especialista ressalta que sofrer intensamente é uma resposta humana esperada e não deve ser confundida, de imediato, com uma patologia psiquiátrica.

O impacto biológico também é significativo. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri explica que a queda abrupta dos níveis hormonais após a perda, similar ao que ocorre no pós-parto, intensifica a vulnerabilidade emocional. Enquanto o luto é um processo natural, a psiquiatra faz um alerta importante: a paralisia da vida cotidiana, quando a mulher perde a capacidade de realizar atividades básicas ou apresenta pensamentos autodestrutivos por períodos prolongados, exige intervenção médica imediata com psicoterapia e, se necessário, medicação.

Desafios na assistência médica e proatividade

O obstetra Eduardo Felix Martins Santana, professor da Unifesp, aponta que entre 15% e 20% das gestações não evoluem, o que torna o luto gestacional uma questão de saúde pública frequente. O grande desafio, segundo ele, é a falta de uma rede de assistência que seja, de fato, proativa. O médico defende que os profissionais não devem esperar que a paciente retorne ao consultório já em estado de depressão para oferecer suporte.

A orientação é que o acolhimento seja iniciado logo após o diagnóstico da perda. A equipe médica, ao lado de familiares e amigos, precisa validar o sentimento da mulher, evitando frases que minimizem a dor, como a sugestão de uma nova tentativa de gravidez. A validação do luto é o primeiro passo para que a paciente se sinta segura para processar a experiência sem o peso do isolamento.

Redes de apoio e o papel da comunidade

Diante da lacuna no atendimento formal, muitas mulheres têm buscado refúgio em comunidades online. Kalyane Ribeiro, hoje com 34 anos, transformou sua vivência em um espaço de troca, criando a página Ainda me Sinto Mãe. A iniciativa conecta mulheres de diversas faixas etárias, desde adolescentes até aquelas que carregam o luto há décadas, provando que a necessidade de falar sobre o tema é universal e atemporal.

O projeto de Kalyane, que também resultou em um livro, demonstra que a conexão entre pares é uma ferramenta poderosa de cura. No entanto, essas redes não substituem o acompanhamento profissional. Para quem atravessa esse momento, o Ministério da Saúde reforça que buscar ajuda em serviços de saúde e conversar com pessoas de confiança são passos essenciais para atravessar o período de crise.

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