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Saúde Mental e o Mundo Digital: O Debate que Chegou a 80% das Escolas Brasileiras

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

O impacto das tecnologias digitais na saúde mental de crianças e adolescentes não é mais uma preocupação restrita a especialistas ou grupos de pesquisa. Ele já se tornou um tema central na agenda de oito em cada dez escolas brasileiras, revelando uma crescente conscientização sobre os desafios e oportunidades que o universo online apresenta para o desenvolvimento dos estudantes e, por extensão, para a sociedade como um todo.

Essa proporção impressionante, que abrange instituições de ensino fundamental e médio, tanto públicas quanto privadas, representa um salto significativo em apenas um ano. Em 2024, 62% das escolas abordavam o assunto; em 2025, esse número subiu para 80%, segundo os dados da pesquisa TIC Educação 2025. O levantamento, recém-lançado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), braço do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), oferece um panorama detalhado de como as escolas estão reagindo à era digital, marcada pela ubiquidade das telas e a constante conectividade.

A Escala do Debate nas Instituições de Ensino

A captação dos dados para a pesquisa foi realizada por telefone, alcançando 2.404 gestores de escolas em áreas urbanas e rurais, de todas as redes. Os resultados demonstram que as discussões sobre os efeitos das tecnologias digitais no desenvolvimento dos alunos e a importância de uma adoção crítica e consciente desses recursos estão se solidificando na rotina escolar. Longe de ser um tema periférico, a saúde mental em meio à conectividade se impõe como uma prioridade pedagógica e social, refletindo uma preocupação que ecoa em lares e comunidades por todo o país, especialmente após o aumento exponencial do tempo de tela durante a pandemia.

O Envolvimento de Famílias e Educadores

O aumento da participação da comunidade escolar no debate é notável e essencial. Em 2025, 75% dos gestores escolares se reuniram com pais e responsáveis para discutir o uso de tecnologias digitais no ambiente educacional – um incremento significativo em relação aos 60% registrados no ano anterior. Da mesma forma, a troca de informações e estratégias entre os profissionais da própria escola também se intensificou: 86% dos gestores conversaram com professores e outros colaboradores sobre o tema, comparado a 68% em 2024. Esses números sublinham um movimento em direção à responsabilidade compartilhada na formação digital dos jovens, reconhecendo que a escola não pode ser a única a abordar essa complexidade.

Outras pautas, diretamente ligadas ao uso consciente da tecnologia, também ganharam espaço relevante. A discussão sobre o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias digitais, por exemplo, saltou de 56% para 75% das escolas entre 2024 e 2025. Paralelamente, a inclusão da educação midiática no currículo escolar, essencial para formar cidadãos capazes de discernir informações e navegar em um cenário de notícias falsas e desinformação, teve um avanço considerável, passando de 46% para 67% das instituições. Essa expansão de temas indica uma abordagem mais holística e preventiva por parte das escolas, que buscam equipar os alunos com as ferramentas necessárias para um ambiente digital cada vez mais desafiador.

Desafios e Desigualdades na Ação Educacional

Apesar do avanço no debate, a implementação de ações concretas ainda enfrenta obstáculos significativos e revela desigualdades preocupantes. A pesquisa aponta que 65% das instituições de ensino desenvolvem alguma iniciativa voltada aos estudantes na área de tecnologia e saúde mental. Contudo, essa atuação é mais proeminente em escolas urbanas (72%) e naquelas que dispõem de infraestrutura digital adequada, como computadores e acesso à internet para uso pedagógico (75%). Isso sugere que a capacidade de agir está intrinsecamente ligada à realidade socioeconômica e estrutural de cada escola, acentuando a necessidade de políticas públicas que minimizem essas disparidades e garantam a equidade no acesso à educação digital.

Para os gestores que já implementam essas ações, os principais entraves são a baixa participação das famílias (75%) e a carência de materiais e recursos educacionais de apoio (64%). Já para as escolas que ainda não conseguem desenvolver atividades nessa área, a falta de materiais de apoio é ainda mais crítica (77%), seguida pela baixa adesão familiar (66%) e, de forma contundente, pela qualidade precária de computadores e da internet escolar (65%). Esses dados corroboram a análise de Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação, que destaca a necessidade de um “olhar atento às desigualdades estruturais, que podem se configurar em desafios à garantia de maior equidade na oferta da educação digital, conforme prevê normativas importantes, como o Plano Nacional de Educação”.

O Papel Essencial da Família e as Políticas Públicas

A integração entre escolas e famílias surge como um pilar fundamental para a construção de uma educação digital eficaz e para o amparo à saúde mental dos estudantes. A pesquisa revela que quase metade das escolas (49%) foi procurada por pais e responsáveis em busca de orientação para mediar o consumo digital de crianças e adolescentes. Em resposta, 48% das escolas ofereceram palestras com especialistas em bem-estar e saúde mental, e 46% distribuíram guias e materiais de orientação sobre hábitos digitais saudáveis. Contudo, Daniela Costa alerta que, “para que possam apoiar as famílias de maneira eficaz, as escolas precisam de suporte adequado e políticas públicas estruturadas”.

A complexidade do tema exige uma abordagem multifacetada, envolvendo não apenas escolas e famílias, mas também o Estado e as plataformas digitais. Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, ressalta que “construir uma educação digital plena e segura é um desafio estratégico para o país e que precisa ser compartilhado entre os diferentes atores sociais”. Ela enfatiza a importância de “aprimorar políticas públicas e estabelecer regras para a atuação de plataformas digitais”, além de regulamentação e apoio para que educadores e pais compreendam elementos imateriais como algoritmos e Inteligência Artificial, protegendo assim crianças e adolescentes dos riscos inerentes ao ambiente virtual, conforme preconiza o ECA Digital.

O Dilema do Celular em Sala de Aula

Um dos pontos mais sensíveis e visíveis desse debate é o uso de telefones celulares pessoais no ambiente escolar. O estudo aponta que 51% dos gestores afirmam que os alunos não podem levar o aparelho para a escola. Essa restrição, no entanto, varia significativamente com o perfil da instituição: é muito mais comum em escolas com turmas até os anos iniciais (69%) e menos prevalente no ensino médio (31%). Nas 40% das escolas que autorizam o uso, as regras de armazenamento e utilização são diversas, refletindo a dificuldade de se chegar a um consenso e a necessidade de adaptar as diretrizes à realidade de cada faixa etária e contexto educacional, equilibrando o potencial pedagógico com os riscos de distração e dependência.

A ascensão do debate sobre o impacto das telas na saúde mental nas escolas brasileiras é um reflexo direto da imersão cada vez mais profunda da sociedade no universo digital. Ele aponta para uma consciência coletiva crescente, mas também para a urgência de soluções integradas, que considerem as complexidades sociais, educacionais e regulatórias. À medida que essa discussão avança e novas pesquisas emergem, o Guarapuava no Radar continuará acompanhando de perto os desdobramentos, oferecendo a você, leitor, uma cobertura aprofundada, relevante e contextualizada sobre este e outros temas que moldam o nosso cotidiano e o futuro de Guarapuava, da região e do país. Mantenha-se informado com quem tem compromisso com a qualidade da notícia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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