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Teste do Pezinho Ampliado: Caminhos Distintos para Irmãos com a Mesma Doença Rara no Paraná

G1

Em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, a vida de dois irmãos revela de forma contundente o poder transformador do diagnóstico precoce. Aos 8 anos, Heitor Hideki Bueno Alves enfrenta uma rotina de isolamento, dependência medicamentosa diária, alimentação por sonda e internações frequentes. Seu irmão mais novo, Henry Haruki Bueno Soares, de 6 anos, frequenta a escola, brinca e leva uma vida ativa e plena. Ambos nasceram com a mesma condição genética rara, a Imunodeficiência Combinada Grave (SCID), mas seus destinos divergiram drasticamente em função do momento de suas descobertas.

A história de Heitor e Henry transcende o drama familiar e se tornou um símbolo eloquente no movimento pela ampliação do teste do pezinho, um exame fundamental realizado nos primeiros dias de vida do bebê, capaz de identificar precocemente doenças que, sem manifestar sintomas visíveis, podem ter consequências devastadoras. O caso desses irmãos paranaenses sublinha a urgência e a relevância de políticas públicas eficazes na área da saúde neonatal.

A Imunodeficiência Combinada Grave: Uma Corrida Contra o Tempo

A Imunodeficiência Combinada Grave (SCID), também conhecida como “doença da bolha”, é uma condição genética que compromete severamente as defesas do organismo. Bebês com SCID nascem com um sistema imunológico deficiente ou ausente, tornando-os extremamente vulneráveis a infecções que, para uma criança saudável, seriam facilmente combatidas. Sem tratamento, a taxa de mortalidade é altíssima: cerca de 98% dos bebês com SCID sem diagnóstico e tratamento morrem antes de completar dois anos de idade, como alerta a médica e pesquisadora Carolina Prando, do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.

O tratamento para SCID, que pode incluir um transplante de medula óssea, é mais eficaz quando iniciado antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas. É nesse contexto que a precocidade do diagnóstico se torna uma questão de vida ou morte, determinando se a criança terá a chance de um desenvolvimento saudável ou estará fadada a uma batalha constante contra infecções e complicações.

A Virada na Legislação e o Cenário Atual

Quando Heitor nasceu, em 2017, a SCID não integrava o rol de doenças rastreadas pelo teste do pezinho oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sua condição só foi identificada meses depois, após um longo e angustiante período de infecções graves e sucessivas internações, um calvário que poderia ter sido evitado com o diagnóstico na primeira semana de vida.

Em 2021, um marco legislativo alterou esse panorama. A Lei Federal nº 14.154 determinou a inclusão gradual de mais de 50 doenças no teste do pezinho, entre elas imunodeficiências graves como a SCID. A lei, que começou a valer em 2022, prevê uma ampliação em cinco etapas, embora não estabeleça um prazo máximo para a efetiva implantação de todas as novas análises em todo o território nacional. Essa lacuna temporal é um ponto de atenção, pois a urgência do diagnóstico não espera pelos ritos burocráticos.

Enquanto na rede privada o exame ampliado já era uma realidade comum e acessível para quem podia arcar com os custos, a universalização do acesso via SUS é um passo crucial para garantir equidade. O teste, que consiste na coleta de algumas gotas de sangue do calcanhar do recém-nascido, geralmente após as primeiras 48 horas de vida, é uma ferramenta de saúde pública de valor inestimável.

As Doenças Atualmente Rastreáveis e a Perspectiva da Ampliação

Atualmente, o teste do pezinho convencional do SUS identifica sete doenças: Fenilcetonúria, Hipotireoidismo congênito, Doença falciforme e hemoglobinopatias, Fibrose cística, Hiperplasia adrenal congênita, Deficiência de biotinidase e Toxoplasmose congênita. Cada uma delas representa uma ameaça significativa ao desenvolvimento infantil se não detectada e tratada a tempo. A ampliação trazida pela nova lei significa um salto gigantesco na proteção da saúde neonatal, adicionando um espectro muito maior de doenças metabólicas, genéticas e imunológicas.

A Dra. Carolina Prando reitera que o diagnóstico antecipado permite iniciar tratamentos antes mesmo do surgimento dos sintomas, o que é frequentemente decisivo. “Muitas vezes, uma mudança na alimentação ou o início precoce de um tratamento impede sequelas permanentes e pode até salvar a vida da criança”, explica, destacando que essa abordagem preventiva minimiza o sofrimento das famílias e os custos ao sistema de saúde em tratamentos complexos e de longo prazo.

A Experiência de uma Mãe: O Contraste entre Dois Mundos

Kelly Akemi Bueno, mãe de Heitor e Henry, é testemunha viva da profunda diferença que o momento do diagnóstico pode fazer. A gravidez de Heitor, em 2017, foi tranquila, sem indícios da doença rara. Somente aos quatro meses, com pneumonias graves recorrentes, a jornada de sofrimento começou. Meses de investigação, passagens pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 72 dias entubado precederam o diagnóstico de Imunodeficiência Combinada Grave, quando Heitor já estava em estado crítico.

Quando Henry nasceu, em 2019, a família, já ciente da condição genética, procurou imediatamente o teste do pezinho ampliado na rede particular. O diagnóstico de SCID foi feito nos primeiros dias de vida, permitindo que o tratamento fosse iniciado antes que qualquer sintoma grave se manifestasse. Essa intervenção precoce foi a chave para que Henry pudesse ter uma infância normal, contrastando dramaticamente com a realidade de Heitor.

Um Chamado à Efetividade e à Equidade

A história de Heitor e Henry ressoa em todo o Paraná e no Brasil, expondo a disparidade existente antes da Lei 14.154/2021 e a importância de sua implementação plena e ágil. A inclusão da SCID e de outras dezenas de doenças no programa de triagem neonatal do SUS representa um avanço civilizatório, garantindo que o acesso ao diagnóstico precoce não seja um privilégio, mas um direito de todas as crianças, independentemente de sua condição socioeconômica.

Para as famílias paranaenses, especialmente aquelas que vivem em municípios como Guarapuava e região, longe dos grandes centros urbanos, a efetivação dessa lei significa a esperança de uma vida mais saudável para seus filhos. A ausência de um prazo máximo para a conclusão das etapas de ampliação, contudo, gera uma angústia compreensível e reforça a necessidade de vigilância e cobrança por parte da sociedade e da imprensa para que a legislação se traduza em realidade nos postos de saúde de todo o país.

A luta pela vida de Heitor e a vitalidade de Henry são mais do que um relato pessoal; são um espelho das transformações necessárias na saúde pública brasileira. É um lembrete pungente de que a informação, o diagnóstico precoce e a vontade política podem, de fato, mudar o destino das pessoas.

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Fonte: https://g1.globo.com

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