O cenário político de Curitiba foi abalado nesta semana com a notícia de que o vereador Lórens Nogueira (PP), que até então presidia o importante Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Municipal, solicitou seu afastamento do cargo. A decisão veio à tona após a divulgação de um vídeo que o mostra recebendo R$ 5,6 mil em dinheiro vivo de uma funcionária de seu gabinete, no que se configura como uma das principais evidências em uma investigação por suspeita de 'rachadinha'.
A gravação, autorizada pela Justiça a pedido do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná (MP-PR), capturou o momento em que o parlamentar manuseia e conta as notas, antes de guardá-las em uma mochila. O episódio, que expõe uma prática ilegal reiteradamente combatida no país, levanta sérias questões sobre a integridade do serviço público e a confiança dos cidadãos em seus representantes eleitos.
O Esquema de 'Rachadinha': Entenda o Crime
A 'rachadinha', termo popularmente conhecido, descreve um esquema criminoso onde assessores ou servidores comissionados são compelidos a devolver parte de seus salários a políticos ou a seus superiores hierárquicos. Esta prática não apenas configura crimes como peculato, concussão ou lavagem de dinheiro, mas também mina a estrutura da administração pública, transformando cargos de confiança em moedas de troca para ganhos pessoais ilícitos. No contexto brasileiro, infelizmente, a 'rachadinha' tem sido uma mancha recorrente em diversos níveis de poder, desde legislativos municipais a esferas federais, demonstrando a persistência de desvios éticos e criminais no uso de recursos públicos e na gestão de equipes parlamentares.
As investigações do Ministério Público indicam que o caso envolvendo o vereador Lórens Nogueira não seria isolado. Suspeita-se que o esquema operava desde o início de seu mandato, iniciado em 2021, abrangendo todos os 12 servidores nomeados por ele. Em alguns relatos, funcionários teriam sido obrigados a repassar mais da metade de seus vencimentos ao parlamentar, uma situação que coloca os servidores em posição de vulnerabilidade, entre a necessidade de manter o emprego e a participação forçada em uma atividade ilegal.
Operação do Gaeco e Apreensão de Dinheiro
A saída de Nogueira da presidência do Conselho de Ética coincide com uma operação deflagrada pelo Gaeco na terça-feira (26), que teve o vereador como alvo principal. Durante a ação, as autoridades apreenderam uma quantia significativa de dinheiro em espécie. Na residência do parlamentar, foi encontrada uma mala com aproximadamente R$ 100 mil. Em outro endereço, pertencente a uma assessora ligada ao vereador, foram localizados R$ 8 mil, somando mais de R$ 108 mil apreendidos. Tais volumes de dinheiro vivo em posse de agentes públicos, sem justificativa clara e em meio a uma investigação de 'rachadinha', reforçam as suspeitas do Ministério Público e aprofundam a gravidade do caso.
A dinâmica flagrada no vídeo – o vereador contando as notas em um instituto que preside, recebendo dinheiro de uma assessora que ele mesmo nomeou e que, segundo o MP, era compelida a devolver parte de seu salário mensalmente – desenha um cenário preocupante. A filmagem, obtida com autorização judicial, é um elemento probatório de peso, que dificulta a defesa e acentua a pressão sobre o parlamentar.
Repercussão Política e Pedido de Cassação
A notícia da investigação e do vídeo gerou imediata repercussão na Câmara Municipal de Curitiba. A bancada do partido Novo, por exemplo, não tardou em protocolar uma representação pedindo a abertura de um processo disciplinar contra Lórens Nogueira por quebra de decoro parlamentar. Este movimento, direcionado à Mesa Diretora, visa investigar formalmente as práticas de utilização do mandato para atos de corrupção ou improbidade administrativa, além de conduta incompatível com a dignidade do cargo legislativo. Caso o processo seja instaurado e avance, o vereador Lórens Nogueira pode ter seu mandato cassado, o que significaria a perda de seu cargo eletivo.
A Câmara de Curitiba confirmou o recebimento do ofício de Nogueira, que foi despachado pela Mesa Diretora para dar andamento aos trâmites regimentais, abrindo caminho para a eleição de um novo presidente para o Conselho de Ética. Este conselho tem um papel crucial na fiscalização da conduta dos parlamentares, tornando a situação ainda mais delicada para o vereador, que estava à frente do colegiado responsável por zelar pela probidade na Casa.
O Que Diz a Defesa e os Próximos Passos
Diante das acusações, a defesa de Lórens Nogueira divulgou uma nota informando que está analisando os autos do processo para tomar as medidas jurídicas cabíveis. A nota reitera o respeito ao trabalho das instituições e destaca a necessidade de observância ao devido processo legal, à ampla defesa e à presunção de inocência, assegurando que os esclarecimentos serão prestados no momento oportuno. O partido Progressistas (PP), ao qual o vereador é filiado, informou que não se manifestará sobre o caso, aguardando o desenrolar das investigações.
Eleito pela primeira vez em 2020 para a Câmara Municipal, Lórens Nogueira obteve 4.727 votos, iniciando sua trajetória política com a responsabilidade de representar os curitibanos. O desdobramento deste caso terá implicações significativas não apenas para a carreira do vereador, mas também para a percepção pública sobre a ética na política local e para o próprio funcionamento das instituições democráticas em Curitiba.
A investigação prossegue, e os olhos da população de Guarapuava e região se voltam para Curitiba, acompanhando de perto os desenvolvimentos de um caso que expõe a fragilidade da confiança pública. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que afetam o Paraná, continue acompanhando o Guarapuava no Radar, seu portal de notícias comprometido com informação de qualidade, aprofundada e contextualizada.
Fonte: https://g1.globo.com