A Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), um encontro preparatório fundamental para as decisões anuais da ONU, encerrou-se na Alemanha com um saldo agridoce: poucos avanços concretos e a persistência de impasses em temas cruciais da agenda ambiental global. Realizada antes da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), agendada para novembro na Turquia, a reunião expôs a complexidade e as divergências que ainda permeiam a busca por soluções eficazes para a crise climática.
O secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas (UNFCCC), Simon Stiell, expressou uma visão mais otimista, destacando que os encontros reforçaram a necessidade de cooperação internacional e a importância da implementação dos compromissos firmados no Acordo de Paris. Segundo Stiell, os trabalhos técnicos desenvolvidos em Bonn serviram de alicerce para que os países possam progredir nas negociações durante a próxima conferência do clima. Essa perspectiva sublinha a natureza incremental e técnica das reuniões de Bonn, que visam aparar arestas e preparar terreno para as decisões políticas tomadas nas COPs.
Sociedade Civil Alerta para 'Naufrágio' e Bloqueios Sistêmicos
Contudo, a avaliação da sociedade civil e de importantes organizações não governamentais diverge significativamente da visão oficial. O Observatório do Clima (OC), uma rede de mais de 90 entidades brasileiras, classificou o resultado de Bonn como “decepcionante”, utilizando a forte metáfora de que a conferência “naufragou”. A organização apontou um cenário de incertezas políticas e dificuldades latentes para progredir em questões que são verdadeiramente fundamentais para a ação climática global.
Entre os pontos de maior fricção, o OC destacou a falta de consenso em temas como a meta global de adaptação – essencial para que países e comunidades se preparem e respondam aos impactos já sentidos das mudanças climáticas –, o programa de trabalho de mitigação, que visa à redução de emissões, e as sinergias entre as convenções do Rio, que abrangem biodiversidade e desertificação, além do clima. A dificuldade em preservar compromissos pré-acordados e até em publicar documentos críticos sobre a crise climática foi outro sinal de alerta.
Ataques à Ciência e Adiamento de Relatórios do IPCC
Um dos desdobramentos mais preocupantes, conforme o Observatório do Clima, foi a “investida surreal” de alguns países em desenvolvimento contra a própria base científica do regime climático. Liderados por nações como China e Índia, membros do G77 – o bloco que representa as nações do Sul Global –, houve um movimento para adiar a publicação do AR7, o próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O IPCC é a principal autoridade científica global em clima, e a tentativa de postergar seus relatórios pode ser interpretada como um esforço para desacelerar o ritmo das ações e decisões baseadas em evidências científicas, enfraquecendo a urgência do debate.
A LACLIMA reforçou essa percepção de estagnação, afirmando que os últimos dias da SB64 foram marcados por “bloqueios sistêmicos e decisões adiadas”. Negociações sobre financiamento climático, agricultura sustentável, mitigação de emissões, adaptação e as sinergias entre as Convenções do Rio ficaram sem um consenso claro, sendo empurradas para a COP31. Isso demonstra que os desafios financeiros e a implementação de medidas concretas continuam sendo os maiores calcanhares de Aquiles nas negociações.
A analista de políticas climáticas Marina Guião sublinhou a fragilidade em torno do financiamento público internacional, um pilar para a ação climática em países em desenvolvimento. A incerteza sobre se o financiamento terá um item de agenda e uma decisão estruturada na COP31, ou se permanecerá apenas como um diálogo, mostra a relutância de algumas nações desenvolvidas em assumir compromissos financeiros robustos, um ponto crucial para a credibilidade e eficácia do Acordo de Paris.
A Climate Action Network (CAN) também expressou preocupação com o impasse nas negociações sobre adaptação. Apesar de reconhecer avanços na agenda de transição justa – que busca assegurar que a transição para economias de baixo carbono seja equitativa e inclusiva –, as divergências sobre o financiamento impediram a concretização de consensos na Meta Global de Adaptação. Para a CAN, esse bloqueio reitera a necessidade urgente de ampliar o apoio financeiro aos países em desenvolvimento, que são os mais vulneráveis aos impactos climáticos, e de acelerar a implementação das promessas já feitas.
Um Olhar de Otimismo Cauteloso e o Papel do Brasil
Em contraste com as visões mais críticas, a World Wildlife Fund (WWF) apresentou uma avaliação um pouco mais positiva, percebendo que Bonn consolidou uma mudança gradual de foco nas negociações: de promessas para a implementação. Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas da instituição, ressaltou a importância da atuação da presidência brasileira da COP30 nesse contexto, sediada em Belém. “A coragem de trazer temas urgentes para a conversa climática definiu o cenário para o que vimos em Bonn”, afirmou, destacando a relevância de colocar a implementação real no centro dos debates.
Tatiana Oliveira, líder de estratégia internacional do WWF-Brasil, complementou que a ampla participação dos países reforça o compromisso com o multilateralismo. No entanto, ela alertou que o desafio agora é transformar esse engajamento político em resultados concretos, especialmente no que tange ao financiamento climático. Este, apesar de ser um elemento central para viabilizar as ações de mitigação e adaptação nas comunidades mais vulneráveis, continua sendo uma “agenda sem entregas concretas”.
Os impasses e os avanços limitados em Bonn evidenciam a complexa dinâmica das negociações climáticas internacionais. Enquanto o Brasil já sente os efeitos das mudanças climáticas, como ondas de calor intensas e eventos extremos que afetam lavouras e cidades, as decisões tomadas – ou adiadas – em encontros como este têm impacto direto na capacidade do país e do mundo de se adaptar e mitigar os efeitos de um clima em constante transformação. A COP31 na Turquia, portanto, será o palco decisivo para que a comunidade global demonstre se está pronta para ir além das promessas e entregar soluções reais para a crise que nos afeta a todos.
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