Com a proximidade das eleições gerais em outubro, um sinal de alerta paira sobre a integridade do processo democrático brasileiro. Especialistas em relações internacionais, geopolítica e tecnologia da informação apontam para um risco crescente de ações cibernéticas orquestradas pelos Estados Unidos (EUA) e, de forma ainda mais sutil, de manipulação através das grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs, com o objetivo claro de influenciar o pleito.
A preocupação não é recente, mas ganhou novos contornos a partir de uma série de medidas do governo de Donald Trump, que vão desde a imposição de tarifas comerciais até o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras. Este cenário sugere que as ações futuras podem migrar para o campo da cibernética, um terreno onde a interferência se torna mais complexa de identificar e combater.
O Alerta dos Analistas e um Memorando Inédito
A avaliação detalhada desses riscos foi feita por analistas consultados pela Agência Brasil, entre eles Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação. Aragon, que também é editor do portal Código Aberto — plataforma dedicada a artigos sobre política e tecnologia —, ressalta a gravidade de um memorando assinado por Trump em uma quarta-feira recente (12).
Este documento, de caráter inédito, autoriza o uso das big techs em operações de "vigilância cibernética" e "efeitos cibernéticos", termo que descreve ações destinadas a influenciar ou alterar sistemas digitais. A repercussão do memorando é considerada alarmante.
“Os efeitos desse memorando são assustadores. A gente está falando de espionagem e ação de hackeamento de altíssimo nível e muito profundo. Eles podem entrar literalmente no perfil de qualquer pessoa para fazer relatórios e dossiês para favorecer ou prejudicar determinado candidato”, alertou Reynaldo Aragon, sublinhando a capacidade invasiva e o potencial de manipulação dessas operações.
O Alcance das Operações Cibernéticas Autorizadas
Sob o pretexto de combater o crime transnacional cibernético, o memorando prevê uma parceria entre a Casa Branca e empresas privadas para ações que contemplam "acesso a tais sistemas de informação sem autorização do proprietário ou operador ou excedendo o acesso autorizado". Esta linguagem abre uma vasta gama de possibilidades para a coleta de dados e a influência oculta.
Ainda mais preocupante é a Operação de Efeitos Cibernéticos, também detalhada no memorando, que autoriza atividades em redes de telecomunicações, internet, sistemas de informação e de controle industrial. O resultado dessas ações pode ser a "manipulação, interrupção, negação, degradação ou destruição de sistemas de informação, redes, infraestrutura física ou virtual". Trata-se de uma capacidade que pode desestabilizar infraestruturas críticas e, no contexto eleitoral, minar a confiança pública ou até mesmo interferir diretamente em processos.
Aragon defende que, diante desse cenário, o Brasil precisa urgentemente desenvolver sua própria infraestrutura digital. A dependência de sistemas de empresas dos EUA, que atualmente controlam "todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro", representa uma vulnerabilidade estratégica que compromete a soberania nacional na esfera digital.
A Conexão Oculta: Big Techs como Instrumentos de Influência
Diferentemente de interferências públicas, as ações cibernéticas podem ser realizadas de forma "subterrânea", sem deixar rastros claros de autoria. O jornalista Reynaldo Aragon destaca que o impulsionamento de perfis nas redes sociais é apenas uma das táticas já em curso, mas o risco pode ir muito além, afetando a estrutura sistêmica da informação. "O risco é sistêmico e estrutural", frisou.
O professor de história e especialista em geopolítica, Euclides Vasconcelos, reforça a tese de que devemos esperar novas ações dos EUA para interferir nas eleições brasileiras, especialmente na tentativa de descredibilizar o sistema eleitoral, um tema recorrente em debates recentes. “As big techs são muito mais que plataformas ou espaços de discussões. Elas são empresas ligadas a Estados, ligadas a governos, que têm esforços e que conseguem mobilizar, canalizar e influenciar de maneira muito direta certos recortes demográficos da população”, comentou Vasconcelos, expondo a intrínseca ligação entre as corporações de tecnologia e os interesses geopolíticos.
Um exemplo da eficácia dessa atuação via plataformas digitais foi a imigração em massa a Ceuta, um enclave espanhol na África, onde mais de 60 mil pessoas foram influenciadas por notícias falsas disseminadas nas redes sociais do Marrocos. Tais incidentes demonstram o poder das plataformas para moldar narrativas e induzir comportamentos em larga escala.
A relação entre as big techs e o governo dos EUA é profunda. Euclides Vasconcelos lembrou da participação dos donos das principais empresas de tecnologia na posse de Donald Trump, um indicativo claro do interesse dessas corporações em se alinhar aos interesses governamentais e "agir como uma espécie de tentáculo dos interesses dos EUA na nossa região". Em junho de 2025, o Exército dos EUA foi além, revelando que executivos de gigantes da tecnologia como Meta, OpenAI e Palantir foram nomeados tenentes-coronéis do Destacamento 201, uma nova unidade criada para abrigar líderes tecnológicos e reforçar a colaboração estratégica.
O Contexto Geopolítico: Nova Doutrina de Segurança dos EUA
Por trás das ações do governo Trump, e de uma linha que pode ser continuada por outras administrações, está a nova doutrina de segurança dos EUA, divulgada no final de 2025. Essa doutrina prevê a "proeminência" do país norte-americano sobre toda a América Latina, uma visão que, na análise do mestrando em ciências militares Euclides Vasconcelos, fundamenta as tentativas de interferência em processos democráticos da região.
Este contexto geopolítico, combinado com a crescente capacidade cibernética e a influência das big techs, cria um ambiente complexo e desafiador para a soberania eleitoral brasileira. A preocupação se acentua quando se recorda que, em julho, o governo brasileiro barrou o visto de dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA sob suspeita de que pretendiam questionar a lisura do sistema eleitoral brasileiro, em um episódio que sublinhou a sensibilidade da questão.
O Que Isso Significa para o Eleitor Brasileiro
A discussão sobre interferência cibernética e a influência das big techs não é um debate distante, restrito a diplomatas e estrategistas militares. Ela toca diretamente na capacidade do cidadão de Guarapuava, e de todo o Brasil, de exercer seu direito ao voto de forma livre e informada. A manipulação de informações, o ataque à credibilidade das instituições eleitorais e a invasão de sistemas podem erodir a confiança na democracia e distorcer o resultado das urnas.
Entender esses riscos é o primeiro passo para fortalecer a resiliência do nosso processo democrático. A vigilância sobre o fluxo de informações, a busca por fontes confiáveis e a defesa da soberania digital tornam-se responsabilidades coletivas em um cenário onde a fronteira entre a informação e a desinformação se mostra cada vez mais tênue.
Manter-se informado é crucial para navegar por este cenário complexo. O Guarapuava no Radar está comprometido em trazer a você as análises mais aprofundadas e o contexto necessário para compreender os desafios que impactam diretamente a sua realidade. Continue acompanhando nosso portal para ter acesso a notícias relevantes, atuais e contextualizadas, cobrindo uma vasta gama de temas que importam para você e para a nossa região.