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Ensino de Jornalismo em Tempos de IA: o Debate Urgente sobre Ética, Crítica e Confiança Social

© Sam Balye/Unsplash

A Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) se tornou o epicentro de um debate fundamental para o futuro da informação no Brasil. Em meio ao 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), que se estendeu até 24 de abril, a ascensão vertiginosa da inteligência artificial (IA) e a escalada da desinformação impuseram uma pauta urgente: como as faculdades de jornalismo devem reagir para moldar os profissionais do amanhã? A resposta, segundo a professora Marluce Zacariotti, da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), reside na potencialização de uma formação humana, profundamente alicerçada na crítica e na ética, elementos indispensáveis para a construção da confiança social em um cenário cada vez mais complexo.

O Cenário da Desinformação e a Nova Revolução Tecnológica

Os últimos anos testemunharam uma transformação sem precedentes no ecossistema midiático. A chegada de ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de produzir textos, imagens e até vídeos com impressionante realismo, somada à proliferação de plataformas digitais que impulsionam conteúdos sem verificação, criou um terreno fértil para a desinformação. Esse fenômeno, muitas vezes denominado "infodemia", não apenas confunde o público, mas mina a credibilidade das instituições jornalísticas e, por extensão, as bases da própria democracia. O desafio imposto às faculdades de jornalismo é imenso: como formar profissionais capazes de navegar e reportar em um ambiente onde a verdade é constantemente questionada e a fronteira entre o real e o artificial se esvai?

A reflexão proposta por Zacariotti não é isolada. Relatórios de organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) frequentemente apontam os desafios para o futuro de um jornalismo íntegro, destacando a necessidade urgente de adaptação e resiliência da profissão. Nesse contexto, a discussão no ENEJor transcende a mera atualização técnica, focando na essência do fazer jornalístico e na sua capacidade de servir à sociedade.

Além da Técnica: A Ética e a Crítica como Eixos Transversais

Para a presidente da Abej, a resposta acadêmica não se limita a adicionar uma disciplina de inteligência artificial ou de combate à desinformação no currículo. A transformação deve ser mais profunda, permeando todas as áreas da formação. "É preciso olhar para a pedagogia do jornalismo com o objetivo de reafirmar o papel clássico da atividade", explica Marluce Zacariotti. Isso significa integrar esses temas de forma transversal, garantindo que a ética, a análise crítica e o senso de responsabilidade social sejam inerentes a cada etapa do aprendizado, desde a reportagem básica até as investigações mais complexas.

A pesquisadora enfatiza que a formação não pode prescindir do trabalho aprofundado em pesquisa jornalística e metodologias de verificação de dados. Embora as tecnologias possam potencializar essas atividades, é crucial que o papel humano — o olhar investigativo, a sensibilidade para as nuances sociais e a capacidade de contextualizar — seja reforçado. A IA deve ser vista como uma ferramenta de apoio, um copiloto, e não como um substituto para a inteligência e a sensibilidade humanas, que são insubstituíveis na busca por histórias relevantes e na validação de fatos.

A Extensão Universitária e o Diálogo com a Realidade Social

Um ponto central da discussão é o papel da extensão universitária. Zacariotti argumenta que o jornalismo é, por natureza, um curso extensionista. Isso implica olhar "além dos muros da faculdade", buscando parcerias e envolvendo-se com diferentes públicos para enriquecer o aprendizado e a prática. As instituições de ensino têm a responsabilidade de ajudar os futuros jornalistas a decifrar o "novo universo" — um cenário complexo, marcado por novos contextos econômicos e políticos que a tecnologia e a globalização impõem. "Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos", alerta a professora.

Essa perspectiva humanista da formação não deve, contudo, "vilanizar" as tecnologias. Em vez de uma visão apocalíptica, a defesa é por uma abordagem pragmática: entender a IA como uma ferramenta poderosa que, se bem utilizada, pode auxiliar o jornalista em diversas etapas do seu trabalho, desde a coleta e organização de informações até a identificação de tendências. O diálogo aberto com os alunos, que já convivem e interagem com essas ferramentas, é fundamental para explorar seu potencial de forma responsável e ética.

O Jornalista Cidadão e a Reconfiguração da Mídia

A formação do jornalista com "consciência cidadã" e o investimento em "literacia midiática" são considerados caminhos inegociáveis para o fortalecimento da profissão perante a sociedade. É preciso que o público compreenda não apenas o que é o jornalismo profissional, mas também como funciona o complexo ecossistema midiático atual. Isso inclui a capacidade de distinguir o trabalho de um jornalista — com suas metodologias de apuração, verificação e contextualização — da produção de conteúdo por influenciadores digitais, cujos objetivos e processos podem ser radicalmente diferentes. Essa diferenciação é vital para que as pessoas possam discernir informações confiáveis de meras opiniões ou conteúdos patrocinados.

A professora Marluce Zacariotti também aborda a reconfiguração do poder no sistema midiático. Se antes se falava de "impérios midiáticos" controlados por grandes corporações de mídia tradicionais, hoje os pesquisadores avaliam que as "big techs" (gigantes de tecnologia) são as verdadeiras detentoras desse poder. "Agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos", argumenta. Em um sistema digitalizado e plataformizado, onde cada indivíduo é um gerador de dados, a formação em jornalismo deve priorizar a crítica e a ética antes da técnica, preparando o profissional para encarar esses desafios de forma responsável e, assim, "fazer o diferencial".

A Essência da Troca Humana e o Futuro da Profissão

Em um mundo cada vez mais digital, Zacariotti ressalta a importância de priorizar aspectos presenciais na formação em jornalismo. A profissão, por sua natureza, é uma atividade coletiva que exige constante troca e interação humana, seja nas redações, em entrevistas ou na cobertura de eventos. "É sempre muito difícil imaginar como fazer isso totalmente online", pondera. A vivência em redações coletivas, a troca de ideias com colegas e professores, a experiência de campo e o contato direto com as fontes e as comunidades são elementos formativos insubstituíveis, que solidificam a compreensão da complexidade humana e social que o jornalismo se propõe a narrar.

O debate no ENEJor em Brasília, portanto, não apenas confronta a realidade imposta pelas novas tecnologias, mas reafirma os valores intrínsecos do jornalismo: o compromisso com a verdade, a serviço da sociedade. É uma busca pela reinvenção que não abandona a essência, mas a fortalece diante dos novos tempos, preparando uma nova geração de jornalistas para os desafios e as oportunidades da era da inteligência artificial.

As discussões em torno da formação em jornalismo refletem um momento crucial para a sociedade, onde a qualidade da informação impacta diretamente a vida de todos. Acompanhe o Guarapuava no Radar para mais análises aprofundadas e notícias contextualizadas sobre este e outros temas que moldam nosso cotidiano, reafirmando nosso compromisso com uma informação relevante e de qualidade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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