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Fala de vereadora em Curitiba gera acusação de xenofobia e representação no MPF: ‘Nasceu lá, mas vem encher o saco aqui’

G1

A Câmara Municipal de Curitiba tornou-se palco de um episódio que reverberou para além dos limites do plenário, culminando em uma representação no Ministério Público Federal (MPF) por acusação de xenofobia. A controvérsia envolveu as vereadoras Delegada Tathiana Guzella (PL) e Vanda de Assis (PT) durante uma sessão ordinária realizada na última quarta-feira (5), acendendo o debate sobre preconceito e a conduta parlamentar em espaços democráticos.

O cerne da questão surgiu quando, em meio à discussão sobre a criação de uma Política de Cadastro Municipal de Pessoas em Situação de Rua, a vereadora Vanda de Assis, natural de Campos Sales (CE), fazia uso da tribuna. Após a fala de Vanda, Tathiana Guzella interveio com um questionamento direto sobre a origem da colega, seguido da indagação: “Por que a senhora não volta para o Ceará? Por que a senhora veio para cá? A senhora nasceu lá, mas veio encher o saco aqui”.

Xenofobia e a Resposta no Plenário

A fala de Guzella foi imediatamente classificada por Vanda de Assis como xenofóbica, um crime previsto na legislação brasileira. “Essa prática de dizer: ‘Por que você não volta para a sua cidade? Por que você veio para cá?’ é xenofobia, e xenofobia é crime, vereadora. E a senhora será representada por isso”, afirmou Vanda, reforçando sua posição de combate a qualquer tipo de discriminação. O vereador Leonidas Dias (Podemos), que presidia a sessão, interveio prontamente, desligando o microfone de Guzella e destacando a gravidade da situação.

A repercussão imediata no plenário sublinha a importância do respeito às origens e à diversidade dentro do ambiente político. Vanda de Assis destacou seu papel como a primeira vereadora nordestina eleita em Curitiba, enfatizando que sua missão inclui combater a xenofobia, uma realidade que atinge milhões de brasileiros que migram internamente em busca de melhores oportunidades.

Contexto da Migração Interna e Preconceito

O episódio na Câmara Municipal de Curitiba não é um fato isolado, mas um eco de um preconceito historicamente presente no Brasil contra os migrantes, especialmente os nordestinos que se deslocam para o Sul e Sudeste. Ao longo das décadas, a migração de pessoas do Nordeste para outras regiões do país foi impulsionada por fatores econômicos e sociais, contribuindo significativamente para o desenvolvimento e a diversidade cultural das cidades receptoras. No entanto, essa jornada muitas vezes é marcada por desafios, incluindo a xenofobia e a desvalorização de suas raízes e identidades.

A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 5º, garante a igualdade de todos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, e o Artigo 3º estabelece como objetivo fundamental da República “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. A fala da vereadora Guzella, nesse contexto, toca em uma ferida aberta na sociedade brasileira, lembrando que a luta contra o preconceito de origem ainda é uma realidade. Incidentes como este alimentam discussões cruciais sobre o papel dos representantes eleitos em promover a união e o respeito, e não a divisão.

Desdobramentos e as Posições dos Envolvidos

Após a sessão, Vanda de Assis confirmou ter acionado a Polícia Militar, mas relatou que nenhuma viatura se deslocou até a Câmara. A representação de notícia-crime no Ministério Público Federal busca a apuração e responsabilização de acordo com a lei, dada a natureza de crime de xenofobia. O MPF é o órgão competente para investigar e promover a ação penal em casos que afetam direitos fundamentais e interesses coletivos.

Em nota, a vereadora Delegada Tathiana Guzella repudiou a acusação de xenofobia, afirmando que sua fala foi “tirada de contexto” e que não encontra respaldo em sua trajetória pessoal nem parlamentar. Guzella informou ainda ter registrado um Boletim de Ocorrência contra Vanda de Assis por “crime contra a honra”, elevando o embate para a esfera judicial. Por sua vez, Vanda de Assis reiterou que não tratará o episódio como uma mera “divergência política”, mas como um ato de discriminação que merece ser combatido. A Câmara Municipal de Curitiba, até o momento da última atualização da reportagem original, não havia recebido nenhuma representação formal sobre o caso em seus canais internos, o que não impede o prosseguimento das investigações externas.

Por Que Este Assunto Importa?

A discussão vai além do embate entre duas parlamentares. Ela toca na essência da democracia e na forma como o debate público é conduzido. Em um momento de polarização política, a linguagem utilizada por figuras públicas tem o poder de legitimar ou deslegitimar o preconceito. Este incidente serve como um lembrete de que o respeito à pluralidade e à dignidade humana deve ser a base de qualquer interação, especialmente em espaços de representação popular.

Para os cidadãos de Guarapuava e de todo o Paraná, a situação em Curitiba ressalta a importância de estarmos atentos ao discurso de nossos representantes e à defesa dos valores de inclusão e respeito. A xenofobia, seja ela velada ou explícita, mina a construção de uma sociedade justa e igualitária, onde a origem de uma pessoa nunca deveria ser motivo para questionar sua presença ou sua capacidade de contribuir.

Os próximos capítulos deste caso, incluindo a atuação do MPF e as possíveis movimentações dentro da própria Câmara, serão acompanhados de perto. Fatos como este nos convidam a refletir sobre a qualidade do debate público e a constante necessidade de reafirmar o valor da diversidade e da cidadania plena para todos, independentemente de onde tenham nascido ou de suas convicções políticas.

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Fonte: https://g1.globo.com

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