O cenário artístico brasileiro e internacional se despede de Juarez Machado, multiartista que faleceu nesta terça-feira (6) em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro. Nascido em Joinville (SC), Juarez construiu uma carreira singular ao longo de mais de seis décadas, transitando com maestria entre a pintura, escultura, desenho, ilustração e o cartunismo. Sua trajetória, que começou oficialmente em Curitiba, ganhou projeção global, culminando em uma inesperada e emocionante conexão com o cinema mundial, ao inspirar a paleta de cores e figurar nas paredes do aclamado filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.
A notícia de seu falecimento foi confirmada pelo Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM), que ressaltou a relevância de sua obra e a marca indelével que deixou nas artes. A vida e a obra de Juarez Machado são um testemunho da capacidade de um artista de observar o cotidiano e transformá-lo em um universo próprio, imediatamente reconhecível e profundamente humano.
Um legado artístico de alcance global
A versatilidade de Juarez Machado era uma de suas características mais marcantes. Ao longo de sua extensa carreira, ele não se limitou a uma única forma de expressão, explorando diversas linguagens artísticas que o consagraram como um dos grandes nomes da arte brasileira. Seu reconhecimento internacional foi solidificado por exposições em diferentes partes do mundo, mas foi em Paris que uma de suas obras encontrou um destino surpreendente e icônico.
No início dos anos 2000, o cineasta francês Jean-Pierre Jeunet, em busca de inspiração para as cores de seu novo filme, deparou-se com as telas de Juarez Machado em uma galeria parisiense. As tonalidades e a atmosfera das pinturas do artista brasileiro capturaram a essência que Jeunet desejava para “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. O diretor fotografou quadros e trabalhos de Juarez, utilizando-os como referência para a equipe de filmagem. O resultado foi que dois quadros de Juarez Machado foram incorporados ao cenário do filme, adornando as laterais da cama da protagonista, Amélie Poulain, e tornando-se parte da estética visual de um clássico cinematográfico.
Esse reconhecimento no cinema foi particularmente significativo para Juarez. O jornalista José Carlos Fernandes, que o entrevistou em diversas ocasiões, relatou que o artista frequentemente expressava a sensação de não ser plenamente valorizado na França, apesar de viver lá por muito tempo. Ser escolhido como inspiração estética para um filme de tal magnitude, que geralmente busca referências em artistas clássicos, representou uma virada em sua percepção e o emocionou profundamente, validando sua arte em um cenário global.
As raízes paranaenses e o início em Curitiba
Embora nascido em Joinville, foi em Curitiba que Juarez Machado fincou as raízes de sua trajetória artística. Entre 1961 e 1965, ele estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), período crucial para o desenvolvimento de seu talento. Foi também na capital paranaense que ele vendeu seu primeiro quadro e realizou sua primeira exposição individual, marcando o início oficial de sua carreira.
A Galeria Cocaco, inaugurada em 1957, foi o palco dessa estreia. O espaço era um ponto de encontro vibrante para intelectuais, artistas e jovens que fervilhavam com as inquietações do modernismo. Juarez Machado, junto a colegas como Fernando Calderari e João Osório Brzezinski, tornou-se um frequentador assíduo. Eugenia Petriu, proprietária da galeria, recorda o carisma do artista, que atraía não apenas os amantes da arte, mas também um público jovem feminino, curiosas para vê-lo. A galerista lembra que Juarez estava sempre rabiscando, com o desenho sendo sua principal linguagem na época, antes de se aventurar mais intensamente pela pintura a óleo. Anos depois, uma exposição de seus desenhos de humor na Cocaco, em 1971, foi um sucesso de público, embora, curiosamente, não tenha resultado em vendas.
Da crítica social ao humor televisivo
A veia criativa de Juarez Machado não se restringia às galerias. Ele foi um chargista prolífico, contribuindo para alguns dos principais jornais do país. Durante o período da ditadura cívico-militar no Brasil, Juarez utilizou seu talento para burlar a censura, publicando contribuições ácidas em veículos como “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Desfile”, “Ele e Ela” e o icônico “O Pasquim”, além do “Jornal do Brasil”. Sua capacidade de expressar humor e crítica através do desenho o tornou uma voz importante em tempos de repressão.
Nos anos 70, Juarez Machado também se destacou como pioneiro do desenho de humor na televisão brasileira. Ele integrou a equipe de criação do programa Fantástico, da Rede Globo, onde não só atuou como cenógrafo, produzindo cenários e efeitos para vídeos musicais de artistas, mas também teve um quadro memorável. Nele, Juarez se apresentava como mímico, interagindo de forma inovadora com seus próprios desenhos, demonstrando uma fusão única de performance e arte visual que marcou a televisão da época.
A estética única e a preservação da memória
A capacidade de Juarez Machado de criar um universo próprio e reconhecível era um de seus maiores talentos. Waldir Simões de Assis Filho, da renomada galeria Simões de Assis, que o convidou para integrar seu elenco após uma temporada em Paris, descreve as pinturas que o artista trouxe da Europa: “mulheres sensuais e misteriosas, vestidas de negro, sentadas às mesas de bares, envolvidas por uma atmosfera de magia, nostalgia e certa ambiguidade entre o real e o imaginário”. Segundo Waldir, essa era uma pintura muito particular, que não se confundia com a de nenhum outro artista, revelando uma linguagem própria e uma personalidade marcante.
A artista Teca Martins, amiga de Juarez desde os tempos de estudantes na Embap, corrobora essa visão, destacando o humor e a criatividade como características essenciais. Teca, que inclusive fez a ponte para a venda de uma das primeiras obras de Juarez, enfatiza a liberdade de seu traço e a vivacidade de seus desenhos de humor. Em 2022, Juarez Machado celebrou seus 80 anos com a exposição “Juarez Machado – Volta ao Mundo em 80 Anos” no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Com curadoria de seu irmão Edson Machado, a mostra reuniu 166 obras, abrangendo desde o início de sua carreira na capital paranaense até sua fase internacional em Paris, consolidando sua trajetória.
Para perpetuar seu legado, o Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM) foi inaugurado em 2014, em Joinville. Esta instituição sem fins lucrativos dedica-se à difusão da arte no Norte catarinense e abriga um vasto acervo do artista, incluindo o primeiro desenho “registrado” por ele aos 3 anos de idade: um tanque de guerra esboçado na página de um jornal que noticiava a Segunda Guerra Mundial, guardado por sua mãe. A existência do Instituto garante que as futuras gerações possam ter acesso e apreciar a riqueza da obra de Juarez Machado.
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